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terça-feira, 21 de outubro de 2025

Pesquisa aponta que 50% das mulheres já sofreram algum tipo de violência, mesmo com avanços em leis de proteção

71% delas não fez denúncia alguma; 2 a cada 10 vítimas foram orientadas a não relatar tal situação, mostra estudo nacional da Fundação Perseu Abramo e Sesc São Paulo

 

Apesar dos avanços significativos na legislação sobre proteção às mulheres contra a violência (Lei Maria da Penha, Lei Carolina Dieckmann, Lei do Feminicídio e Lei Mariana Ferrer) e a ampliação de serviços de proteção (Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, Casa da Mulher Brasileira, centros de referência e núcleos de atendimento especializados), houve um aumento, na última década, dos relatos espontâneos de violência sofrida – de 18% em 2010 para 23% em 2023. Quando estimuladas com exemplos de situações, o percentual sobe para 50%. Esse é um dos dados obtidos pela pesquisa nacional “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, que acaba de ser divulgada.  

A iniciativa é da Fundação Perseu Abramo, centro de formação política e de produção de conhecimento do PT, em conjunto com o Sesc São Paulo. Trata-se da segunda parceria consecutiva entre as instituições e do terceiro estudo realizado pela fundação – as edições anteriores ocorreram em 2001 e 2010. 

A investigação atual, realizada ao longo de 2023, avaliou seis eixos temáticos: violência contra as mulheres; imagem da mulher – machismo e feminismo; trabalho remunerado e não remunerado; corpo, sexualidade e saúde das mulheres; proteção social e política de cuidados; e cultura política e participação. 

Como comparação, o levantamento de 2001 teve 2.500 entrevistas domiciliares nas cinco regiões geográficas. O seguinte ouviu 2.365 mulheres e 1.181 homens de áreas urbanas e rurais. O que acaba de ser publicado teve duas fases: uma qualitativa, com 65 mulheres cisgêneros e transgêneros, e outra quantitativa, em que foram entrevistadas 2.440 mulheres e 1.221 homens. 

Segundo a pesquisa, quando as entrevistadas são indagadas se já sofreram violência de algum homem, 23% responderam espontaneamente que sim. Nessas respostas, a violência física foi a mais mencionada, com 11%, seguida pela sexual (5%), a psicológica (2%) e a moral (1%). Por outro lado, na versão estimulada, em que são apresentados exemplos de situações, a violência psicológica é a mais citada, com 43% de registro. Na sequência aparece a moral (37%), a sexual (23%) e a física (22%). A diferença na classificação mostra como as violências psicológica e moral não costumam ser percebidas no dia a dia e como há entraves no reconhecimento e na nomeação do tipo de violência sofrida.

O cenário piora quando se constata que a maioria das vítimas (71%) não denunciou oficialmente o episódio e que 58% não pediram ajuda diante dessa situação. Colabora para isso o fato de que 2 a cada 10 mulheres que admitiram ter sofrido violência foram orientadas a não fazer denúncia (21%). Essa ponderação partiu sobretudo de pessoas da própria família (11%). Nesse cenário, 4 em cada 10 que relataram estupro apontaram que o agressor era o companheiro (42%). 

O resultado desse quadro é que 69% do público feminino afirma que a violência sofrida trouxe consequências para a saúde mental ou emocional – as principais citações foram traumas psicológicos, insegurança, medo, desconfiança, dificuldades em se relacionar novamente e em confiar nos homens. Em relação à saúde mental, as mulheres mais afetadas são negras (72%) e na faixa etária de 25 a 34 anos (79%). 

“Os dados da pesquisa revelam que ainda que tenhamos avançado no conhecimento da sociedade sobre a Lei Maria da Penha e seu propósito de proteção das mulheres em situação de violência, isso não se refletiu em uma redução dos casos de violência. Continuamos enfrentando dificuldades para que esses mecanismos de proteção alcancem todas as mulheres, em especial, aquelas mais vulneráveis. A violência contra as mulheres é condicionada por fatores como raça, classe, idade, regionalidade e isso deve orientar as ações de prevenção”, pontua a cientista social Sofia Toledo, que é mestra em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora analista do Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos (NOPPE) da Fundação Perseu Abramo. 

De acordo com ela, os números gerais trazidos pelo estudo indicam um acentuamento das desigualdades e do empobrecimento das mulheres na última década. Ainda que tenham avançado em nível de escolaridade, os salários e postos de trabalho não acompanharam o crescimento. A elevação da escolaridade não alcançou toda sociedade, uma vez que houve aumento das pessoas que não sabem ler nem escrever.  

