A campanha Setembro Vermelho, dedicada
à conscientização sobre a saúde do coração, se une ao Dia Mundial do Coração,
celebrado em 29 de setembro, para reforçar um alerta urgente: as doenças
cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no Brasil e no
mundo.
Embora historicamente associadas aos
homens, as doenças cardiovasculares (DCV) atingem de forma significativa também
as mulheres — especialmente após a menopausa. Dados da Organização Mundial da
Saúde (OMS) revelam que essas enfermidades são responsáveis por um terço das
mortes femininas no planeta, provocando 8,5 milhões de óbitos a cada ano, o
equivalente a mais de 23 mil por dia.
No Brasil, o cenário não é diferente.
Estima-se que mais de 30% das mortes entre mulheres estejam ligadas a problemas
cardiovasculares, superando inclusive os índices de mortalidade por câncer de
mama e de colo do útero, doenças que costumam receber maior atenção no debate
público.
Segundo dados de um artigo recente sobre a epidemiologia das DCV, as mulheres estão
expostas a riscos crescentes de doenças cardiovasculares ao longo da vida.
Antes da menopausa, os hormônios femininos proporcionam uma certa proteção, mas
esse cenário muda drasticamente após essa fase. A pesquisa, divulgada pela Sociedade de
Cardiologia do Estado de São Paulo, revela
que, após a menopausa, o risco de DCV nas mulheres aumenta consideravelmente,
aproximando-se do índice dos homens.
O estudo aponta que as doenças
isquêmicas cardíacas (DIC) e as doenças cerebrovasculares são as principais
causas de mortalidade cardiovascular nas mulheres. A prevalência dessas doenças
tem aumentado de forma preocupante, especialmente após a menopausa. O
levantamento destacou que, entre 1990 e 2019, houve uma redução significativa
da prevalência de DCV em homens, mas nas mulheres essa queda foi mais
acentuada, com uma redução de 12,8%. No entanto, a mortalidade e a prevalência
das DCV nas mulheres voltam a subir após a menopausa, sugerindo que essa fase
representa um ponto crítico para a saúde cardíaca feminina.
Fatores de risco específicos
das mulheres
De acordo com o cardiologista Dr.
Rafael Macedo, do Hospital Mater Dei Santa Clara, a mudança no estilo de vida e
as pressões do cotidiano contribuem para o aumento dos casos de DCV em
mulheres. “Além do maior ingresso das mulheres no mercado de trabalho, houve um
aumento na adoção de hábitos prejudiciais que antes eram predominantemente
masculinos, como o tabagismo. Fatores comuns a ambos, como estresse, obesidade
e outras condições também contribuem para aumentar o risco cardiovascular”,
explica o médico.
Além disso, ele destaca que os sintomas
das doenças cardíacas podem ser diferentes nas mulheres, frequentemente
manifestando-se de forma atípica. “Precisamos orientar que sintomas como
náusea, vômito, dor na região epigástrica, sudorese, cansaço, fadiga e
palpitações podem ser sinais de uma doença cardíaca. Esses sintomas são
atípicos e, muitas vezes, são confundidos com outras condições, como
transtornos de ansiedade ou problemas gastrointestinais. Isso pode atrasar o
diagnóstico e, consequentemente, o tratamento. É crucial que as mulheres
estejam atentas a esses sinais e procurem um médico ao menor sinal de
anormalidade”, alerta o cardiologista.
A hipertensão e o diabetes, dois dos
principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, também têm maior
incidência nas mulheres após a menopausa, muitas vezes sem apresentar sintomas
claros. Segundo o Dr. Marcos Gonçalves, cardiologista do Hospital Mater Dei
Santa Genoveva, isso exige que as mulheres tenham maior atenção em exames de rotina.
“Nas mulheres, essas condições podem ser silenciosas, e as artérias mais finas
e tortuosas tornam o tratamento mais complicado”, alerta.
A importância do diagnóstico
precoce
Um ponto chave para a melhoria do
prognóstico cardiovascular nas mulheres é o diagnóstico precoce. Como explica o
Dr. Rafael, o atraso no diagnóstico ainda é um problema, muitas vezes
influenciado pela percepção equivocada de que as DCV são "doenças de homens".
Essa visão pode induzir médicos e pacientes a desvalorizarem sintomas e não
aplicarem o tratamento adequado. "É preciso educar as mulheres sobre os
sinais de alerta e assegurar que o diagnóstico seja feito sem preconceitos,
considerando as particularidades do corpo feminino", destaca.
A campanha do Setembro Vermelho surge
justamente para reforçar essa mensagem. É essencial que as mulheres estejam
atentas à sua saúde cardíaca, especialmente no pós-menopausa, monitorando
fatores como pressão arterial, colesterol e glicemia, além de manter hábitos
saudáveis como a prática regular de atividades físicas e uma alimentação
equilibrada.
Fatores não tradicionais e o
alerta para mulheres jovens
Embora a menopausa seja um divisor de
águas na saúde cardiovascular das mulheres, fatores não tradicionais, como
diabetes gestacional e doenças reumatológicas, também aumentam o risco. O Dr.
Marcos Gonçalves reforça a importância de monitorar as doenças reumatológicas,
como artrite reumatoide e lúpus, que afetam diretamente a saúde cardiovascular
das mulheres. “Essas doenças inflamatórias, comuns em mulheres, exigem
frequentemente o uso de corticoides, que, além de controlar a inflamação,
trazem efeitos colaterais importantes, como o aumento da glicemia, colesterol,
triglicérides e o ganho de peso. Esses fatores contribuem para o
desenvolvimento de hipertensão e elevam o risco de doenças cardiovasculares. A
inflamação crônica, característica dessas condições, agrava ainda mais esse
cenário, tornando essencial um acompanhamento cardiovascular rigoroso para
evitar complicações graves”, explica o especialista.
Além disso, estudos mostram que as
mulheres jovens estão cada vez mais expostas ao infarto, especialmente aquelas
com maior carga de comorbidades, como obesidade e hipertensão. Entre 1995 e
2014, um estudo americano de
vigilância da aterosclerose mostrou
que, enquanto a taxa de internações por infarto caiu entre homens jovens, ela
subiu entre as mulheres da mesma faixa etária. Esses dados reforçam a
necessidade de atenção às mulheres mais jovens, que muitas vezes não recebem o
tratamento adequado ou têm seu diagnóstico tardio.
Portanto, neste mês de setembro, a
mensagem é clara: cuidar do coração deve ser uma prioridade para as mulheres em
todas as fases da vida. “O reconhecimento dos sintomas atípicos e a
conscientização sobre os fatores de risco são passos fundamentais para reduzir
as mortes por doenças cardiovasculares e garantir uma vida mais longa e
saudável”, finaliza Rafael.
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