Ser adolescente nunca foi tarefa simples. Faixa etária que compreende
dos 10 aos 19 anos, a adolescência é uma fase de descobertas, marcada por
intensas transformações físicas, emocionais e sociais. É durante esse período
que surgem os questionamentos sobre identidade, pertencimento e propósito,
acompanhados de comportamentos esperados como a busca por autonomia, a
contestação de regras e a valorização da convivência em grupo. É uma fase de
experimentação e de construção da própria visão de mundo – processo essencial,
mas que também expõe os jovens a vulnerabilidades.
Se há algumas décadas os desafios dos adolescentes se restringiam
a questões escolares, relacionamentos e expectativas familiares, hoje os jovens
enfrentam um cenário muito mais complexo. Cada vez mais cedo, os jovens estão
sobrecarregados por pressões internas e externas que extrapolam sua capacidade
de lidar com frustrações, muito devido à hiper conexão.
Os adolescentes de hoje são a primeira geração 100% digital,
conectada 24 horas por dia em frente a telas, em contato com uma infinidade de
informações, estímulos e comparações sociais. As redes oferecem oportunidades
de aprendizado e expressão, mas também podem ser palco de cyberbullying,
isolamento e dependência tecnológica. Muitas vezes, o celular substitui
conversas cara a cara e momentos de convivência familiar, comprometendo a
qualidade das relações e a saúde emocional.
Um cenário preocupante que contribui para o crescimento das taxas
de adolescentes que chegam ao ponto trágico de tirar a própria vida. Segundo a
Fiocruz, entre 2011 e 2022, a taxa de suicídio entre jovens cresceu 6% por ano
no Brasil, enquanto a taxa da população geral cresceu 3,7% no mesmo período.
Outro dado alarmante da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) mostrou que a
ansiedade entre crianças e jovens superou os índices observados entre adultos
em nosso País em 2023: a taxa de jovens de 10 a 14 anos atendidos por
transtornos de ansiedade atingiu 125,8 a cada 100 mil; e, entre adolescentes,
157 a cada 100 mil – enquanto a taxa de adultos acima de 20 anos está na casa de
112 a cada 100 mil.
Outro ponto que merece atenção são os medos e inseguranças dessa
geração. Além das ansiedades típicas da idade, os adolescentes convivem com
preocupações globais: mudanças climáticas, instabilidade política e social,
incertezas sobre o futuro do trabalho e até os avanços acelerados da
inteligência artificial que ameaçam extinguir ou substituir empregos. A
percepção de um mundo instável gera sentimentos de impotência e angústia,
ampliando a pressão sobre jovens, que ainda estão formando sua identidade.
Diante desse quadro, qual é o papel dos adultos? Pais, famílias e
responsáveis não podem se furtar da responsabilidade de acompanhar, orientar e
impor limites. O diálogo aberto, a escuta ativa e a valorização das emoções dos
adolescentes são fundamentais. Escolas também devem assumir um compromisso
maior, indo além do conteúdo acadêmico para investir em programas de educação
socioemocional, prevenção e cuidado com a saúde mental.
É urgente refletir sobre como podemos oferecer um ambiente mais
seguro, saudável e humano para que nossos jovens atravessem essa etapa de forma
plena. Famílias, educadores e gestores públicos devem unir esforços na
construção de uma geração que consiga não apenas sobreviver às pressões atuais,
mas também florescer em meio a elas. A sociedade precisa enxergar o adolescente
não apenas como “o futuro”, mas como alguém que já faz parte do presente e
merece suporte integral.
Ana Claudia Favano
- gestora da Escola Internacional de Alphaville. É psicóloga; pedagoga;
educadora parental pela Positive Discipline Association/PDA, dos Estados
Unidos; e certificada em Strength Coach pela Gallup. Especialista em Psicologia
da Moralidade, Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização,
Educação Emocional Positiva e Convivência Ética. Dedicada à leitura e
interessada por questões morais, éticas, políticas, e mobiliza grande parte de
sua energia para contribuir com a formação de gerações comprometidas e
responsáveis.
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