Projeto “Devolva-me” alia destinação correta de materiais tóxicos à conscientização comunitária, fortalecendo vínculos socioambientais.
O Brasil ainda
enfrenta grandes desafios quando o assunto é descarte correto de resíduos.
Estima-se que o país produza mais de 2 milhões de toneladas de lixo eletrônico
por ano, mas apenas cerca de 3% desse total recebe destinação adequada. No caso
do óleo de cozinha, de um volume anual que ultrapassa 4,7 bilhões de litros,
pouco mais de 2% chegam a processos de reaproveitamento ou reciclagem.
Em regiões
afastadas, o descarte correto de resíduos se torna ainda mais difícil.
A população encontra poucos pontos de entrega voluntária,
concentrados nas áreas centrais, o que desestimula a prática e leva
ao descarte incorreto de materiais poluentes. Esse cenário gera impactos diretos no meio ambiente, como a
contaminação de solos, rios e lençóis
freáticos, além de ameaçar a saúde da população
exposta a substâncias tóxicas.
Frente
a isso, o CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” criou o
Projeto Devolva-me, com o
objetivo de aproximar o serviço das comunidades atendidas pela instituição.
A ação
amplia o acesso à destinação correta de resíduos e garante uma alternativa local. “Implantamos os pontos de entrega dentro das
unidades de saúde justamente para aproximar esse serviço da
comunidade, integrando o cuidado ambiental ao cuidado em saúde”, explica
Michele Assunção, gestora local do Programa Ambientes Verdes e
Saudáveis (PAVS) no CEJAM.
Com dez anos da implementação, o projeto, que
acontece em 30 Unidades Básicas de Saúde (UBS) gerenciadas pela instituição, em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo
(SMS-SP), nas regiões do Jardim Ângela e Capão
Redondo, na zona sul da
cidade, já coletou 41 mil litros de óleo de
cozinha, evitando a contaminação de cerca de 1 bilhão de litros de água, um
volume equivalente a 500 piscinas olímpicas.
Além
disso, 13 toneladas de resíduos eletrônicos deixaram de ser destinadas aos
aterros sanitários, levando
à redução da extração de matéria-prima virgem necessária à produção
de novos eletrônicos. No mesmo período, nove
toneladas de pilhas deixaram de liberar metais pesados no solo e mais de 2,3
toneladas de placas de raio-X tiveram destinação correta. “Quando falamos
desses números, estamos tratando de toneladas de materiais altamente poluentes que
deixaram de contaminar o solo e a água. Mas, mais do que isso, estamos estimulando um processo educativo: cada entrega feita
representa uma mudança de hábito, uma escolha consciente da comunidade”, destaca
Michele.
O
impacto do Devolva-me vai além da gestão de resíduos. Ao transformar as
unidades de saúde em pontos de coleta voluntária, a iniciativa também cria
laços de pertencimento e engajamento social. “O projeto aproxima a população
das unidades de saúde ao transformá-las em espaços de referência
socioambiental. Isso fortalece o vínculo comunitário, incentiva a participação
coletiva e cria um senso de corresponsabilidade pelo cuidado com o território”,
reforça a gestora.
Entre
os materiais mais entregues estão as pilhas, seguidas de eletrônicos de
diferentes portes, que variam de celulares a geladeiras. Os itens coletados são encaminhados a polos de consolidação e, em seguida, destinados a
parceiros certificados, como a Green Eletron, responsável pela logística reversa
desses resíduos em âmbito nacional.
“O
projeto tem ganhado um novo rumo: além dos pontos de entrega voluntária já
existentes nos serviços de saúde, ele vem sendo ampliado para equipamentos
locais e estabelecimentos comerciais, incluindo aqueles que realizam a venda de
pilhas, fortalecendo ainda mais a rede de coleta.”
Apesar dos avanços, ainda existem desafios, como a logística de transporte dos resíduos, a ampliação da rede de parceiros e a sustentabilidade do processo em larga escala. Mesmo assim, a ação está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente aos relacionados a consumo responsável, saúde, proteção da vida terrestre e aquática e combate às mudanças climáticas. “Nosso compromisso é crescer de forma responsável, aumentando o escopo de materiais coletados e consolidando parcerias locais. Queremos que cada vez mais pessoas enxerguem no Devolva-me um aliado no dia a dia, um espaço que conecta saúde, meio ambiente e cidadania”, conclui Assunção.
CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial

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