Setor de panificação tem 55 mil vagas
à espera de preenchimento somente no estado de São Paulo, segundo levantamento
do Sampapão
IMAGEN: Karina Lignelli
Consideradas uma espécie de
segunda casa e um dos segmentos mais queridos e tradicionais para os
consumidores paulistas e paulistanos, as padarias enfrentam um impasse: a falta
de mão de obra, tanto no balcão como na produção.
Entre auxiliares de limpeza, atendentes,
balconistas, chapeiros e cargos especializados como os de padeiros e
confeiteiros, o setor de panificação hoje tem pelo menos 55 mil vagas à espera
de serem preenchidas no estado de São Paulo, segundo levantamento do Sampapão,
organização empresarial que congrega entidades como Sindipan, Aipan, o braço
social Fundipan e o IPDC, de formação profissionalizante em panificação e
confeitaria.
Com 350 mil empregados e 11,2
mil estabelecimentos em sua base (sendo 6 mil na capital paulista), o apagão de
obra nas padarias tem algumas origens que refletem o atual cenário do mercado
de trabalho. Mas também as mudanças culturais sobre como se enxerga este
mercado, assim como em outros setores que têm sofrido com a falta ou até
a debandada de
funcionários.
Entre os principais desafios
estão a dificuldade em atrair jovens, que preferem modelos de trabalho
flexíveis ou até empreender como influencers, a baixa atratividade
de empregos CLT, os programas de transferência de renda, a mudança de padrão
migratório de trabalhadores de outros estados, que antes vinham 'fazer a vida'
em São Paulo mas voltaram para suas regiões, e o alto custo de terceirizar ou
contratar autônomos, segundo Rui Gonçalves, presidente do Sampapão.
Essa última opção, explica,
além de ser mais cara, não é bem aceita pela legislação do setor, já que a
padaria também é uma prestadora de serviços. "Agora, imagine só essa
hipótese: se eu pago R$ 1 mil para um funcionário, mais os direitos, o
custo é de R$ 2 mil. Mas se eu pegar um terceirizado ou autônomo, ele vai
cobrar R$ 2,5 mil ou mais, porque R$ 2 mil é o custo dele e o resto são
impostos", afirma. "Muitas vezes fica inviável, principalmente para
as padarias menores."
Do lado dos trabalhadores,
pesam na equação a inflexibilidade de horários e jornadas extensas, em alguns
casos, com trabalho aos fins de semana, além da baixa remuneração, que varia
entre R$ 2.050 e R$ 2.150 de piso salarial bruto, em média, segundo Chiquinho
Pereira, presidente do Sindicato dos Padeiros de São Paulo.
Como as padarias têm jornadas
de trabalho de domingo a domingo, explica, há uma grande resistência dos
trabalhadores, especialmente dos jovens, que querem aproveitar o tempo livre
para fazer algum curso, para o lazer ou simplesmente descansar.
"Para a maioria dos
cargos, como balconistas, os salários são próximos ao piso da categoria
nas padarias menores, e com os descontos, ficam em torno de R$ 1,6 mil líquidos
- considerados insuficientes para sobreviver", diz. "Até padeiros e
confeiteiros, que em grandes padarias podem ganhar salários mais altos, entre
R$ 5 mil e R$ 6 mil, nas pequenas também ganham próximo ao piso."
Pereira aponta o trabalho
diário para reforçar a importância da CLT para a categoria em uma operação que
é geralmente estressante e muitas vezes realizada sob forte pressão - o que tem
gerado aumento de 62% em relatos de assédio moral, especialmente do ponto de vista
das trabalhadoras, afirma. E critica as "campanhas em redes sociais
para disseminar a aversão ao trabalho com carteira assinada, e as vantagens da
geração de renda informal". Principalmente entre os jovens.
"A CLT ainda é a única
proteção do trabalhador, pois garante aposentadoria, INSS, assistência em caso
de acidentes ou doença, férias, 13º, FGTS e PLR. Essas campanhas são uma
verdadeira falácia, pois, além de prejudicarem os mais diversos setores, fazem
com que o trabalhador perca benefícios cruciais sem ela."
Usando como base números do
Datafolha e da Fiesp, o levantamento do Sampapão confirma: no atual cenário de
inflação e juros altos, 59% dos brasileiros consideram melhor trabalhar por
conta própria, ante 39% que preferem ser contratados por uma empresa. Outros
dados apontam que, de 2022 a 2025, subiu de 21% para 31% o total de pessoas que
preferem ganhar mais trabalhando por conta própria do que terem registros em
carteira.
Já o processo de busca por
candidatos é considerado muito difícil para 77,1% das indústrias (inclui as de
panificação) e, segundo uma pesquisa feita pelo Sampapão com alguns associados,
42 panificadoras já confirmam procura ativa por modelos de trabalho fora da CLT
para minimizar o problema, destaca Gonçalves.
Ou seja, com as novas
possibilidades de trabalho como apps e vendas online que oferecem a tal
flexibilidade, uma possível solução, pelo estudo do Sampapão, passa pela
necessidade de os empregadores reformularem salários e a rigidez da carga
horária para que os empregos no setor sejam mais atrativos. Por outro lado,
estes também ficam de mãos atadas pelas próprias regras da CLT e de outras
normas regulatórias.
