Em qualquer território desconhecido, a primeira
forma de comunicação é o corpo. Antes da fala, o olhar lê a maneira de estar no
mundo: a postura, os adornos, as vestes. E quando a pele é negra, esse diálogo
é inevitavelmente racializado, mesmo nos espaços que fingem neutralidade.
A moda é muitas vezes reduzida à futilidade, mas é
um dos instrumentos mais antigos de expressão identitária. Todos se vestem,
seja com tecidos de grifes ou com adornos de palha trançada. Vestir-se é
um ato político, especialmente para quem precisa afirmar, diariamente, seu
direito de existir.
Em experiências de trânsito entre países africanos
e centros urbanos ocidentais como Paris, observa-se como o vestuário se
transforma em manifesto. A estética negra, com suas cores vibrantes, tecidos
como o wax, turbantes, colares e estampas simbólicas,
expressa ancestralidade, pertencimento e autonomia. Trata-se de uma
linguagem que ultrapassa tendências e afirma modos de vida, mesmo em
territórios marcados pela imposição de padrões eurocentrados.
A moda africana é, há séculos, circular, artesanal
e sustentável, muito antes dessas palavras se tornarem tendências ocidentais.
Nas tribos e comunidades, há uma cosmovisão que entende o vestir como parte do
equilíbrio entre indivíduo, natureza e coletividade. O "eu sou porque nós
somos" reflete-se também na escolha consciente do que se usa sobre a pele.
No Brasil, essa reexistência se traduz na presença
crescente, ainda que julgada, de corpos negros adornados com orgulho em espaços
públicos e eventos culturais. O que antes era visto como folclore ou
"exótico", agora começa a ser reconhecido como linguagem, como
potência.
Mais do que resistência, vestir-se
é reexistir, como propõe o pensador Nego Bispo. Não se trata de reagir ao
racismo, mas de afirmar modos de vida que recusam a imposição do outro. Na
sutileza dos tecidos, há firmeza; na estética, há política. E a luta,
silenciosa ou não, continua visível no modo como cada corpo negro escolhe
ocupar o mundo.
Isabelle Mesquita - estilista, artista
contemporânea, mestre em Gestão de Moda e Luxo e autora de “Uma preta em
Paris”. Por meio da arte, levanta questões que envolvem o feminismo e a luta
antirracista.
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