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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Regeneracionismo: um novo pacto civilizatório para tempos de colapso


Vivemos tempos de múltiplos colapsos: ambiental, mental, social, econômico. E não há tecnologia capaz de nos salvar de um modelo mental incoerente e fragmentado. O que nos trouxe até aqui já não nos serve mais. Está na hora de um novo paradigma. Um que nos reconecte com a vida — dentro e fora de nós. Chamo isso de Regeneracionismo.


O começo da razão e o preço do progresso

No século XVIII, o Iluminismo representou uma virada histórica. Contra os abusos do poder monárquico e da religião institucionalizada, emergiu a valorização da razão, da ciência, da liberdade de pensamento. Esse novo modelo mental permitiu avanços extraordinários: soberania popular, separação dos poderes, investimento em pesquisa, liberdade civil e educação pública.

A Revolução Industrial foi filha desse paradigma. A lógica da produção e da eficiência — da escala, da padronização e da maximização dos lucros — passou a comandar a vida social. Criaram-se escolas para formar operários, engenheiros e gestores: excelentes na execução de instruções — instruções e regras ainda criadas por poucos e seguidas por muitos. O diploma tornou-se senha de acesso à ascensão social. O mérito, medida de valor humano. A competição, norma silenciosa. À medida que a ciência avançava, também avançavam as técnicas de produção em massa, e setores inteiros se expandiam — da indústria farmacêutica à aeroespacial, passando por transportes, cosméticos e tantos outros.

Por décadas, tudo parecia funcionar. Mas os efeitos colaterais estavam apenas sendo adiados.


O império da fragmentação

Hoje, os sintomas são impossíveis de ignorar. Crises ambientais, desigualdade crescente, exaustão psíquica, polarização social, guerras. Cidades onde não se pode caminhar. Ar e água contaminados. Alimentos com baixa qualidade nutricional e repletos de agrotóxicos. Escassez de vínculos afetivos. Estamos cercados de objetos, mas afastados uns dos outros da natureza, do sentido. As monoculturas ressecam o solo, assim como o excesso da cobrança por produtividade resseca nossa vitalidade.

E há algo ainda mais perverso em curso: a fragmentação é sistematicamente induzida. “Dividir para conquistar” foi uma das estratégias de guerra mais eficazes da história — e ainda hoje é aplicada. Quanto mais polarizados estivermos, mais vulneráveis ficamos às estruturas de poder que concentram decisões e recursos nas mãos de poucos. A fragmentação é útil para os que comandam e lucram com o sistema, porque nos enfraquece. Desarticula a inteligência coletiva. Sabota a deliberação cidadã.


Um modelo mental em crise

Chamamos de modelo mental o conjunto de crenças, valores e pressupostos — muitas vezes inconscientes — que orientam a forma como percebemos o mundo, tomamos decisões e estruturamos nossas instituições. No campo dos Sistemas Compassivos, esse termo ganha um significado ainda mais profundo: trata-se da lógica oculta que molda os padrões de pensamento, comportamento e relação de uma sociedade inteira. E, como todo sistema, ele pode entrar em colapso quando deixa de promover a integração, diferenciação e colaboração, entre suas partes.

Hoje, o modelo mental dominante está em crise. Ele nos ensinou a competir, a separar, a explorar, a acelerar. Agora, precisamos de um novo campo de percepção — um novo jeito de pensar, de sentir e de agir no mundo.


O paradigma regenerativo

Diante desse cenário, não basta resistir. É preciso regenerar. Não apenas ecossistemas — mas modos de viver, educar, produzir, consumir, se relacionar. Precisamos de um modelo mental que compreenda a vida como sistema interdependente. Um paradigma que promova a integração: de saberes, de culturas, de territórios, de gerações.

Esse novo paradigma é o Regeneracionismo.

Ele não nasce de uma ideologia, mas da escuta profunda e do entrelaçamento de conhecimentos diversos — ancestralidade, saúde, educação, ecologia, economia, tecnologia, apenas para mencionar alguns. O Regeneracionismo emerge tecido por grupos transdisciplinares que, diante da urgência do colapso, decidiram se reunir para responder, juntos, à pergunta mais essencial do nosso tempo: para onde vamos enquanto sociedade?

Há duas premissas fundamentais nele presentes: coerência e compaixão.

Coerência entre aquilo que sabemos, sentimos e fazemos — entre o que defendemos em nossos discursos e o que praticamos em nossas decisões, sejam elas políticas, econômicas ou pessoais.

E compaixão não como sentimentalismo, mas como inteligência relacional: a capacidade de reconhecer a dor do outro como legítima, de compreender que o diferente me ensina, e que é na escuta do outro que minha visão de mundo se alarga.


Um novo pacto civilizatório

O Regeneracionismo nos convida a criar espaços de escuta segura para crianças, povos originários, pessoas neurodivergentes, populações vulneráveis e negligenciadas — todos os que historicamente foram silenciados. É um chamado para reconectar aquilo que o paradigma anterior separou: razão e emoção, ciência e sabedoria ancestral, indivíduo e coletivo, humano e natureza.

É também um convite à responsabilidade. Se compreendêssemos que nossa identidade se estende além dos limites da pele, que nossas relações moldam o cérebro e o mundo, não sustentaríamos mais um modelo ganancioso, individualista e extrativista. Nós nos importaríamos mais, compareceremos mais, seríamos mantenedores da harmonia do sistema.

A pergunta que se impõe é clara: vamos continuar divididos — e, portanto, frágeis — ou vamos nos reintegrar em torno de um novo pacto civilizatório?

O Regeneracionismo não é uma utopia futurista. Ele começa agora. Em cada gesto que repara, que escuta, que conecta, que escolhe a vida.

 

Tatiana Guimarães é Economista, fundadora da Pen Educação, do Instituto Holo Sapiens (ICT para a regeneração social) e do movimento “The Future We Create”. Master Practitioner em Sistemas Compassivos pelo MIT Systems Awareness Lab. Tatiana Guimarães é fundadora da Pen Educação e do Movimento The Future We Create, que teve seu primeiro evento em São Paulo no dia 09 de setembro de 2025.


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