Embora menos frequente que outros tumores, o câncer de pâncreas é altamente letal e muitas vezes só é detectado em estágios avançados, alerta o Dr. Lucas Nacif
O célebre músico de soul D’Angelo morreu aos 51 anos
após lutar contra um câncer no pâncreas, conforme noticiou a imprensa
norte-americana nesta terça-feira (14). A morte do artista chama atenção para
uma doença considerada uma das mais letais do aparelho digestivo.
Embora menos frequente que cânceres de mama ou próstata, o câncer
de pâncreas se destaca pela agressividade e pelo alto índice de mortalidade,
principalmente porque, nos estágios iniciais, costuma ser silencioso.
Segundo dados do Globocan, mais de 510 mil novos casos foram
registrados no mundo em 2022. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA)
estima cerca de 11 mil diagnósticos anuais.
Essa baixa incidência, no entanto, não diminui a preocupação dos
especialistas. Isso porque a maioria dos pacientes descobre a doença
tardiamente. Segundo o Dr. Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo e
membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD), a
dificuldade está no comportamento do próprio tumor.
“Isso ocorre por sua característica de agressividade e porque, em
muitos casos, ele costuma ser silencioso nos estágios iniciais, o que dificulta
o diagnóstico precoce. Quando os sintomas aparecem, na maioria das vezes a
doença já está em estágio avançado e até com metástases, o que limita as opções
de tratamento e reduz as chances de cura”, explica o especialista.
Mas
afinal, como a doença se desenvolve?
O pâncreas é uma glândula localizada atrás do estômago e tem
funções fundamentais na digestão e na produção de hormônios como a insulina. O
câncer aparece quando as células deste órgão passam a se multiplicar de maneira
descontrolada, formando um tumor que pode invadir tecidos próximos ou se
espalhar para outras partes do corpo.
Entre os tipos de câncer pancreático, o mais comum e também o mais
agressivo é o adenocarcinoma pancreático. Ele se desenvolve nas células pancreáticas
e costuma ter um comportamento bastante invasivo, podendo ser do tecido
pancreático ou dos ductos pancreáticos”, afirma Nacif.
Além disso, existem lesões consideradas benignas, mas que têm
potencial de se tornar malignas com o tempo, como a neoplasia mucinosa papilar
intraductal (IPMN). “Essas lesões devem ser acompanhadas de perto. E, em muitos
casos, o tratamento cirúrgico deve ser realizado o quanto antes, dependendo das
características dessas lesões”, orienta o médico.
Sinais
de alerta e sintomas mais comuns
Nos estágios iniciais, o câncer de pâncreas raramente apresenta
sintomas. Quando eles surgem, o tumor geralmente já se encontra em estágio mais
avançado. Os sinais mais comuns incluem dor abdominal, emagrecimento rápido,
cansaço, perda de apetite, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes mais
claras que o normal e, às vezes, uma massa palpável no abdômen.
“Os principais sintomas do câncer de pâncreas variam bastante de
acordo com a localização do tumor dentro do órgão. Quando o tumor é pequeno,
mesmo sendo maligno, ele costuma ser assintomático. Por isso, é fundamental
prestar atenção a sintomas pouco específicos, mas que persistem.”, afirma o Dr.
Nacif.
Quem
está mais vulnerável?
Embora o câncer de pâncreas possa afetar qualquer pessoa, de
acordo com o cirurgião do aparelho digestivo, existem fatores que aumentam
significativamente o risco, “como tabagismo, o consumo excessivo de álcool, a
obesidade, o diabetes tipo 2, o colesterol desregulado e o sedentarismo estão
entre os principais”, relata. Além disso, a alimentação também exerce
influência: dietas ricas em alimentos ultraprocessados estão associadas a maior
risco.
Como
é feito o diagnóstico
Na maior parte das vezes, o diagnóstico começa a partir da
investigação de sintomas inespecíficos ou de achados através da busca por
outros motivos. A avaliação clínica é o primeiro passo, seguida por exames
laboratoriais e de imagem, como tomografia, ressonância magnética e ultrassom
endoscópico. Em alguns casos, a confirmação depende de uma biópsia.
Um exemplo recente de diagnóstico precoce aconteceu com o
apresentador Edu Guedes, que descobriu um tumor no pâncreas ao investigar uma
crise renal. O caso revela como tumores na região podem ser confundidos com
outras condições.
“Isso pode acontecer porque o pâncreas está localizado na região
retroperitoneal, próxima dos rins, e a dor causada por um tumor pancreático
pode ser confundida com uma cólica renal. Ao mesmo tempo, uma cólica renal pode
levar a exames que revelam, por acaso, um tumor no pâncreas”, explica Nacif.
Tratamento
e prognóstico
O tratamento do câncer de pâncreas depende diretamente do estágio
em que a doença é descoberta. Quando o tumor está restrito ao órgão e não há
metástases, a cirurgia é a principal abordagem e pode ser curativa. Casos mais
avançados exigem estratégias combinadas, como quimioterapia, radioterapia e, em
alguns casos, imunoterapia.
“A cirurgia é indicada quando o tumor ainda está localizado e pode
ser totalmente removido. Em casos mais avançados, os tratamentos buscam
controlar a doença e dar mais qualidade de vida ao paciente”, afirma o
especialista.
O diagnóstico precoce, embora difícil, pode mudar completamente o curso da doença. “No caso do câncer de pâncreas, o diagnóstico precoce é fundamental e pode fazer toda a diferença no prognóstico. Quando o tumor é detectado ainda nos estágios iniciais, antes de se espalhar para outros órgãos ou localmente, é possível realizar uma cirurgia curativa e o tratamento com mais chances de sucesso”, diz.
Segundo o especialista, assim como em grande parte dos tumores oncológicos, o ideal não é esperar por sintomas e adotar uma postura preventiva. “É fundamental manter um acompanhamento regular com exames de rotina, tanto exames de sangue quanto de imagem, para rastrear precocemente qualquer alteração”, finaliza o Dr. Lucas Nacif.
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