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sábado, 4 de outubro de 2025

Entre telas e sonhos: por que tantas crianças querem ser youtuber — e o que isso diz sobre o futuro do trabalho

Falta de referências presenciais e rotina digitalizada explicam a ascensão do “criador de conteúdo” no imaginário infantil; especialistas alertam para limites de tela e estímulos a projetos de vida mais plurais


As aspirações profissionais da infância mudaram. Se em décadas passadas “médico”, “professor” e “astronauta” dominavam o imaginário, hoje o posto de “trabalho dos sonhos” com frequência é ocupado por “youtuber” ou “influenciador”. Em levantamento recente com 910 jovens de 12 a 15 anos nos EUA, quase um terço escolheu “ser YouTuber” como primeira opção de carreira; sinal de uma tendência que ganha força com a centralidade das plataformas de vídeo na vida de crianças e adolescentes.

A popularidade do YouTube entre adolescentes ajuda a explicar o fenômeno: 93% usam a plataforma, e cerca de um sexto afirma usá-la “quase o tempo todo”, segundo pesquisa do Pew Research. 

Para a psicóloga especialista em saúde mental e neurociência do comportamento, Laís Mutuberria, a leitura clínica desse desejo passa menos por “moda” e mais por quais adultos e experiências estão ao alcance cotidiano das crianças e adolescentes. “O criador de conteúdo se torna o adulto visível no dia a dia digital, acessível e aparentemente recompensado com liberdade e reconhecimento. Quando a infância convive pouco com profissionais de áreas diversas, de pesquisadoras a artistas e técnicos, o repertório de futuro se estreita”, diz. 

Laís ressalta que o apelo do atalho também pesa. “A mensagem implícita é: trabalhar pode ser divertido, sem horários rígidos ou longos anos de formação. Isso conversa com um mundo acelerado, em que a recompensa imediata vale mais que o processo”, afirma. 

Segundo Mutuberria, os youtubers simbolizam um estilo de vida que combina entretenimento, liberdade e reconhecimento imediato — aspectos que ressoam com desejos universais da infância, como brincar, ser notado e sentir-se valorizado. Para muitas crianças, esses influenciadores representam a promessa de um atalho para o sucesso, reforçada pelo imaginário social contemporâneo. No entanto, essa expectativa contrasta com a realidade de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente.

O que mostram os dados

  • Uso intenso de plataformas: YouTube é o aplicativo mais difundido entre adolescentes, com uso “quase constante” para parte deles.
  • Infâncias cada vez mais conectadas: entre 0 e 8 anos, o tempo de tela gira em torno de 2h30 diárias, com posse de dispositivos crescendo já na primeira infância, segundo o censo 2025 da Common Sense Media.
  • Exposição importa: evidências da OCDE indicam que conversas estruturadas sobre carreiras e contato com profissionais ampliam expectativas e melhoram o preparo para o trabalho.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limites claros de telas: de 6 a 10 anos, no máximo 1 a 2 horas/dia; de 11 a 18, 2 a 3 horas/dia, sempre com supervisão, e sem “virar a noite”. Para a primeira infância, as diretrizes da OMS aconselham evitar telas até 1 ano e limitar a 1 hora aos 2 anos. 

“Quando a rotina extrapola esses limites, vemos efeitos práticos: piora do sono, agitação, queda de atenção e ansiedade mais alta — fatores que empobrecem a curiosidade pelo mundo fora das telas e reduzem o interesse por profissões que exigem construção gradual de competências”, diz Mutuberria.
 

O risco do repertório estreito

Relatórios internacionais vêm apontando que adolescentes tendem a concentrar ambições em um conjunto pequeno de ocupações, fenômeno que pode limitar escolhas e inovação no longo prazo. Ampliar repertórios — por meio de visitas técnicas, feiras de profissões, mentorias e contato com pessoas de áreas pouco conhecidas — tem efeito demonstrado na qualidade das decisões vocacionais. 

Para a psicóloga Laís Mutuberria, o universo infantil tem se restringido cada vez mais às telas, o que limita o contato social e empobrece a curiosidade das crianças em relação ao mundo ao seu redor, incluindo o interesse pelas diferentes profissões. Nesse cenário, a figura do youtuber surge como projeção de futuro idealizado: um caminho rápido, fácil e promissor. 

“Do ponto de vista clínico, preocupa que muitas dessas referências digitais carregam conteúdos superficiais, sem aprofundamento, e reforçam valores ligados ao imediatismo. Esse desejo de recompensa instantânea enfraquece a tolerância à frustração e o apreço pela construção gradual de competências que seriam exigidas em outras profissões.”, afirma Laís. 

“Projetos de vida plurais nascem de experiências plurais”, afirma Mutuberria. “A internet é valiosa, mas não substitui brincar ao ar livre, conviver com diferentes adultos, ver alguém amar o que faz no mundo real.”

O que famílias e escolas podem fazer

  • Limitar e qualificar o tempo de tela, seguindo SBP/OMS, com acordos claros de horários e supervisão ativa.
  • Oferecer referências presenciais: convidar profissionais para conversas, visitar laboratórios, oficinas, hospitais, estúdios e fábricas; promover projetos mão na massa.
  • Valorizar o processo: incentivar atividades que envolvam esforço continuado (música, esportes, robótica, clubes de ciências).
  • Discutir o “trabalho por trás da tela”: planejamento, roteiro, edição, métricas, direitos autorais e riscos — desfazendo a ideia de que sucesso digital é só “sorte”.
  • Diversificar o imaginário: ampliar acesso a livros, museus, naturezas e culturas locais; aproximar crianças de profissionais que amam o que fazem.

“Querer ser youtuber não é um problema em si”, diz Laís. “O desafio é garantir que esse sonho conviva com outras possibilidades, com limites saudáveis de uso de tecnologia e com experiências que cultivem paciência, curiosidade e cooperação. É isso que sustenta escolhas melhores, na internet e fora dela”. 

“A diversidade de profissões, responsável por garantir inovação, cuidado e respostas a problemas sociais complexos, corre o risco de perder espaço diante do fascínio pelo entretenimento digital. Se as novas gerações deixarem de se interessar por carreiras científicas, educacionais ou ligadas à liderança social, a sociedade pode enfrentar um empobrecimento nas perspectivas coletivas”, conclui Laís Mutuberria. 


Laís Mutuberria - psicóloga possui mais de uma década de experiência em psicoterapia clínica e supervisão profissional, atendendo adultos e adolescentes no modelo online. Graduada pela UFU, especializou-se em Análise Transacional (Unat Brasil) e Neurociência do Comportamento (PUCRS), além de acumular formações em Psicologia Positiva, Hipnose Ericksoniana, PNL, TCC e Educação Sistêmica. Sua abordagem transteórica e humanizada combina diferentes técnicas para adaptar os tratamentos às necessidades individuais de cada paciente. Além da prática clínica, ministra cursos, palestras e eventos voltados ao bem-estar e à saúde mental.


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