Enquanto a inflação anual gira em torno de 4,8%, os reajustes médios nas
mensalidades escolares ultrapassam 9%. Especialista comenta a alta e orienta
pais sobre como se planejar e negociar com as instituições.
Com
o fim do ano se aproximando, um tema volta a ocupar as conversas entre pais:
quanto custará a escola das crianças em 2026? O reajuste médio das mensalidades
escolares para o próximo ano deve girar em torno de 9% a 10%, quase o dobro da
inflação oficial, que hoje está em 4,8%. A diferença, que causa apreensão nas
famílias, tem explicação e um lado pouco conhecido da história.
“Quando
o número é alto, as escolas também sofrem. Não é do interesse de ninguém
aplicar reajustes abusivos. A perda de alunos e a desconfiança das famílias
afetam diretamente a sustentabilidade de uma instituição”, afirma Mariana
Ruske, idealizadora e diretora da Senses Montessori School, localizada em São
Paulo e especializada na primeira infância.
Segundo
ela, definir o valor da mensalidade do ano seguinte é um processo complexo e de
longo prazo. “As escolas precisam prever o cenário econômico de mais de um ano
à frente. Essa decisão é tomada ainda em setembro, e o valor precisa sustentar
todas as contas até dezembro do ano seguinte. Salários, dissídios, impostos,
alimentação, manutenção, investimentos pedagógicos tudo precisa estar previsto.
Um erro nessa conta e o caixa não fecha”, explica.
Enquanto
famílias têm flexibilidade para ajustar o orçamento mês a mês, as escolas
precisam operar com previsibilidade. “É como guiar um navio. O ajuste precisa
ser feito muito antes de a embarcação mudar de direção. Não sabemos quantos
alunos novos teremos, quantos sairão, como estará o desemprego ou a cotação do
dólar, e ainda assim precisamos fechar os números com antecedência”, diz
Mariana.
Outro
ponto importante é que o IPCA, índice usado para medir a inflação oficial, não
reflete o custo real da educação. “O IPCA mede alimentos, vestuário e
transporte, mas não o valor de manter uma escola. Nosso maior custo é humano. E
é justo que professores motivados, preparados e bem remunerados façam parte do
investimento que as famílias escolhem para os filhos”, complementa.
Para
2025, a Senses Montessori School adotou uma política de valores congelados para
famílias que anteciparam a rematrícula até setembro e reajuste de 4% na tabela
geral, abaixo da média nacional. “Foi uma decisão estratégica. Antecipar as
matrículas nos ajuda a manter um relacionamento transparente e de confiança com
as famílias. As que se organizam com antecedência se beneficiam e ainda
garantem vaga. Já quem deixa para o fim do ano corre o risco de não encontrar
disponibilidade”, conta.
A
diretora reforça que a organização financeira e o diálogo são fundamentais para
lidar com os reajustes. “O ideal é que as famílias se planejem com
antecedência, avaliem as opções e conversem com as escolas. Negociar é
legítimo, mas é importante entender que educação não é um custo, é um
investimento no desenvolvimento e na segurança emocional das crianças.”
Mariana
também alerta para o risco de escolher escolas com valores muito abaixo do
mercado. “A matemática é simples: se a receita é baixa, os salários e
investimentos também serão. Não há como esperar qualidade pedagógica e
estrutura com recursos limitados. Escolher a escola é, acima de tudo, escolher
em quem confiar e confiança se constrói com coerência e transparência.”
A
educadora defende que o diálogo entre pais e escolas deve ser de parceria, não
de oposição. “Estamos todos no mesmo barco. Famílias e educadores enfrentam o
mesmo cenário econômico. O caminho está na antecipação, no planejamento e na
confiança mútua. Educação é uma jornada longa e exige consistência tanto
financeira quanto emocional.”
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