Dois estudos com participação de brasileiros apoiados pelo Serrapilheira apontam a proteína p-tau217 como potencial exame de sangue para doença; grupo quer levar testes ao SUS
Duas pesquisas recém-publicadas, com resultados promissores e
participação de cientistas brasileiros apoiados pelo Instituto
Serrapilheira, trouxeram novos avanços para o uso de exames de
sangue para o diagnóstico do Alzheimer. Os estudos confirmam o desempenho da
proteína p-tau217 como o principal biomarcador para distinguir, por meio desses
exames, indivíduos saudáveis de pessoas com a doença.
Atualmente, o diagnóstico precoce da doença de
Alzheimer é considerado um dos principais desafios de saúde pública no mundo.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 57 milhões
de pessoas no mundo vivem com algum tipo de demência —
destas, pelo menos 60% têm o diagnóstico de Alzheimer. No Brasil, o Relatório
Nacional sobre Demência, de 2024, estima cerca de 1,8 milhão de pessoas com
demência. A previsão é que o número pode triplicar até 2050.
Diante do desafio, uma nova pesquisa, publicada na revista Molecular Psychiatry, avaliou biomarcadores em sangue e líquor por meio de exames em uma coorte de pacientes brasileiros atendidos em clínicas de memória, com destaque para populações de baixa escolaridade — grupo muitas vezes negligenciado em pesquisas internacionais. O estudo foi liderado por Wyllians Borelli e Eduardo Zimmer, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apoiados pelo Serrapilheira.
Os resultados, obtidos em análises de 59 pacientes, apontaram o p-tau217 plasmático como o principal biomarcador em exames de sangue. Os testes foram comparados com o “padrão ouro”, o exame de líquor, e apresentaram alto nível de confiabilidade – acima de 90%, padrão recomendado pela OMS.
No estudo, os cientistas identificaram ainda um recorte social
relevante: a baixa escolaridade parece acentuar mais a doença, reforçando a
hipótese de que fatores socioeconômicos e educacionais impactam no
envelhecimento do cérebro.
“Exames de sangue para a doença de Alzheimer podem trazer
benefícios clínicos ao aumentar significativamente a precisão do diagnóstico,
além de possibilitar a avaliação em quadros pré-demenciais, com mais
antecedência na detecção da doença. E isso pode ser feito de forma mais
acessível para a população, com custos muito menores do que exames mais
tradicionais, como PET Scan e líquor”, explica Borelli, pesquisador de
pós-doutorado da UFRGS e apoiado pelo Serrapilheira.
Os resultados brasileiros foram reforçados em revisão
internacional
publicada em setembro no renomado periódico Lancet Neurology. A pesquisa
analisou mais de 110 estudos sobre o tema com cerca de 30 mil pessoas,
confirmando que o p-tau217 no sangue é o biomarcador mais promissor para
identificar a doença de Alzheimer. Assinado por
23 pesquisadores, incluindo oito brasileiros, o estudo conta com Eduardo
Zimmer e Wagner Brum, aluno de doutorado e membro do grupo de pesquisa de
Zimmer na UFRGS, como coautores.
Para os pesquisadores, as descobertas apontam para um futuro em
que exames de sangue simples poderão auxiliar no diagnóstico
precoce do Alzheimer, reduzindo desigualdades de acesso. “Realizamos a mais
abrangente das meta-análises sobre os novos exames de sangue para a doença de
Alzheimer. Entre os candidatos à prática clínica, o p-tau217 se destacou para
identificar alterações cerebrais típicas da doença”, comenta Brum.
Resultados ajudam a aproximar oferta de exames de sangue para Alzheimer no SUS
“Os resultados abrem caminho para que exames de ponta em neurociência cheguem ao SUS, democratizando o acesso ao diagnóstico precoce e transformando a vida de milhares de brasileiros”, afirma Zimmer. Atualmente, o pesquisador e sua equipe coordenam a Iniciativa Brasileira de Biomarcadores para Doenças Neurodegenerativas (IB-BioNeuro), que busca implementar exames de sangue específicos para demências como política pública no SUS.
Dois estudos, realizados no laboratório ZimmerLab, financiado pelo Serrapilheira, terão investimento de cerca de R$ 20 milhões para iniciar testes em escala nacional ainda neste ano. Os recursos vêm do Ministério da Saúde, Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). A previsão é apresentar os resultados em 24 meses.
O diagnóstico por exame de sangue já é uma realidade na rede
privada. Testes realizados no exterior, como o americano PrecivityAD2, são oferecidos
no Brasil a um custo que pode chegar a R$ 3,6 mil. Embora apresentem alta
precisão, seu preço elevado reforça a importância de desenvolver uma
alternativa nacional e gratuita.
Instituto Serrapilheira
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