A Democracia não é um porto seguro em
que se atraca, mas um oceano em que se navega!
É uma sinfonia em constante composição, cuja partitura são os
Direitos Humanos e cuja regência pertence à vontade da maioria — uma vontade
que só se torna sublime quando aprende a modular seu volume para que os solos
mais delicados, os dos grupos minorizados, possam ser ouvidos e aplaudidos.
Ela é a busca incessante por uma harmonia onde cada instrumento,
do mais potente ao mais sutil, é indispensável para a grandiosidade da obra.
A história, quando lida com a alma e com os fatos, nos canta que
as nações afinadas por essa orquestra democrática são as que verdadeiramente
prosperam. A prosperidade que dela emana não é uma riqueza febril e efêmera,
mas o florescer de um pomar perene plantado no solo fértil da segurança
institucional: só com a certeza de que as regras do jogo não mudarão com o
humor dos ventos permitem que as raízes da confiança se aprofundem. Por outro
lado, a areia movediça do autoritarismo engole sonhos e sementes.
Devemos, entretanto, nos manter atentos já que essa orquestra pode
desafinar sempre que nossa insensibilidade não nos permita Enxergar que a
principal dissonância, o ruído que ameaça romper a melodia, é o abismo da
desigualdade social.
De um lado, a miséria que não apenas dói no corpo, mas amputa a
alma, confinando milhões a uma existência de sobrevivência que lhes nega o
direito de sonhar. Do outro, uma opulência que se isola em bolhas de consumismo,
tornando-se insensível aos clamores da rua.
Esse fosso não é apenas uma falha econômica; é uma fratura Ética
que cinde a nação. Ele pulveriza a Alteridade, essa capacidade sagrada de
sentir a dor do outro como se fosse nossa e, a partir dela, construir o
protagonismo individual de cada um! O resultado é a desagregação, a corrosão da
confiança, a transformação do concidadão em adversário. É nessa hora que a
Democracia fica à prova, deixando uma ferida aberta em nosso tecido social.
O antídoto pra isso? A Democracia assumir sua face mais corajosa:
a de regente ativa! Ela não pode ser uma espectadora passiva da injustiça. Sua batuta
deve ser firme, traduzida em investimentos públicos que funcionam como o
potencializador de cada individualidade e coletividade. Investir em educação de
excelência é afinar as cordas do futuro. Garantir saúde universal é assegurar
que nenhum músico desfaleça antes do final da peça. Esses atos não são gastos,
são a própria composição da Justiça Social.
Onde há Justiça e previsibilidade, a desigualdade social diminui,
pois a própria estrutura incentiva a distribuição de oportunidades, e não o seu
acúmulo.
É lá então, no palco da Inclusão, que a verdadeira mágica
acontece. A Inclusão Social não é apenas um ato de reparação; ela é a pedra
fundamental da Criatividade. Grupos homogêneos tendem a polir as mesmas ideias
até o esgotamento. A verdadeira centelha criativa nasce do encontro do
diferente, do inesperado.
Como nos ensinou a genialidade de Victor Hugo, é da convivência
entre inteligências diversas que jorra a luz... As diferentes vivências, as
visões de mundo moldadas por trajetórias distintas, as soluções pensadas por
quem enfrenta barreiras que outros nem sequer enxergam — são como pedras de
diferentes texturas e origens que, ao se chocarem, produzem o fogo da ideia
nova.
Essa luz, essa centelha criativa, é o motor da Inovação. E a
Inovação, por sua vez, é a base de todo desenvolvimento econômico sustentável e
genuíno no mundo contemporâneo. O ciclo, então, se revela em toda a sua
esplêndida lógica: a Democracia, ao possibilitar e promover investimentos
inclusivos, não está apenas fazendo Justiça. Ela está, estrategicamente,
cultivando o ambiente mais fértil possível para a Criatividade e a Inovação,
que são as verdadeiras moedas da prosperidade.
Portanto, uma nação que escolhe ser mais justa não está fazendo uma afronta à economia. Pelo contrário, está construindo o único alicerce sólido sobre o qual uma economia vibrante, humana e perene pode, de fato, ser erguida.
A sinfonia da Democracia, quando bem regida pela inclusão, não toca apenas para o espírito, mas enche a mesa de todo o seu povo!
André Naves - Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em Economia Política pela PUC/SP; Cientista Político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Comendador Cultural, Escritor e Professor (Instagram: @andrenaves.def).
Nenhum comentário:
Postar um comentário