"Nossa legislação
para padarias não aceita muito isso, mas tem gente fazendo, vamos ter que
ser muito criativos para achar alguma solução. Se nosso setor não encontrar
caminhos para se modernizar e dialogar com essa nova realidade, corremos o
risco de enfrentar uma crise de operação sem precedentes."
Geração Z,
informalidade e competição
Voltando aos jovens, um
comportamento normalizado em diversos setores também tem afetado as padarias,
segundo Rui Gonçalves, do Sampapão: a Geração Z não quer ser CLT, pois prefere
trabalhar de casa, "ou com celular no bolso e um fone no ouvido porque não
querem fazer jornadas de oito horas", diz. E o setor, que
historicamente oferece oportunidades de primeiro emprego e treinamento, não
consegue mais atrair esses iniciantes.
Quem entra no ramo, afirma,
consegue evoluir: muitos que começaram trabalhando na limpeza, por exemplo, se
tornaram atendentes, chapeiros ou até viraram padeiros ou confeiteiros. Em seu
próprio empreendimento, a padaria Portugália, no Morumbi, o presidente do
Sampapão afirma que tem empregados com mais de 20, 30 anos de casa que subiram
de cargo desta forma.
Há estabelecimentos que não
pedem experiência anterior nem para os cargos mais especializados, como é o
caso da Villa Grano, com unidades na Vila Clementino e na Vila Madalena (zonas
Sul e Oeste da capital paulista). Nelas, também há funcionários de carreira,
segundo o proprietário Luiz Pereira Ferreira.
Ele conta que há mais de 15
anos prefere contratar quem nunca trabalhou no ramo porque dar treinamento é
mais vantajoso para todos. "Vamos formando a pessoa, ensinando na área
comercial... Também temos um projeto para o funcionário passar de setor a setor
e, em dois anos, ficar apto a fazer tudo do comercial, como atendimento de pão,
de frios, suco, café, chapa e atendimento no salão", conta. "Na parte
industrial (de panificação), também damos treinamento aqui na casa."
Gonçalves reforça dizendo que o
setor dá oportunidade para todos. "Ensinamos, pagamos cursos para os
empregados aprenderem a profissão. Muitos acabam até fazendo outras carreiras,
se tornam donos de padaria, mercadinhos, bares... Mas era aquele pessoal que
queria trabalhar, isso 10, 15 anos atrás. Agora acabou."
Ferreira tem opinião
semelhante. Para ele, nas padarias, o problema não é a falta de mão de obra
qualificada. "O problema é o desinteresse dos candidatos: muitos dizem que
compensa mais ficar em casa", afirma, que tem mais duas padarias além das
Villa Grano, e um déficit de pelo menos 30 funcionários para contratação
urgente.
Já o antigo problema de
trabalho aos domingos, antes exclusivo das padarias, segundo Gonçalves, também
não é mais desculpa, já que a lei atual engloba todo tipo de comércio: a jornada
é de oito horas, com turnos de trabalho e escala de folgas, "um horário
normal e comum a qualquer tipo de serviço", explica.
"Mas o maior problema é
que hoje o empregado chega na padaria para fazer entrevista e pergunta: 'vou
ser registrado? Então não quero, obrigado'. Mas o que mais nos surpreende
é que não é padaria, é qualquer tipo de ramo, em São Paulo e no Brasil. O
comércio como um todo, construção civil... todo mundo reclama."
Nesse cenário, aumentou o
número de informais, destaca, que hoje são mais de 38% da população ocupada
(quase 40 milhões, segundo o IBGE). "Todo mundo quer ser dono de alguma
coisa, ser proprietário nem que seja de uma barraquinha, menos ser registrado.
Por isso é que a mão de obra fugiu do mercado."
E há uma questão delicada: a
competição por funcionários entre as empresas do setor. Com a falta
de mão de obra, tem sido
comum o roubo de profissionais, ou seja, convidar um empregado de outra padaria
a mudar de emprego oferecendo algum benefício extra, seja em aumento de salário
ou uma folga a mais.
Sérgio Luiz Bacelo Amorim, da
Amor in Pani, no bairro da Aclimação, confirma. "A gente tem perdido
algumas pessoas para os concorrentes, sim. Mas eu acho que isso faz parte do
mercado e não só do nosso", explica. Dono de outras três padarias Santa
Ifigênia espalhadas pelo Centro da capital paulista, Amorim contemporiza
dizendo que as pessoas também procuram condições melhores de trabalho e de
salários, mas muitas vezes mudam e mostram não ter qualificação
suficiente.
Para Rui Gonçalves, essa
concorrência um tanto desleal infelizmente é uma realidade no setor, porque com
a falta de mão de obra, muitos não encontram opção. "É deselegante, chata,
feia, é verdade. Mas acontece: quem precisa desesperadamente vai na padaria do
outro, pergunta quanto o funcionário ganha e... 'dou mais R$ 300, vem trabalhar
comigo?' E o empregado vai, porque dinheiro é dinheiro."
