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| Diferente da inteligência artificial, que busca “agradar” o usuário, o psicólogo traça um plano terapêutico que de fato irá tratar o paciente. Shutterstock |
Cerca de 12 milhões de brasileiros (ou 1 a cada 20 pessoas) usam a inteligência artificial (IA) para fazer terapia. O dado é de uma pesquisa da Talk Inc, uma empresa de pesquisas de comportamento. Preocupante, visto que a interação com a máquina nunca leva ao tratamento. E em alguns casos, pode até levar à morte, como a do adolescente de 16 anos que morreu nos Estados Unidos após meses conversando sobre suicídio com o Chat GPT.
Ao invés de trazer informações que poderiam levar o jovem a um tratamento, a inteligência artificial validou os pensamentos suicidas e ainda forneceu informações detalhadas sobre métodos letais. E é esse o alerta que a psicóloga Aline de Menezes, do Eco Medical Center, faz: “A tendência da IA é sempre agradar o usuário conforme a vontade que ele manifesta no chat. Ela não é como o psicólogo, que traça o perfil do paciente e busca um plano terapêutico”.
E a profissional relata que tem recebido cada vez mais pacientes
que relatam ter tentado usar a inteligência artificial como terapia. Mas com
escuta ativa e acolhimento, ela mostra ao paciente o quanto a relação humana e
os exemplos práticos de vida vão muito além do que a IA pode oferecer.
Terapia de bolso
Não há como negar. Diferente da terapia com um profissional, que geralmente ocorre apenas uma vez por semana e com hora marcada, a IA é um terapeuta de bolso disponível 24 horas por dia, com respostas rápidas, principalmente nos momentos de crise. E isso é tentador, até pelo fato de não “trazer custo” financeiro ao paciente. Mas traz riscos maiores, como a própria vida.
“A IA pode até oferecer uma frase de apoio. Mas não substitui a escuta clínica, a compreensão da história de vida do paciente, nem a responsabilidade ética do psicólogo. A terapia não é apenas acolhimento. Ela promove a reflexão, a confrontação cuidadosa, a elaboração de estratégia exigida para lidar com o desconforto. Sem isso, a gente não consegue promover mudanças reais, algo que faça sentido na vida da pessoa”, diz a psicóloga.
Ela ainda alerta sobre o sigilo, pois o que está em consultório (seja terapia presencial ou online) é só entre paciente e profissional. O que está na inteligência artificial é público, vai para bancos de dados na internet. Além disso, como no caso do adolescente nos Estados Unidos, a IA não avalia os riscos de suicídio, automutilação e de transtornos mais graves.
A IA não consegue personalizar intervenções conforme a história de
vida, os padrões culturais, as interações familiares. A psicoterapia
profissional envolve o processo de vínculo, técnicas baseadas em estudos
científicos e evidências. O psicólogo nunca colocará um paciente em risco.
Objeções que “travam” os pacientes de buscar ajuda
Neste mês de setembro, a campanha Setembro Amarelo® 2025 traz como tema: “Se precisar, peça ajuda!”. A mensagem é simples, mas carrega um grande desafio: superar o estigma e as barreiras internas que impedem alguém de buscar apoio com um psicólogo.
“Muitas vezes a pessoa até reconhece o sofrimento, mas se sente
travada para pedir ajuda por vergonha, medo ou por achar que sua dor não é tão
importante”, explica a profissional, também mostrando o porquê muita gente
acaba recorrendo à inteligência artificial. A psicóloga ainda mostra quais são
as objeções mais comuns ditas pelos pacientes e como derrubá-las:
Paciente: “Não quero incomodar ninguém. É fraqueza pedir
ajuda.”
Médico ou amigo/familiar: Pedir ajuda é um ato de coragem, não de
fraqueza. Reconhecer o limite é o primeiro passo para se reerguer.
“Outras pessoas têm problemas piores que os meus.”
O sofrimento não precisa ser comparado. Cada dor é legítima e
merece atenção.
“Já tentei antes e não funcionou.”
Cada processo é único. O fato de uma tentativa anterior não ter
dado resultado não significa que não vá funcionar agora.
“Tenho vergonha do que vão pensar de mim.”
O espaço terapêutico é seguro e sem críticas. O tratamento existe
justamente para acolher sem julgamentos.
“Não tenho tempo/dinheiro para isso.”
Investir em saúde mental é tão essencial quanto cuidar do corpo.
Negligenciar pode levar a agravamentos sérios, inclusive médicos.
“Eu deveria dar conta sozinho.”
Ninguém precisa carregar o peso da vida sem suporte. A rede de
apoio (profissionais, amigos e família) é fundamental.
A importância de falar sobre suicídio
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), falar sobre suicídio com responsabilidade não incentiva, mas previne. Reconhecer sinais de alerta, manter uma escuta ativa e encaminhar a pessoa para apoio profissional podem salvar vidas.
“Quando uma pessoa pensa em tirar a própria vida, sua visão fica
restrita. Ela não consegue enxergar alternativas. É por isso que a empatia e o
encaminhamento para atendimento profissional são tão importantes”, reforça a
campanha oficial.

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