No mês dedicado à prevenção ao suicídio, especialistas reforçam: saber ouvir e oferecer acolhimento pode ser decisivo.
Falas aparentemente casuais como “queria dormir e não acordar” ou
“vocês ficariam melhor sem mim” podem esconder um sofrimento profundo. No
Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a prevenção ao suicídio,
especialistas reforçam que a escuta atenta e a disponibilidade para acolher fazem
toda a diferença.
“Minimizar ou silenciar a dor só aumenta a solidão. Quando
escutamos com empatia, validamos os sentimentos e mostramos que estamos
disponíveis, pode ser o primeiro passo para salvar uma vida”, afirma a
psicóloga Laís Mutuberria, especialista em neurociência do comportamento e
saúde mental.
Como responder diante de um pedido de ajuda
De acordo com Mutuberria, respostas acolhedoras são decisivas.
Perguntas simples, como “Você quer me contar melhor o que está sentindo?” ou
“Percebo que você está sofrendo, estou aqui para te ouvir”, transmitem
reconhecimento e apoio. Outras expressões, como “Sua vida é importante, e você
não precisa passar por isso sozinho”, também ajudam a abrir espaço para o
diálogo.
“Frases que mostram gratidão pela confiança, como ‘Obrigada por
confiar em mim para falar sobre isso’, ou o oferecimento de acompanhamento na
busca por ajuda profissional, podem ser pontos de virada, explica a psicóloga.
Quebrando mitos sobre o suicídio
Um dos principais obstáculos na prevenção é a ideia equivocada de
que quem fala sobre suicídio não vai se matar. “Na prática clínica, vemos
justamente o contrário: grande parte das pessoas que tentaram suicídio
verbalizou sua dor antes do ato”, diz Mutuberria.
Outro mito comum é o medo de falar sobre o tema, sob a crença de
que isso poderia incentivar comportamentos de risco. Mas, segundo a
especialista, as evidências mostram o oposto: abrir espaço para a conversa não
estimula a ideação suicida, e sim acolhe quem já está sofrendo.
“O silêncio isola, aumenta a dor e dificulta o pedido de ajuda.
Falar permite que a pessoa sinta que sua dor pode ser nomeada e compartilhada,
em vez de guardada em segredo”, ressalta.
Prevenção começa cedo
A psicóloga também defende que a prevenção seja pensada de forma
ampla e desde a infância. “Crianças que aprendem a reconhecer emoções, pedir
apoio e lidar com frustrações crescem mais preparadas para enfrentar crises sem
recorrer a soluções extremas”, explica.
Ao longo da vida, fatores de proteção podem ser cultivados: manter
vínculos de amizade, ter uma rede de apoio familiar saudável, praticar
atividades físicas, envolver-se em hobbies, ter contato com a natureza, buscar
psicoterapia e construir um propósito claro no trabalho ou nos estudos.
Intelecto e resiliência
Além disso, o desenvolvimento intelectual é outro fator protetivo.
“Atividades como ler, aprender algo novo e se desafiar intelectualmente ampliam
as conexões neurais e ajudam a flexibilizar pensamentos. Isso permite enxergar
alternativas mesmo em situações de crise”, afirma Mutuberria.
Rede de sustentação
Segundo a psicóloga, cada uma dessas escolhas funciona como um fio
de sustentação. “Quando somados, esses fios tecem uma rede capaz de amparar a
pessoa nos momentos de maior vulnerabilidade”, conclui.
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