Para segurar esse funcionário,
Amorim diz que a comunicação é primordial no negócio de padarias, além de uma
gestão mais familiar e humanizada para reter essa pessoa, sem tratar o
trabalhador como "uma peça a mais para virar dinheiro", afirma.
Ele diz ainda que sempre
orienta o RH "a demorar para contratar, e ser rápido para demitir" -
justamente para reter quem tem real interesse no emprego. E que o fato de duas
de suas padarias não abrirem de domingo é um plus.
"A gente procura estar ao
lado do colaborador, criar um ambiente mais favorável, desde coisas mais
básicas, como o vestiário ou refeitório, até manter a porta do meu escritório
aberta para quem quiser entrar e conversar quando precisa. Acho que o segredo é
esse: ter sempre um canal aberto para a comunicação."
Hoje, no total, o Grupo Santa
Ifigênia tem cerca de 180 funcionários e um turnover de 5%, 6%,
"suficiente para movimentar quando é preciso", diz Amorim.
Tradição
versus modernidade
Os self-checkouts já
fazem parte do cenário há mais de uma década, assim como os pedidos por QR
Code, maquinários automatizados para acelerar a produção e os softwares de
estoque e precificação integrados. Para driblar a falta de mão de obra, tem até
dono de padaria importando robôs da China, semelhantes aos utilizados em
hotelaria, para testar a aceitação do consumidor quanto ao atendimento e, quem
sabe, minimizar o problema.
Hoje, segundo Rui Gonçalves, do
Sampapão, há um esforço dos proprietários para trazer novidades do exterior e
maquinários como masseiras espirais, cilindros, amassadeiras, fornos
industriais, ultracongeladores ou supercentrífugas, entre outros, para diminuir
essa necessidade de funcionários.
"Máquinas que antes exigiam
três trabalhadores, agora operam com um ou no máximo dois", explica ele,
que diz que eventos do setor, como a Fipan, são
importantes para mostrar essas inovações e trazer modernização para as
padarias. O setor também oferece treinamento para que os funcionários
possam operar as novas máquinas, "reconhecendo que elas não funcionam
sozinhas."
Mas a modernização traz outro
desafio: a natureza artesanal das padarias. Gonçalves lembra que grande
parte dos produtos (pães, salgados, confeitaria) é manual e artesanal, exigindo
o toque humano - o que torna difícil a substituição total por máquinas. Sem
contar o alto custo de investimento e espaço para acomodá-las - o que é
inviável para muitas padarias, em especial as pequenas.
Em sua avaliação, o "futuro
da modernidade" que ajudará a resolver essa falta de mão de obra é tentar
fazer a máquina trabalhar para ocupar esse vácuo. "Em alguns lugares vai
dar certo, mas em outros não vai. Porque, insisto: o artesanal, o manual,
ainda é muito forte no nosso setor."
Outra questão, segundo ele, é
uma espécie de rejeição cultural à automação, já que existe uma forte
preferência dos brasileiros, em especial dos paulistanos, pelo atendimento
humano: segundo o presidente do Sampapão, cerca de 90% dos clientes preferem
ser atendidos dessa forma. Tentativas de implantar sistemas de
autoatendimento (como pedidos via celular) encontram grande rejeição -
inclusive entre os jovens, pois os clientes valorizam a interação pessoal.
"Porque é aquela
história, o pessoal quer chegar e 'bom dia, e o Corinthians? E o Palmeiras? Vai
chover?' É normal o cliente entrar na padaria, sentar e não pedir nada, e o
chapeiro, o atendente, já saber o que ele vai pedir. Ou só perguntar: 'o mesmo
de ontem?' O pessoal vira amigo", conta.
Mas, se o dilema continua,
pois o consumidor paulistano quer ser bem atendido na padaria mas não quer
trabalhar na área, reforça Gonçalves, o setor de padarias em São Paulo não
para: muitos estabelecimentos estão se revitalizando ou investindo em novas
casas, que já nascem automatizadas e modernas.
Crescendo "um
pouquinho" por ano desde a pandemia, e com a expectativa de fechar 2025
com alta de 4% a 5%, em paralelo ao impasse da falta de mão de obra, o setor de
panificação se movimenta com iniciativas
para promover a qualidade e a importância cultural desses
estabelecimentos.
Entre elas, estão o evento anual
Padocaria, lançado na última quarta-feira (10) para eleger as melhores padarias
de São Paulo, o reconhecimento do setor pelo Governo do Estado, que incluiu 300
padarias no roteiro turístico de São Paulo em 2023, e a parceria com a
multinacional de alimentos Bunge para tornar o pão paulistano em patrimônio
imaterial da cidade.
"São essas coisas que fazem com que as padarias, além de ficarem na mídia, levem a população a analisar nosso setor com outros olhos", acredita Gonçalves.
Karina Lignelli
https://dcomercio.com.br/publicacao/s/padarias-paulistas-tentam-se-modernizar-para-enfrentar-falta-de-mao-de-obra
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