Vivemos
tempos de múltiplos colapsos: ambiental, mental, social, econômico. E não há
tecnologia capaz de nos salvar de um modelo mental incoerente e fragmentado. O
que nos trouxe até aqui já não nos serve mais. Está na hora de um novo
paradigma. Um que nos reconecte com a vida — dentro e fora de nós. Chamo isso
de Regeneracionismo.
O começo da
razão e o preço do progresso
No
século XVIII, o Iluminismo representou uma virada histórica. Contra os abusos
do poder monárquico e da religião institucionalizada, emergiu a valorização da
razão, da ciência, da liberdade de pensamento. Esse novo modelo mental permitiu
avanços extraordinários: soberania popular, separação dos poderes, investimento
em pesquisa, liberdade civil e educação pública.
A
Revolução Industrial foi filha desse paradigma. A lógica da produção e da
eficiência — da escala, da padronização e da maximização dos lucros — passou a
comandar a vida social. Criaram-se escolas para formar operários, engenheiros e
gestores: excelentes na execução de instruções — instruções e regras ainda
criadas por poucos e seguidas por muitos. O diploma tornou-se senha de acesso à
ascensão social. O mérito, medida de valor humano. A competição, norma
silenciosa. À medida que a ciência avançava, também avançavam as técnicas de
produção em massa, e setores inteiros se expandiam — da indústria farmacêutica
à aeroespacial, passando por transportes, cosméticos e tantos outros.
Por
décadas, tudo parecia funcionar. Mas os efeitos colaterais estavam apenas sendo
adiados.
O império da
fragmentação
Hoje,
os sintomas são impossíveis de ignorar. Crises ambientais, desigualdade
crescente, exaustão psíquica, polarização social, guerras. Cidades onde não se
pode caminhar. Ar e água contaminados. Alimentos com baixa qualidade
nutricional e repletos de agrotóxicos. Escassez de vínculos afetivos. Estamos
cercados de objetos, mas afastados uns dos outros da natureza, do sentido. As
monoculturas ressecam o solo, assim como o excesso da cobrança por
produtividade resseca nossa vitalidade.
E
há algo ainda mais perverso em curso: a fragmentação é sistematicamente
induzida. “Dividir para conquistar” foi uma das estratégias de
guerra mais eficazes da história — e ainda hoje é aplicada. Quanto mais
polarizados estivermos, mais vulneráveis ficamos às estruturas de poder que
concentram decisões e recursos nas mãos de poucos. A fragmentação é útil para
os que comandam e lucram com o sistema, porque nos enfraquece. Desarticula a
inteligência coletiva. Sabota a deliberação cidadã.
Um modelo
mental em crise
Chamamos
de modelo mental o conjunto de crenças, valores e pressupostos — muitas
vezes inconscientes — que orientam a forma como percebemos o mundo, tomamos
decisões e estruturamos nossas instituições. No campo dos Sistemas
Compassivos, esse termo ganha um significado ainda mais
profundo: trata-se da lógica oculta que molda os padrões de pensamento,
comportamento e relação de uma sociedade inteira. E, como todo sistema, ele
pode entrar em colapso quando deixa de promover a integração, diferenciação e
colaboração, entre suas partes.
Hoje,
o modelo mental dominante está em crise. Ele nos ensinou a competir, a separar,
a explorar, a acelerar. Agora, precisamos de um novo campo de percepção — um
novo jeito de pensar, de sentir e de agir no mundo.
O paradigma
regenerativo
Diante
desse cenário, não basta resistir. É preciso regenerar. Não
apenas ecossistemas — mas modos de viver, educar, produzir, consumir, se
relacionar. Precisamos de um modelo mental que compreenda a vida como sistema
interdependente. Um paradigma que promova a integração: de saberes, de culturas,
de territórios, de gerações.
Esse
novo paradigma é o Regeneracionismo.
Ele
não nasce de uma ideologia, mas da escuta profunda e do entrelaçamento de
conhecimentos diversos — ancestralidade, saúde, educação, ecologia, economia,
tecnologia, apenas para mencionar alguns. O Regeneracionismo emerge tecido por
grupos transdisciplinares que, diante da urgência do colapso, decidiram se
reunir para responder, juntos, à pergunta mais essencial do nosso tempo: para
onde vamos enquanto sociedade?
Há
duas premissas fundamentais nele presentes: coerência e compaixão.
Coerência
entre aquilo que sabemos, sentimos e fazemos — entre o que defendemos em nossos
discursos e o que praticamos em nossas decisões, sejam elas políticas,
econômicas ou pessoais.
E
compaixão não como sentimentalismo, mas como inteligência relacional: a
capacidade de reconhecer a dor do outro como legítima, de compreender que o
diferente me ensina, e que é na escuta do outro que minha visão de mundo se
alarga.
Um novo pacto
civilizatório
O
Regeneracionismo nos convida a criar espaços de escuta segura para crianças,
povos originários, pessoas neurodivergentes, populações vulneráveis e
negligenciadas — todos os que historicamente foram silenciados. É um chamado
para reconectar aquilo que o paradigma anterior separou: razão e emoção,
ciência e sabedoria ancestral, indivíduo e coletivo, humano e natureza.
É
também um convite à responsabilidade. Se compreendêssemos que nossa identidade
se estende além dos limites da pele, que nossas relações moldam o cérebro e o
mundo, não sustentaríamos mais um modelo ganancioso, individualista e
extrativista. Nós nos importaríamos mais, compareceremos mais, seríamos
mantenedores da harmonia do sistema.
A
pergunta que se impõe é clara: vamos continuar divididos — e, portanto, frágeis
— ou vamos nos reintegrar em torno de um novo pacto civilizatório?
O
Regeneracionismo não é uma utopia futurista. Ele começa agora. Em cada gesto
que repara, que escuta, que conecta, que escolhe a vida.
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