Há uma diferença clara entre ordem e violência. Aliás, o uso da violência é fruto da impossibilidade da ordem. Na escola é necessária a ordem, que é o controle da entropia. O caminho para a ordem é a atenção, a escuta e a conversa. Além disso, ou antes disso, a construção de regras claras sobre o funcionamento do que é essencial na escola, com penas para a violação das regras, porque quem contribui deliberadamente para a entropia causa dor para todos e quem provoca dor precisa entender que a dor é ruim sentindo-a, embora seja preciso sempre permitir que quem causa dor possua uma instância de apelação.
A dor a que me refiro aqui nunca, jamais deve ser a
dor física, porque isso seria confundir ordem e violência. A violência é o
apelo do incompetente, do incapaz. A dor a que me refiro é a da frustração de
ser impedido de algo, de ser contrariado em suas vontades ou de ser exigido a
dar uma resposta a uma ação mesmo quando não queira se explicar. A dor é o
preço do crescimento para todos os seres vivos. A escola precisa entender isso
de uma vez por todas.
Outra coisa fundamental: se se busca a ordem na
escola, é preciso que todos conheçam como tudo funciona. É preciso, portanto,
ensinar como é a escola, como ela se sustenta, sob todos os aspectos. Isso
deveria ser um conteúdo obrigatório a todos os alunos, e os alunos mais velhos
(Fundamental II e Médio) deveriam ter representantes, pelo menos sob a função
de observadores, nas tomadas de decisão da escola que os envolvessem. Para ter
ordem, é preciso respeito, que é a capacidade de olhar constantemente em torno
de si, no ambiente onde estão todos os personagens do universo escolar, e além,
para as famílias que precisam estar conectadas com todas as medidas tomadas
pela escola.
Muitos gostam de usar o dístico da nossa bandeira
para dizer que sem ordem não há progresso. Esquecem que a frase, dita pelo
filósofo francês Augusto Comte, dizia que é preciso ter AMOR por base, ordem
como meio, para que haja progresso no fim. Ou seja, a ordem é instrumental, não
propósito. Imaginar que uma escola é boa por que há ordem é um engano.
Principalmente quando imaginam ordem como silenciamento. Ao contrário, a ordem
só gera progresso quando é construída à partir das relações amorosas entre pais
e escola, escola e alunos.
Os problemas da entropia, que é a tendência natural
para a desordem, devem ser trabalhados à partir de acordos sempre coletivos e
solidários, compreendendo que a escola não é capaz de equalizar todas as
manifestações individuais que ocorrem no seu espaço, fruto de diversas
narrativas de criação e de orientação de comportamento. Mas a escola precisa
ter clareza sobre qual o ambiente que quer oferecer e como vai organizá-la. Ou
seja, pô-lo em ordem.
A base, desde sempre, não é o discurso negativo ou
reativo, mas propositivo e otimista, de que é possível que a escola seja
hospitaleira e não hostil, por sinal duas palavras que têm a mesma origem, que
é estrangeiro, isto é, o outro. Esse outro chega na escola e precisa ser
acolhido, isto é, conhecer o lugar onde vai conviver e ser conhecido pelos que
lá vivem. O outro é quem diz quem nós somos. A maneira como procedemos esse
acolhimento define a visão que ele terá de nós. A maneira como ele recebe e
aceita as regras de funcionamento da escola definem a visão que a escola terá
dele.
Por isso, essa tessitura deve ser feita com cuidado
e com muita clareza. Por isso, ele deve participar de tudo, ouvindo, falando,
aprendendo e também ensinando sobre quem ele era antes daquele encontro que
redefiniu a vida de todo mundo e que marcará o progresso de todos.
Uma escola sem amor por base, sem ordem como meio e
sem a esperança e a crença de nos tornar pessoas melhores como fim, para que
serve? Por que deveria existir?
Daniel Medeiros - doutor em Educação Histórica e professor de Humanidades no Curso Positivo. @profdanielmedeiros
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