Saiba mais sobre sinais de contaminação, prevenção, tratamento e o papel dos antídotos
O Brasil enfrenta uma onda de intoxicações por consumo de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol. Hoje (9), o país soma 259 notificações, sendo 24 confirmações, que chegaram a causar sequelas graves nas vítimas, incluindo 5 óbitos. O estado de São Paulo concentra a maioria dos casos, com 181 registros até o momento.
Diante
desse cenário, o Dr. Ademar Simões, médico emergencista e Coordenador do
Serviço de Emergência do Hospital Mater Dei Salvador, esclarece as principais
dúvidas em relação às intoxicações por metanol na população, abordando
sintomas, efeitos da contaminação, possibilidades de tratamentos e a chegada de
antídotos contra a substância. Confira:
Quais
são os principais sinais de intoxicação por metanol?
Os
sintomas iniciais costumam ser parecidos com uma “ressaca forte”: náusea,
vômito, dor abdominal e mal-estar. Além disso, a pessoa pode sentir dor de
cabeça, tontura e fraqueza. Conforme a intoxicação progride, podem surgir
alterações na visão (embaçamento, visão turva ou até cegueira), falta de ar,
confusão mental e sonolência intensa. Em casos graves, pode evoluir para
convulsões e coma.
Como
o metanol age no organismo após a ingestão?
O
perigo não é exatamente o metanol em si, mas os produtos de sua transformação
no fígado. Quando metabolizado, ele se transforma em formaldeído e depois em
ácido fórmico, substâncias extremamente tóxicas que afetam o sistema nervoso, a
visão e a capacidade do corpo de manter o equilíbrio ácido-base.
Como
a substância acaba afetando a visão e o sistema nervoso, podendo até mesmo
induzir coma?
O
ácido fórmico atinge principalmente o nervo óptico, que leva as informações dos
olhos ao cérebro, causando visão borrada ou perda visual. Além disso, ele
prejudica o funcionamento das células do sistema nervoso, levando a confusão
mental, sonolência, convulsões e, nos casos mais graves, coma.
Existem
diferenças de efeitos entre homens e mulheres?
Não
existem diferenças significativas na forma como o metanol age entre homens e
mulheres. O que muda é a quantidade ingerida em relação ao peso corporal: como,
em média, mulheres têm menor peso, podem ser mais afetadas por doses menores da
substância.
Pessoas
com doenças pré-existentes (como fígado ou rins comprometidos) correm mais
risco em caso de intoxicação?
Sim. O
fígado é o órgão que transforma o metanol em suas formas tóxicas, e o rim é
responsável por eliminar os resíduos. Pessoas com doença hepática ou renal têm
mais dificuldade em lidar com a substância e podem evoluir mais rápido para
quadros graves. Idosos e pessoas com doenças crônicas também estão em maior
risco.
Como
o etanol funciona no tratamento e por que ele é usado?
O
etanol (o mesmo álcool presente em cerveja, vinho e destilados) compete com o
metanol no fígado. Ou seja, quando o fígado está ocupado metabolizando o
etanol, o metanol fica “em espera” e demora mais para ser transformado em suas
formas tóxicas. Isso dá tempo para o corpo eliminar parte da substância pela
urina e permite que o paciente receba tratamento hospitalar adequado.
Qual
a diferença do etanol para o antídoto específico contra o metanol que está
chegando aos hospitais brasileiros?
O
antídoto específico chama-se fomepizol. Ele bloqueia diretamente a enzima
responsável por transformar o metanol em ácido fórmico, sendo mais eficaz e
seguro do que o etanol. Enquanto o etanol é uma alternativa útil e disponível,
o fomepizol é a opção de primeira linha nos países onde está disponível.
Enquanto
o fomepizol não é disponibilizado de forma geral no Brasil, quais medidas
imediatas podem salvar a vida do paciente?
Além
do uso de etanol em ambiente hospitalar, é fundamental o suporte intensivo:
hidratação venosa, correção do desequilíbrio ácido do sangue e, nos casos mais
graves, hemodiálise para remover rapidamente o metanol e seus derivados tóxicos
do organismo.
Existe
algum tempo crítico entre a ingestão e o início do tratamento que aumenta as
chances de sobrevivência? O que deve ser feito para mitigar as consequências
neste caso?
Sim.
Quanto mais cedo o tratamento começar, maiores as chances de evitar sequelas e
salvar a vida. Os sintomas podem demorar de 6 a 24 horas para aparecer, o que atrasa
a busca por ajuda. O ideal é que qualquer suspeita de ingestão de bebida
adulterada leve a pessoa imediatamente ao hospital. Não esperar os sintomas
surgirem é a medida mais importante para mitigar as consequências.
Como
se prevenir contra intoxicações por metanol?
Neste
momento de incertezas, o melhor é evitar ingestão de bebidas destiladas, em
especial em estabelecimentos duvidosos, que não garantam a procedência da
bebida.
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