Fundadora do
Movimento Eu Visto o Bem explica porque estimular habilidades profissionais em
detentos é importante para toda a sociedade
Muitos estudos procuram entender a questão da
reincidência criminal visando à identificação de fatores que levam um indivíduo
a praticar ou não uma transgressão depois de ter cumprido pena. Segundo
especialistas, um dos fatores que podem ajudar a reduzir a volta ao mundo do
crime é a oportunidade de capacitação e trabalho oferecida aos detentos, algo
que, no Brasil, ainda acontece pouco.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o estudo “Does
Prison Time Change Offenders” mostrou, entre outros pontos, que programas de
trabalho que oferecem habilidades específicas e oportunidades de emprego têm
potencial de reduzir a reincidência criminal. Outra pesquisa intitulada “The
effects of prison labour: rehabilitation or exploitation?”, publicada no
European Journal of Criminology, mostrou que programas de trabalho prisional
podem ter um impacto positivo na reintegração dos reclusos, reduzindo também as
taxas de reincidência.
Segundo Roberta Negrini, CEO e fundadora do Movimento Eu Visto o Bem,
que tem como braço profissionalizante o Instituto Movi o Bem, com
foco em capacitar e reintegrar mulheres que estão cumprindo pena no sistema
prisional de São Paulo, a reintegração no mercado de trabalho é crucial para
reduzir a reincidência criminal. “Oferecer oportunidades de emprego às pessoas
que estiveram presas ajuda a quebrar o ciclo da criminalidade, proporcionando
uma nova chance para construir uma vida estável e produtiva”, analisa.
No caso do projeto, são oferecidos cursos como
costura, design e moda sustentável. “Hoje há uma fila de espera de 2.500
mulheres esperando a oportunidade de capacitação. Após a capacitação, as mulheres
podem ser contratadas pelo próprio Movimento Eu Visto o Bem, que emprega, via
CLT, pessoas que saíram do sistema prisional. É onde comprovamos de fato
a nossa ressocialização, tudo que empregamos dentro da penitenciária”,
afirma.
De acordo com Roberta, os produtos têxteis gerados
pelo Movimento Eu Visto o Bem já carregam questões sustentáveis, com
rastreabilidade total de matéria prima, e toda a produção é feita por
ex-detentas. “As parcerias que fazemos desafiam os preconceitos em relação
às pessoas em situação de reclusão e demonstram que a arte e a habilidade não
conhecem fronteiras. Ao aprenderem uma profissão como a costura, as mulheres
ganham não apenas uma fonte potencial de renda após a libertação, mas também um
meio terapêutico para canalizar suas energias, reduzir o estresse e fortalecer
os laços sociais, fundamentais para a reintegração pós-cárcere", ressalta.
Roberta acredita que o Movimento Eu Visto o Bem não
apenas auxilia mulheres em situação de vulnerabilidade, mas leva oportunidades
para empresas que desejam investir em responsabilidade social e
sustentabilidade, agindo cada vez mais de acordo com os princípios ESG, tão
valorizados atualmente. “Sempre que tenho oportunidade, procuro levar essa
semente para que as grandes empresas consigam pensar em como seu orçamento pode
impulsionar trabalhos como esse. Ou seja, no lugar de comprar produtos da
China, elas podem transformar a vida das pessoas no Brasil. E uma vez que
ajudamos a ressocializar mulheres e elas não voltam para as penitenciárias,
deixamos de aumentar o lastro da criminalidade e o estado ainda economiza o
dinheiro que seria gasto caso houvesse reincidência”, avalia.
Instagram: @movimentoeuvistoobem
Nenhum comentário:
Postar um comentário