Alvaro Pulchinelli, patologista clínico e toxicologista, alerta para a rápida evolução das substâncias sintéticas, seus riscos clínicos e os impactos já visíveis no Brasil. Já foi identificado no país, em 2025, um novo opióide sintético, o Nitazeno, que havia sido registrado anteriormente na União Europeia. SBPC/ML lançou nesta terça (16) Primeira Norma de Toxicologia do Brasil para orientar laboratórios
O patologista clínico e toxicologista Álvaro Pulchinelli,
presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial
(SBPC/ML), destacou em sua apresentação, no 57º Congresso da Sociedade
Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (CBPCML), os riscos das
novas drogas psicoativas (NPS) e a complexidade que representam para a
toxicologia laboratorial e para a saúde pública. “Essa é uma indústria
extremamente lucrativa e complexa, com uma criatividade quase inesgotável”,
afirmou. O CBPC/ML acontece de 16 a 19 de setembro, no Riocentro, no Rio de
Janeiro.
Segundo dados apresentados, apenas em 2024 foram apreendidas 41,5 toneladas de novas substâncias na União Europeia, com 47 drogas detectadas pela primeira vez. Entre elas, os mitazenos chamam a atenção pela potência e pela dificuldade de controle. Esse movimento, inicialmente concentrado em países desenvolvidos, já se reflete no Brasil, onde têm sido registradas apreensões de canabinoides sintéticos (K2, SPICE), catinonas (“sais de banho”), cocaína rosa, opioides sintéticos (como o fentanil) e os chamados “designer benzodiazepínicos”.
Pulchinelli chamou atenção para alguns pontos críticos que tornam
o enfrentamento desse cenário ainda mais desafiador:
- Zona cinzenta legal: muitas substâncias circulam sem proibição
explícita, aproveitando brechas jurídicas que favorecem sua comercialização.
- Variabilidade de composição: os traficantes
modificam fórmulas e concentrações conforme o perfil do usuário, aumentando o
risco de overdose e morte súbita, inclusive entre iniciantes.
- Dificuldade diagnóstica: os efeitos clínicos nem
sempre correspondem ao padrão conhecido das drogas tradicionais. “Se não
conhecemos o efeito, não levantamos suspeita, e isso dificulta a atuação dos
serviços de emergência”, alertou Pulchinelli.
Como exemplos, ele destacou que os canabinoides
sintéticos podem causar lesão renal aguda, psicose e até morte; as catinonas
podem levar a hipertermia, paranoia e arritmia fatal; e opióides extremamente
potentes, como o carfentanil, multiplicam o risco de overdose. O toxicologista
também ressaltou o fenômeno do uso combinado de drogas, prática em que
estimulantes são utilizados para prolongar a vigília e benzodiazepínicos para
induzir o sono. “É uma combinação altamente perigosa”, avaliou.
A crise dos opioides e os sinais no Brasil
O panorama da crise dos opioides nos Estados Unidos, marcada por
overdoses envolvendo heroína, fentanil e derivados, continua em agravamento. No
Brasil, embora o impacto ainda seja menor, o consumo segue em crescimento.
A codeína é o opióide mais identificado nas análises
laboratoriais, já que sua prescrição é mais simples - exige apenas receita
branca carbonada. No entanto, opióides mais potentes, como a oxicodona, também
estão em uso crescente no país.
Pulchinelli lembrou que, no Brasil, a prescrição de
opióides aumentou antes mesmo do pico das overdoses por fentanil nos EUA. Esse
processo expôs a população aos efeitos das substâncias e abriu caminho para
usos ilícitos. Nos Estados Unidos, três “ondas” marcaram a epidemia: a primeira
com opióides prescritos, seguida pela heroína e, mais recentemente, pelos
sintéticos.
Entre os principais fatores de risco para overdose por opioides, o
especialista destacou o uso prévio da substância (3,5 vezes mais chance de
overdose); ohistórico de transtornos de saúde mental, como depressão,
esquizofrenia e ansiedade; os jovens com menos de 40 anos (maior
vulnerabilidade); sexo masculino; a influência familiar, quando há uso
prescrito em casa - muitas vezes por dentistas -, o que facilita o acesso para
filhos e outros parentes.
O especialista lembra ainda que no Brasil, já foi
identificado em 2025 um novo opióide sintético, o Nitazeno, que havia sido
registrado anteriormente na União Europeia. Pulchinelli destacou ainda alguns
obstáculos que precisam ser enfrentados: a rápida diversificação das drogas,
que pode deixar a legislação defasada; a produção clandestina acessível,
realizada em pequenos laboratórios caseiros; a facilidade de acesso pela
internet, que amplia a disseminação cultural do consumo entre jovens; os novos
efeitos psicoativos, que expõe usuários a riscos inéditos; as limitações
diagnósticas, já que testes rápidos identificam dezenas de moléculas, mas não
acompanham toda a diversidade. “Nesse sentido, a espectrometria de massa
desponta como solução para maior precisão e agilidade, sobretudo com o
desenvolvimento de bibliotecas expandidas de compostos", explica.
Ao concluir, o presidente da SBPC/ML reforçou a
necessidade de vigilância e atualização constante da toxicologia laboratorial.
“O cenário está se tornando cada vez mais complexo e precisamos estar
preparados para identificar e manejar essas intoxicações”, finalizou.
SBPC/ML lança
primeira Norma de Toxicologia no Brasil
A primeira Norma de Toxicologia do
Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos (PALC) foi lançada esta
terça-feira (16), durante o 57º CBPC/ML, no Rio de Janeiro. O novo regulamento
representa um marco para os laboratórios brasileiros, ao estabelecer critérios
técnicos e científicos mais adaptados à realidade nacional e alinhados aos
padrões internacionais de qualidade.
“Os laboratórios que atuam em
toxicologia já precisam ser acreditados por uma entidade reconhecida para
exercer suas funções, especialmente nos exames obrigatórios para concursos
públicos e renovação da carteira de motorista. Porém, até agora, as opções
disponíveis eram onerosas ou pouco ajustadas ao contexto brasileiro. Com a
Norma de Toxicologia do PALC, conseguimos oferecer uma alternativa robusta,
científica e ao mesmo tempo mais adequada à nossa realidade”, explica Alvaro
Pulchinelli, toxicologista, patologista clinico e presidente da SBPC/ML.
Hoje, o Brasil conta com duas
referências de acreditação na área: o Colégio Americano de Patologistas, de
excelência reconhecida, mas de alto custo para os laboratórios nacionais, e a
norma ISO 17025, gerida pelo Inmetro, voltada sobretudo para a análise
toxicológica em aspectos técnicos. A proposta da SBPC/ML é mais abrangente,
incorporando exigências do Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito), da
Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), além de diretrizes internacionais.
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