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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Intoxicação por metanol: o que você precisa saber diante do surto que atinge o país

Saiba mais sobre sinais de contaminação, prevenção, tratamento e o papel dos antídotos

 

O Brasil enfrenta uma onda de intoxicações por consumo de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol. Hoje (9), o país soma 259 notificações, sendo 24 confirmações, que chegaram a causar sequelas graves nas vítimas, incluindo 5 óbitos. O estado de São Paulo concentra a maioria dos casos, com 181 registros até o momento. 

Diante desse cenário, o Dr. Ademar Simões, médico emergencista e Coordenador do Serviço de Emergência do Hospital Mater Dei Salvador, esclarece as principais dúvidas em relação às intoxicações por metanol na população, abordando sintomas, efeitos da contaminação, possibilidades de tratamentos e a chegada de antídotos contra a substância. Confira:

 

Quais são os principais sinais de intoxicação por metanol?

Os sintomas iniciais costumam ser parecidos com uma “ressaca forte”: náusea, vômito, dor abdominal e mal-estar. Além disso, a pessoa pode sentir dor de cabeça, tontura e fraqueza. Conforme a intoxicação progride, podem surgir alterações na visão (embaçamento, visão turva ou até cegueira), falta de ar, confusão mental e sonolência intensa. Em casos graves, pode evoluir para convulsões e coma.

 

Como o metanol age no organismo após a ingestão?

O perigo não é exatamente o metanol em si, mas os produtos de sua transformação no fígado. Quando metabolizado, ele se transforma em formaldeído e depois em ácido fórmico, substâncias extremamente tóxicas que afetam o sistema nervoso, a visão e a capacidade do corpo de manter o equilíbrio ácido-base.

 

Como a substância acaba afetando a visão e o sistema nervoso, podendo até mesmo induzir coma?

O ácido fórmico atinge principalmente o nervo óptico, que leva as informações dos olhos ao cérebro, causando visão borrada ou perda visual. Além disso, ele prejudica o funcionamento das células do sistema nervoso, levando a confusão mental, sonolência, convulsões e, nos casos mais graves, coma.

 

Existem diferenças de efeitos entre homens e mulheres?

Não existem diferenças significativas na forma como o metanol age entre homens e mulheres. O que muda é a quantidade ingerida em relação ao peso corporal: como, em média, mulheres têm menor peso, podem ser mais afetadas por doses menores da substância.

 

Pessoas com doenças pré-existentes (como fígado ou rins comprometidos) correm mais risco em caso de intoxicação?

Sim. O fígado é o órgão que transforma o metanol em suas formas tóxicas, e o rim é responsável por eliminar os resíduos. Pessoas com doença hepática ou renal têm mais dificuldade em lidar com a substância e podem evoluir mais rápido para quadros graves. Idosos e pessoas com doenças crônicas também estão em maior risco.

 

Como o etanol funciona no tratamento e por que ele é usado?

O etanol (o mesmo álcool presente em cerveja, vinho e destilados) compete com o metanol no fígado. Ou seja, quando o fígado está ocupado metabolizando o etanol, o metanol fica “em espera” e demora mais para ser transformado em suas formas tóxicas. Isso dá tempo para o corpo eliminar parte da substância pela urina e permite que o paciente receba tratamento hospitalar adequado.

 

Qual a diferença do etanol para o antídoto específico contra o metanol que está chegando aos hospitais brasileiros?

O antídoto específico chama-se fomepizol. Ele bloqueia diretamente a enzima responsável por transformar o metanol em ácido fórmico, sendo mais eficaz e seguro do que o etanol. Enquanto o etanol é uma alternativa útil e disponível, o fomepizol é a opção de primeira linha nos países onde está disponível.

 

Enquanto o fomepizol não é disponibilizado de forma geral no Brasil, quais medidas imediatas podem salvar a vida do paciente?

Além do uso de etanol em ambiente hospitalar, é fundamental o suporte intensivo: hidratação venosa, correção do desequilíbrio ácido do sangue e, nos casos mais graves, hemodiálise para remover rapidamente o metanol e seus derivados tóxicos do organismo.

 

Existe algum tempo crítico entre a ingestão e o início do tratamento que aumenta as chances de sobrevivência? O que deve ser feito para mitigar as consequências neste caso?

Sim. Quanto mais cedo o tratamento começar, maiores as chances de evitar sequelas e salvar a vida. Os sintomas podem demorar de 6 a 24 horas para aparecer, o que atrasa a busca por ajuda. O ideal é que qualquer suspeita de ingestão de bebida adulterada leve a pessoa imediatamente ao hospital. Não esperar os sintomas surgirem é a medida mais importante para mitigar as consequências.

 

Como se prevenir contra intoxicações por metanol?

Neste momento de incertezas, o melhor é evitar ingestão de bebidas destiladas, em especial em estabelecimentos duvidosos, que não garantam a procedência da bebida. 

 

Rede Mater Dei de Saúde

 

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