Falta de referências presenciais e rotina digitalizada explicam a ascensão do “criador de conteúdo” no imaginário infantil; especialistas alertam para limites de tela e estímulos a projetos de vida mais plurais
As aspirações profissionais da infância mudaram. Se
em décadas passadas “médico”, “professor” e “astronauta” dominavam o
imaginário, hoje o posto de “trabalho dos sonhos” com frequência é ocupado por
“youtuber” ou “influenciador”. Em levantamento recente com 910 jovens de 12 a
15 anos nos EUA, quase um terço escolheu “ser YouTuber” como primeira opção de
carreira; sinal de uma tendência que ganha força com a centralidade das
plataformas de vídeo na vida de crianças e adolescentes.
A
popularidade do YouTube entre adolescentes ajuda a explicar o fenômeno: 93%
usam a plataforma, e cerca de um sexto afirma usá-la “quase o tempo todo”,
segundo pesquisa do Pew Research.
Para a
psicóloga especialista em saúde mental e neurociência do comportamento, Laís
Mutuberria, a leitura clínica desse desejo passa menos por “moda” e mais por
quais adultos e experiências estão ao alcance cotidiano das crianças e
adolescentes. “O criador de conteúdo se torna o adulto visível no dia a dia
digital, acessível e aparentemente recompensado com liberdade e reconhecimento.
Quando a infância convive pouco com profissionais de áreas diversas, de
pesquisadoras a artistas e técnicos, o repertório de futuro se estreita”, diz.
Laís
ressalta que o apelo do atalho também pesa. “A mensagem implícita é: trabalhar
pode ser divertido, sem horários rígidos ou longos anos de formação. Isso
conversa com um mundo acelerado, em que a recompensa imediata vale mais que o
processo”, afirma.
Segundo Mutuberria, os youtubers simbolizam um estilo de vida que
combina entretenimento, liberdade e reconhecimento imediato — aspectos que
ressoam com desejos universais da infância, como brincar, ser notado e
sentir-se valorizado. Para muitas crianças, esses influenciadores representam a
promessa de um atalho para o sucesso, reforçada pelo imaginário social
contemporâneo. No entanto, essa expectativa contrasta com a realidade de um
mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente.
O que
mostram os dados
- Uso intenso de plataformas: YouTube é o
aplicativo mais difundido entre adolescentes, com uso “quase constante”
para parte deles.
- Infâncias cada vez mais conectadas: entre 0 e 8 anos, o tempo de tela gira em torno de 2h30
diárias, com posse de dispositivos crescendo já na primeira infância,
segundo o censo 2025 da Common Sense Media.
- Exposição importa: evidências da
OCDE indicam que conversas estruturadas sobre carreiras e contato com
profissionais ampliam expectativas e melhoram o preparo para o trabalho.
No Brasil, a
Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limites claros de telas: de 6 a 10
anos, no máximo 1 a 2 horas/dia; de 11 a 18, 2 a 3 horas/dia, sempre com
supervisão, e sem “virar a noite”. Para a primeira infância, as diretrizes da
OMS aconselham evitar telas até 1 ano e limitar a 1 hora aos 2 anos.
“Quando a
rotina extrapola esses limites, vemos efeitos práticos: piora do sono, agitação,
queda de atenção e ansiedade mais alta — fatores que empobrecem a curiosidade
pelo mundo fora das telas e reduzem o interesse por profissões que exigem
construção gradual de competências”, diz Mutuberria.
O risco do
repertório estreito
Relatórios
internacionais vêm apontando que adolescentes tendem a concentrar ambições em
um conjunto pequeno de ocupações, fenômeno que pode limitar escolhas e inovação
no longo prazo. Ampliar repertórios — por meio de visitas técnicas, feiras de
profissões, mentorias e contato com pessoas de áreas pouco conhecidas — tem
efeito demonstrado na qualidade das decisões vocacionais.
Para a psicóloga Laís Mutuberria, o universo infantil tem se restringido
cada vez mais às telas, o que limita o contato social e empobrece a curiosidade
das crianças em relação ao mundo ao seu redor, incluindo o interesse pelas
diferentes profissões. Nesse cenário, a figura do youtuber surge como projeção
de futuro idealizado: um caminho rápido, fácil e promissor.
“Do ponto de vista clínico, preocupa que muitas dessas referências
digitais carregam conteúdos superficiais, sem aprofundamento, e reforçam
valores ligados ao imediatismo. Esse desejo de recompensa instantânea
enfraquece a tolerância à frustração e o apreço pela construção gradual de
competências que seriam exigidas em outras profissões.”, afirma Laís.
“Projetos de
vida plurais nascem de experiências plurais”, afirma Mutuberria. “A internet é
valiosa, mas não substitui brincar ao ar livre, conviver com diferentes adultos,
ver alguém amar o que faz no mundo real.”
O que
famílias e escolas podem fazer
- Limitar e qualificar o tempo de tela, seguindo SBP/OMS, com
acordos claros de horários e supervisão ativa.
- Oferecer referências presenciais: convidar profissionais para
conversas, visitar laboratórios, oficinas, hospitais, estúdios e fábricas;
promover projetos mão na massa.
- Valorizar o processo: incentivar atividades que envolvam
esforço continuado (música, esportes, robótica, clubes de ciências).
- Discutir o “trabalho por trás da tela”: planejamento,
roteiro, edição, métricas, direitos autorais e riscos — desfazendo a ideia
de que sucesso digital é só “sorte”.
- Diversificar o imaginário: ampliar acesso a livros, museus,
naturezas e culturas locais; aproximar crianças de profissionais que amam
o que fazem.
“Querer ser
youtuber não é um problema em si”, diz Laís. “O desafio é garantir que esse
sonho conviva com outras possibilidades, com limites saudáveis de uso de
tecnologia e com experiências que cultivem paciência, curiosidade e cooperação.
É isso que sustenta escolhas melhores, na internet e fora dela”.
“A diversidade de profissões, responsável por garantir inovação, cuidado
e respostas a problemas sociais complexos, corre o risco de perder espaço
diante do fascínio pelo entretenimento digital. Se as novas gerações deixarem
de se interessar por carreiras científicas, educacionais ou ligadas à liderança
social, a sociedade pode enfrentar um empobrecimento nas perspectivas
coletivas”, conclui Laís Mutuberria.
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