“O empobrecimento atinge sobretudo as mulheres negras – 59% têm renda familiar de até 2 salários mínimos – e aquelas que vivem na região Nordeste, que representam 64% da amostra. Houve um crescimento de 50% das que são assistidas por benefícios e programas sociais e, novamente, a maioria é representada pelo público feminino negro, um dado que informa bem o perfil das mulheres que enfrentam situações de pobreza e vulnerabilidade no Brasil”, afirma Sofia Toledo. 

Os dados do eixo sobre violência contra as mulheres podem ser consultados no link https://fpabramo.org.br/pesquisas/wp-content/uploads/sites/16/2025/09/Cap3_Violencia_Contra_Mulher.pdf  A pesquisa completa está disponível no link https://fpabramo.org.br/pesquisas/wp-content/uploads/sites/16/2025/09/Versao-completa-Mulheres-brasileiras-e-genero-nos-espacos-publico-e-privado-3ed.pdf  

A seguir, outros recortes da pesquisa nacional “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”: 

    • Aumento na percepção de que a vida das mulheres piorou em relação à década passada: 1 a cada 4 mulheres considera que há mais coisas negativas em ser mulher do que positivas.

    • Queda da importância da maternidade para as mulheres, que era algo valorizado nas edições anteriores.

    • Piores aspectos em ser mulher: desigualdades no mercado de trabalho e violência.

    • Crescimento e aprimoramento sobre o feminismo como um elemento de luta por direitos.

    • Redução da quantidade de mulheres que se declaram feministas quanto à edição de 2010.

    • Percepção ampla do machismo tanto por mulheres e homens – no entanto, embora reconheçam sua existência, apenas 1 a cada 10 homens se considera machista.

    • 3 a cada 4 mulheres têm filhos e a primeira gravidez é cedo – cerca de 4 em cada 10 mulheres têm o primeiro filho antes de completar a maioridade.

    • Cerca de 1/4 das mulheres sofreu violência física ou verbal durante o parto – crescimento na última década.

    • 71% das mulheres que interromperam a gravidez não tiveram acompanhamento ou orientação médica.

    • 75% das mulheres fazem acompanhamento da gestação pelo SUS e 50% se sentem satisfeitas com o serviço público de saúde.

    • 50% das mulheres e homens são favoráveis que as leis atuais sobre o aborto permaneçam como estão.

    • 93% dos domicílios têm 1 mulher como principal responsável pelos afazeres domésticos.

    • Aumento dos domicílios que têm 1 mulher como principal provedora.

    • 66% das mulheres são as principais responsáveis pelos cuidados com as crianças quando elas não estão na escola e 23% as deixam aos cuidados da mãe ou da sogra.

    • Cerca de 50% das mulheres que têm crianças as criam sozinhas, sem participação de outra pessoa.

    • Entre as mulheres que têm crianças que moram apenas com elas, 46% recebem pensão alimentícia ou contribuição financeira para o cuidado com a criança – em 2001, 37% recebiam esse auxílio e, em 2010, 50%.

    • Aprofundamento da informalidade entre as mulheres e maior formalização entre os homens.

    • Renda média das mulheres é 40% inferior à dos homens.

    • Proporção de mulheres com renda abaixo de 1 salário mínimo é o dobro da dos homens: 44% ante 21%.

    • 16% das mulheres não têm renda alguma.

    • 4% das mulheres têm renda superior a 3 salários mínimos enquanto 18% dos homens estão nesse patamar.

    • Quanto maior a renda aumenta mais a desigualdade.

    • População economicamente ativa: renda média das mulheres é 2/3 na comparação com os homens e apenas 2% delas atingem renda acima de 5 salários mínimos – no público masculino, esse percentual é de 8%.

    • 59% das mulheres consideram a democracia a melhor forma de governo enquanto apenas 4% indicam a opção por um regime ditatorial.

    • Na hora do voto, o principal fator de decisão para 89% das mulheres é a preferência por candidaturas femininas – posição equivale a 72% no caso dos homens. 

    • Na sequência, definem o voto das mulheres o fato de o candidato ser negro (78%) e indígena (68%).

    • 66% das mulheres votam em candidaturas que defendam a demarcação de terras indígenas e outras pautas voltadas a essa parcela da população.

    • A maioria delas (71%) é contrária à influência da religião nas decisões políticas.

    • 64% das mulheres dizem que há preconceito e discriminação contra a participação do público feminino na política – 55% dos homens compartilham dessa posição.

 

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