Descoberta abre caminhos para novos tratamentos e
cura da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença neuromotora (DNM) rara que
afeta 15 mil brasileiros
O
Instituto Paulo Gontijo (IPG), referência no apoio à ciência e pesquisa sobre
Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), anuncia uma descoberta científica inédita
que tem o potencial de transformar a forma como a doença é diagnosticada e
tratada, liderada pela pesquisadora associada ao instituto, a geneticista Dra. Helen
Cristina Miranda,
O
estudo, publicado na revista EMBO Molecular Medicine, revelou que uma
forma rara e hereditária da doença, a ELA8, provocada por mutação no gene
VAPB, ativa de forma crônica a chamada Resposta
Integrada ao Estresse (ISR). Esse mecanismo celular, que
deveria proteger os neurônios, acaba comprometendo a produção de proteínas
essenciais e acelerando a degeneração dos neurônios motores.
A
inovação do estudo está na prova de conceito: ao aplicar um composto
experimental capaz de inibir a ISR, os pesquisadores reverteram
danos já instalados em neurônios motores derivados de células-tronco de
pacientes. Essa reversão incluiu recuperação da função
mitocondrial, responsável pela produção de energia celular e da atividade
elétrica dos neurônios.
“Mostramos
que neurônios doentes ainda podem ser resgatados. O bloqueio da
resposta ao estresse devolveu a eles funções perdidas, o que abre caminho para
novas terapias e para a medicina personalizada em ELA”, explica a Dra. Helen
Miranda, professora associada da Case Western Reserve University.
Para
o Dr. Miguel Mitne-Neto, um dos autores do estudo, agora os
resultados encontrados precisam ser avaliados em outros sistemas e modelos da
doença antes de apontar sua aplicabilidade. “Mas acreditamos que existe um
grande potencial, pois a via molecular estudada é comum a outras formas de
doenças neurodegenerativas e isso pode constituir um caminho inicial para tal
expansão”. Os próximos passos incluem expandir a investigação para outros
subtipos de ELA, como os causados pelas mutações em C9ORF72, TDP43 e FUS, além
de casos esporádicos, que representam a maioria dos diagnósticos.
Mitne
aponta ainda que este estudo faz parte de um processo maior de evolução
nos métodos diagnósticos, especialmente para as formas
genéticas, nos últimos 20 anos. Segundo ele, a capacidade de
avaliar grandes segmentos do genoma humano trouxe não apenas a identificação de
novas formas da ELA, como se traduziu em ferramentas de aplicação diagnóstica na prática.
E a melhor caracterização dos pacientes permite um direcionamento específico de
seu tratamento. E a tendência é que o avanço seja ainda mais rápido nos próximos 20 anos,
por conta da apuração de novos modelos para a doença. “Até poucos anos atrás,
os modelos animais, que apresentam diversas limitações, eram a principal
ferramenta de avaliação da doença, fora do paciente. O advento de tecnologias
como a reprogramação celular permitiu que neurônios de pacientes com ELA fossem
estudados em laboratório, permitindo uma melhor caracterização das alterações
moleculares iniciais, além de expandir a quantidade de moléculas a serem
testadas para reversão dessas modificações”, explica.
Para
o Instituto Paulo Gontijo, a descoberta reforça a
relevância da ciência brasileira no cenário internacional. “Trata-se de um
marco científico que oferece um alvo para novos fármacos e ensaios clínicos.
Essa pesquisa pode mudar o futuro do diagnóstico, do desenvolvimento de
medicamentos e até abrir caminho para a tão sonhada cura da ELA”, afirma Silvia
Tortorella, diretora executiva.
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