Casos recentes de intoxicação por bebidas adulteradas têm acendido
um alerta em todo o país. De acordo com o último relatório do Ministério da
Saúde, divulgado neste domingo (5), já são 225 registros, sendo 14 confirmados
e 178 em investigação. O consumo acidental de metanol, substância altamente
tóxica usada indevidamente na produção de bebidas falsificadas, pode causar
danos graves ao organismo e até levar à morte. O grande perigo está no fato de
que, nos primeiros momentos, os sintomas se assemelham aos de uma simples
ressaca, o que pode atrasar a busca por atendimento médico.
O médico intensivista da UTI do Hospital Evangélico de Sorocaba,
Pedro Novaes, explica que a intoxicação por metanol é, na verdade, uma ressaca
atípica. “Passadas de 6 a 12 horas da ingestão do álcool, ao invés de melhorar,
a pessoa vai piorando”, alerta o especialista.
O alerta dos sintomas neurológicos
Segundo ele, é fundamental buscar atendimento médico urgente se
houver piora dos sintomas típicos de ressaca, como dor de cabeça, enjoo e
mal-estar, após esse período. Um dos sinais mais característicos, destaca ele,
é o sintoma neurológico ligado à visão. “A pessoa pode ter apagamento do campo
visual, borramento, diplopia, que é a visão dupla, ou até cegueira absoluta.
Esse é um sintoma muito característico da intoxicação por metanol”, explica
Novaes.
O tempo é um fator determinante para evitar complicações graves.
“Quanto mais grave o caso, mais breve deve ser o início do tratamento”, orienta
o médico. A gravidade depende tanto do organismo de cada pessoa quanto da
quantidade de metanol ingerida. Por isso, ele recomenda que qualquer suspeita
seja avaliada nas primeiras 12 horas após o consumo da bebida, o que permite um
tratamento mais eficaz e aumenta as chances de reversão do quadro, minimizando
sequelas.
Tratamento intensivo e desafios
No ambiente de UTI, o tratamento envolve uma série de medidas de
suporte. O especialista explica que, ao entrar no organismo, o metanol é
transformado em substâncias tóxicas que causam danos sistêmicos. “Nosso
tratamento é basicamente constatar e tratar a acidose, que é a acidez elevada
no sangue. Se confirmada, chamamos a nefrologia para auxiliar na hidratação
adequada, fazemos uso de ácido folínico na veia, que ajuda na eliminação, e
inserimos um cateter de diálise para filtrar o sangue o mais rápido possível,
removendo o metanol e seus metabólitos tóxicos”, explica.
Essas medidas são essenciais para reduzir as sequelas neurológicas
e visuais, que podem ser graves e permanentes. “Nosso maior desafio é não ter,
até o momento, o antídoto disponível no Brasil, o fomepizol, que impede a
formação dos metabólitos tóxicos do metanol. Mas temos alternativas eficazes,
como a diálise, em casos graves”, ressalta o intensivista.
Em caso de suspeita de ingestão de
bebida adulterada ou aparecimento de sintomas incomuns após o consumo de
álcool, como visão turva, fraqueza extrema, tontura ou confusão mental, a
orientação é procurar imediatamente um pronto atendimento hospitalar.

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