Muito tem se noticiado nessas duas últimas semanas sobre a Greve dos Auditores da RFB para reivindicar a implementação do bônus de produtividade. O debate com o Governo tem sido acirrado e a AGU já afirma que a greve poderá afetar a meta fiscal.
Do
outro lado da mesa, os contribuintes têm sofrido prejuízos com atrasos no
despacho aduaneiro. E, enquanto o foco do debate persiste sob o prisma
remuneratório, existe um grande elefante branco na sala que ninguém aborda: o
esvaziamento da RFB.
Em
2020, a Associação dos Auditores divulgou que o órgão já tem mais de 21 mil
cargos vagos. Entre 2010 e 2022, os números de servidores nas fronteiras caíram
130%. Para ter ideia, em 21 dos 32 pontos aduaneiros de nossa fronteira, não
tinha mão de obra lotada para o desenvolvimento de atividades essenciais ao
controle aduaneiro.
Do ano
de 2009 até 2021 o número de servidores caiu de 12.721 para 7.733, sendo que
desse total 1.503 já estavam recebendo o abono-permanência - um benefício para
quem preencheu os requisitos para a aposentadoria e permanece na ativa.
Esses
números são um verdadeiro Raio-X da situação das nossas Alfandegas.
Em
virtude da escassez de mão de obra, a Receita Federal do Brasil apostou na
criação e utilização de sistemas com inteligência artificial para aumentar a
produtividade de seus servidores e conseguir garantir o controle aduaneiro
mesmo com as alfândegas esvaziadas.
O
problema é que os sistemas ainda possuem muitas falhas além de não terem a
experiência humana. Fato que tem, por muitas vezes, embaraçado e dificultado o
despacho aduaneiro. E o pior, empresas não possuem acesso e sequer sabem o que
tem feito o "Big Data" a aumentar o seu grau de risco aduaneiro.
O
último balanço aduaneiro, inclusive, demonstrou uma redução dos números de
apreensão em virtude de maior parametrização e fiscalizações aleatórias pelo
sistema, sem maior análise de risco, o que resultou em muitas fiscalização
improdutivas. Por conta dos números reduzidos de servidores, sentiu-se um
impacto direto nas apreensões do ano.
Por
outro lado, os auditores também sofrem com maior carga de trabalho por causa do
esvaziamento.
Nossas
fronteiras ficam desguarnecidas e o Brasil tem aparecido nas manchetes
nacionais e internacionais, pois nossos portos tem servido de hub para a
exportação de drogas.
Portanto,
é essencial que se inicie o debate quanto ao aumento dos quadros de servidores
lotados nas alfândegas, somente assim teremos uma fiscalização menos dependente
da utilização de sistemas.
Não podemos e nem devemos persistir nesse erro histórico de queda de braço de negociação com aspecto meramente remuneratório ou de produtividade. É fundamental debatermos a necessidade de contratação e qualificação de novos servidores e requalificação dos servidores já lotados. Somente assim teremos uma mudança do "status quo".
Larry Carvalho - advogado, mestre em Direito Marítimo e especialista em logística, comércio internacional e agronegócio.
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