Entre metas inalcançáveis e jornadas exaustivas,
cresce uma síndrome que transforma o sucesso em sofrimento — e desafia
empresas, gestores e a sociedade a repensarem o sentido do trabalho
O Brasil vive uma epidemia silenciosa dentro das empresas. Jornadas extensas,
metas inalcançáveis e a cultura do desempenho constante têm transformado o
trabalho em um dos maiores fatores de adoecimento psíquico do país. De acordo
com a Associação Internacional do Gerenciamento do Estresse, o Brasil é o
segundo país do mundo com o maior número de profissionais afetados pelo excesso
de trabalho.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente o burnout na nova
Classificação Internacional de Doenças (CID-11), descrevendo-o como uma
síndrome resultante do estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com
sucesso. Não se trata de uma doença mental isolada, mas de um colapso físico e
emocional que ocorre quando o trabalhador ultrapassa o limite de suas reservas
internas de energia. Exaustão emocional,
distanciamento mental e redução da eficácia profissional são as três dimensões
que a caracterizam e que vêm se tornando cada vez mais comuns nas empresas
brasileiras.
A pandemia de COVID-19 apenas intensificou esse cenário. Segundo a OMS, houve
um aumento de 25% nos casos de ansiedade e depressão no mundo, e, no Brasil,
algumas categorias profissionais registraram prevalências acima de 40% em
sintomas de burnout. A gravidade é tamanha que os transtornos mentais e
comportamentais já figuram entre as principais causas de afastamento do
trabalho, segundo o INSS.
Mas, afinal, o que está acontecendo conosco? O problema não está apenas nas
pressões externas, mas também em como nosso corpo e cérebro reagem a elas.
Vivemos em constante estado de alerta. O sistema nervoso simpático, responsável
por nos preparar para reagir a ameaças, permanece ativado quase sem descanso,
como se estivéssemos sempre prontos para fugir ou lutar. Quando essa ativação
se torna contínua, o corpo e a mente entram em colapso.
É importante lembrar que o estresse, em si, não é o inimigo. Existe o chamado
eustresse, uma forma positiva de estresse que estimula o crescimento, o foco e
o aprendizado. O perigo está no distresse — o estresse negativo e prolongado —
que corrói a motivação, compromete a saúde e abre caminho para o burnout. Em
outras palavras, o problema surge quando há um desequilíbrio entre as demandas
do trabalho e os recursos disponíveis para enfrentá-las.
Diante disso, é fundamental compreender que o combate ao
burnout não depende apenas do indivíduo. A prevenção dessa síndrome é também
uma responsabilidade organizacional e social. De pouco adianta recomendar que o
trabalhador pratique ioga ou meditação se ele continua sobrecarregado, sem
pausas, sem autonomia e sem reconhecimento. Precisamos de políticas
institucionais que promovam ambientes psicologicamente seguros, isto é, com
clareza de papéis, canais de comunicação abertos, relações baseadas em
confiança e valorização do bem-estar.
As estratégias de enfrentamento, portanto, devem ocorrer em três níveis
complementares. No nível individual, práticas como psicoterapia, atividade
física, técnicas de respiração, meditação e hábitos saudáveis ajudam a
restaurar o equilíbrio mente-corpo. No nível organizacional, empresas podem
adotar programas de integração e socialização, oferecer feedbacks contínuos,
incentivar a criatividade e a participação nas decisões. Já no nível
sociocultural, é preciso promover uma mudança de valores: educação e políticas
públicas que reforcem o equilíbrio entre vida e trabalho e estimulem a
solidariedade em vez da competição.
Nesse contexto, a Teoria da Autodeterminação, de Richard Ryan e Edward Deci,
oferece um caminho sólido para repensar a saúde mental no trabalho. Ela propõe
que as pessoas precisam ter três necessidades psicológicas básicas atendidas —
autonomia, competência e vínculo, para que possam se sentir motivadas e
realizadas. Quando essas necessidades são ignoradas, o trabalho deixa de ser
fonte de sentido e passa a ser fonte de sofrimento.
Em um momento em que se fala tanto sobre produtividade, o burnout nos obriga a
repensar o significado do trabalho e o preço que pagamos por aquilo que
chamamos de sucesso. Cuidar da saúde mental no ambiente profissional não é luxo,
é uma urgência humana, social e econômica. Afinal, preservar o trabalhador é
preservar o próprio futuro do trabalho.
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