Especialista alerta que o preconceito contra profissionais jovens limita o desenvolvimento de talentos e reduz a competitividade das organizações
O etarismo — preconceito baseado na idade — ainda é uma
das formas mais comuns de discriminação no mercado de trabalho. A exclusão de
profissionais mais velhos, muitas vezes afastados por supostamente estarem
"fora do tempo", é um problema conhecido e amplamente documentado.
Mas há uma outra face desse mesmo preconceito que cresce silenciosamente nas
empresas: o etarismo reverso, que desqualifica profissionais jovens
por sua pouca idade.
"Ambas as formas são igualmente nocivas", afirma
Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria e
gestor de carreiras. "Quando um profissional é subestimado por ser 'velho
demais' ou 'novo demais', o resultado é o mesmo: perda de potencial, de engajamento
e de inovação."
No caso dos mais jovens, o preconceito costuma aparecer
de maneira sutil — e quase sempre disfarçado de prudência.
"É quando uma ideia é ignorada com a justificativa de que o profissional
'ainda não entende as complexidades do negócio', ou quando uma promoção é
adiada porque 'falta amadurecer'. O problema é que, ao silenciar essas vozes,
as empresas perdem justamente o que mais precisam: novas perspectivas, domínio
tecnológico e disposição para questionar o que está ultrapassado", analisa
Santos.
Um estudo publicado no periódico Developmental
Psychology reforça o alerta: a discriminação contra profissionais
jovens reduz a motivação, inibe o aprendizado
e limita o desenvolvimento de competências essenciais.
"Esses profissionais se sentem desvalorizados e, com frequência, buscam
ambientes mais abertos à troca geracional. O resultado é aumento de
rotatividade e perda de talentos promissores", observa.
O especialista lembra que o etarismo reverso pode se
manifestar em práticas corriqueiras. O "Gen-Z" estereotipado, por
exemplo, é descrito como ansioso ou pouco comprometido, o que leva à
microgestão e à falta de confiança. Há também a "barreira da
liderança", quando profissionais jovens, mesmo com resultados expressivos,
enfrentam resistência para ocupar cargos de gestão. "E ainda existe o
cenário clássico do 'café e cópias': tarefas operacionais são delegadas aos
mais jovens, enquanto suas opiniões estratégicas são ignoradas. Isso corrói o
engajamento e impede o aprendizado real", explica Santos.
Para ele, o preconceito etário, em qualquer direção, compromete
a cultura organizacional e o desempenho coletivo.
"As empresas que ainda associam idade à capacidade de liderar ou inovar
tendem a ficar para trás. A experiência é valiosa, mas deve andar junto da
ousadia e da atualização", avalia.
Entre as medidas para enfrentar o problema, Santos
recomenda fortalecer uma cultura de integração entre gerações
e revisar critérios de avaliação baseados apenas em tempo
de casa ou faixa etária. "É preciso avaliar por competência, resultado e
potencial. E criar programas de mentoria reversa, nos quais jovens e
experientes aprendem uns com os outros, trocando repertórios técnicos e
vivências profissionais. Essa troca é o que fortalece times diversos e
sustentáveis", defende Santos.
Ele reforça que combater o etarismo é também uma questão de estratégia. "Empresas que valorizam apenas o que é tradicional perdem o novo; e as que desprezam a experiência repetem erros já conhecidos. O equilíbrio entre juventude e maturidade é o que garante inovação real — e é isso que diferencia as organizações que aprendem das que apenas repetem. Ignorar essa integração é abrir mão de competitividade num mercado que muda rápido demais", conclui.
Virgilio Marques dos Santos - sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria
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