Especialista
da Inspirali alerta para falta de interação e uso excessivo das telas
Brincar é a forma que a criança tem para se expressar e regular
suas emoções. Além disso, o ato também desperta a imaginação e ajuda os
pequenos no desenvolvimento físico e mental. No mês em que comemoramos o Dia
das Crianças, a Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas
em diversas regiões do Brasil, convidou a psicóloga Jéssika Barbara Salustro
Frutuoso, responsável pelo projeto Angatu – que tem o propósito de promover o
autocuidado em saúde mental entre estudantes de medicina - na UnP (Universidade
Potiguar), para informar aos pais sobre a importância das brincadeiras e quais
cuidados devem ser tomados. Confira:
- Quais os benefícios de brincar?
R: Brincar é a forma que a criança tem de expressar e
regular suas emoções, de se comunicar com o mundo ao redor, despertar a
imaginação, desenvolver habilidades sociais que a preparam para os papeis de
adulto. Durante esses momentos, ela também exercita a flexibilidade cognitiva,
ensaia resolução de problemas e aprende a lidar com frustrações, competências
que continuam importantes ao longo da vida. Mesmo na fase adulta, reservar
espaço para atividades lúdicas ajuda a reconectar com o prazer saudável e
alivia o estresse. Por isso, digo: de vez em quando, leve sua vida adulta para
brincar!
- O que o ato de brincar pode desenvolver em
uma criança?
R: As brincadeiras contribuem para todos os domínios do
desenvolvimento. Durante esses momentos, habilidades cognitivas, sociais e
atributos físicos são praticados, servindo como um passo importante para as
próximas fases do desenvolvimento humano. Por exemplo, brincadeiras que
envolvem revezamento, como de esconde-esconde ou pega-pega, se assemelham ao
revezamento que acontece na maior parte das interações sociais.
- De que forma as brincadeiras desenvolvem o
lado cognitivo e emocional? Quais são as brincadeiras ideais para este
desenvolvimento?
R: Algumas brincadeiras mais sociais têm como ponto forte
a oportunidade de desenvolver e manter amizades, além de trabalhar a
cooperação, a mediação de conflitos e a resolução de problemas, bem como o
manejo da frustração, especialmente quando envolvem perdas. Jogos e
brincadeiras de faz de conta estão associados ao desenvolvimento da
criatividade, da flexibilidade cognitiva e do planejamento, funções cognitivas
essenciais.
- E como podem desenvolver a parte física?
Quais são as brincadeiras ideais para este desenvolvimento?
R: Crianças em idade escolar estão em constante
crescimento, por isso as brincadeiras que envolvem correr, saltar e lançar
usando grandes grupos musculares são importantes para o avanço das habilidades
motoras.
- Brincar é importante para a saúde mental
das crianças? Por quê?
R: Sim, brincar traz benefícios imediatos para o bem-estar
psicológico e pode gerar efeitos positivos na saúde social e emocional para o
resto da vida. Durante as brincadeiras, as crianças desenvolvem e expressam
emoções diversas, como alegria, raiva ou frustração, e todas essas experiências
contribuem para a regulação emocional. Além disso, a socialização presente nas
brincadeiras é essencial para a saúde mental, já que somos seres sociais e a
interação entre pares promove a aprendizagem de seguir regras, ter empatia e
cooperação.
- Uma criança que não brinca, pode ser sinal
de algum tipo de doença ou transtorno?
R: O brincar faz parte do marco do desenvolvimento
saudável do corpo e do cérebro. Através das brincadeiras, as crianças se
envolvem no mundo ao seu redor e esse é o contexto no qual ocorre boa parte da
aprendizagem. Do ponto de vista evolucionista, brincar também serve a um
propósito: habilidades físicas, cognitivas e sociais necessárias para a vida
adulta são construídas de forma lúdica. Se uma criança não apresenta interesse
por nenhum tipo de brincadeira, isso pode afetar seu desenvolvimento emocional
e social, sendo um sinal de alerta que merece investigação profissional.
- Quando os pais devem se preocupar? Quais
medidas devem tomar neste caso?
R: A partir dos 3 meses de idade, os bebês apresentam
comportamentos de brincadeiras, como gritos, caretas e expressões faciais. Com
o passar dos meses, essas manifestações se tornam mais complexas. O brincar é
um comportamento esperado no desenvolvimento humano. Portanto, se os pais
perceberem que a criança não demonstra interesse por nenhum tipo de
brincadeira, é importante a avaliação de profissionais da área médica e
psicológica, a fim de investigar o contexto da criança e identificar possíveis
necessidades de intervenção.
- Com a realidade tecnológica que vivemos
hoje, como os pais podem conciliar o mundo digital e real para seus filhos?
R: O equilíbrio entre o mundo digital e o real depende
muito do ambiente familiar. As crianças tendem a imitar o comportamento dos
pais, inclusive em relação ao uso de telas. O primeiro passo é que os adultos
sejam modelos de uso equilibrado da tecnologia. Apesar de ser um grande
desafio, especialmente em um mundo moderno em que trabalhos autônomos, empresas
ou home office aumentam ainda mais a exposição às telas, é possível conciliar
os dois mundos. Para isso, recomenda-se incentivar e priorizar interações
presenciais com outras crianças sempre que possível, manter a tecnologia fora
dos momentos de refeição e na hora de dormir, e oferecer alternativas
concretas, como as brincadeiras ao ar livre, leitura, músicas e atividades que
estimulam o corpo e a criatividade.
- Como e quando introduzir as crianças ao
mundo digital? Quais limites devem ser considerados?
R: O tema é complexo e está em constante evolução. No
Brasil, o Governo Federal publicou em março deste ano um Guia sobre Uso de
Dispositivos Digitais, que oferece recomendações para nortear o uso desses
recursos. De forma geral, não se recomenda o uso de telas para crianças com
menos de 2 anos, salvo para contato com familiares por videochamada. Crianças
com menos de 12 anos devem ter o acesso a redes sociais sempre acompanhado por
adultos e respeitando a classificação indicativa, já entre 12 e 17 anos, o uso
de dispositivos eletrônicos, aplicativos e redes sociais deve ocorrer com
acompanhamento familiar ou de educadores.
Vale ressaltar que mundo digital não se trata apenas do
tempo de exposição, mas também do tipo de uso, do contexto em que é oferecido e
da participação dos responsáveis, fatores que realmente impactam no
desenvolvimento da criança.
Nenhum comentário:
Postar um comentário