O Itaú monitorou e
analisou dados de atividade dos funcionários por seis meses antes de decidir
pela demissão de cerca de mil trabalhadores nesta segunda-feira, 8. Os
desligamentos foram motivados por baixa produtividade. Os casos mais críticos
chegaram até o comitê executivo do banco, e alguns colaboradores chegaram a ser
advertidos antes da medida extrema.
A produtividade
foi avaliada com base em métricas digitais, como uso da memória do computador,
quantidade de cliques, abertura de abas, inclusão de tarefas no sistema e
criação de chamados. Funcionários ouvidos afirmaram não saber que o nível de
monitoramento era tão detalhado — o que revela outro ponto crucial: muitas
vezes os trabalhadores ainda não perceberam que as empresas contam hoje com
ferramentas altamente tecnológicas para acompanhar sua performance, mesmo em
regime remoto ou híbrido.
Esse episódio joga
luz sobre uma discussão que parecia superada: afinal, o home office e o
trabalho híbrido estão em crise?
Home office e
híbrido em crise?
No auge da
pandemia, o home office foi declarado como o futuro do trabalho. Em seguida,
fortaleceu-se o modelo híbrido, com dias em casa e outros na empresa. Hoje,
porém, a realidade é bem diferente. Cada vez mais organizações estão exigindo o
retorno ao trabalho totalmente presencial. No Brasil, o movimento também ganha
força: empresas que adotaram o home office retornam ao presencial, e mesmo
aquelas que optaram pelo híbrido estão pedindo mais dias na sede.
Embora o home
office e o híbrido sejam apontados em pesquisas como desejo de muitos
colaboradores, a prática mostra-se mais complexa do que o esperado. A
implementação enfrenta barreiras culturais, legais, estruturais e de
produtividade.
Desafios na
implementação do home office e trabalho híbrido
Segundo Mourival Boaventura Ribeiro, sócio da Boaventura Ribeiro Advogados Associados, “depois da pandemia, as empresas passaram do trabalho remoto para o híbrido, e agora precisam adaptar-se às novas regras legais”. Ele lembra que a Lei nº 14.442/22, que regulamenta o trabalho híbrido e remoto, trouxe mudanças importantes, mas a adaptação tem sido lenta e difícil para muitas companhias.
Além da
legislação, o desafio passa por infraestrutura e segurança da informação. Carol
Lagoa, co-founder da Witec, alerta: “Quando um colaborador trabalha
remotamente, a empresa precisa garantir que seu equipamento esteja protegido
contra vírus e outros riscos. Caso contrário, o risco de ataques cibernéticos
pode comprometer a segurança da companhia”.
Resistência e
reconfiguração da gestão
Outro ponto sensível é a resistência de empregadores. Muitos líderes ainda não se sentem confortáveis em gerir equipes à distância, o que compromete engajamento e colaboração. Tatiana Gonçalves, CEO da Moema Medicina do Trabalho, ressalta que a escolha de quem pode adotar o modelo híbrido ou remoto deve ser avaliada pelos gestores diretos, levando em conta as condições de trabalho de cada colaborador.
Ela também reforça
a necessidade de atenção às Normas Regulamentadoras, como a NR 17 (ergonomia),
além de laudos e programas de prevenção, que garantem segurança e reduzem
riscos de doenças ocupacionais.
O futuro: equilíbrio ou retrocesso?
O caso do Itaú
mostra que o monitoramento da produtividade já é uma realidade e que o
colaborador que não se adapta pode ser surpreendido por consequências severas.
Por outro lado, revela que empresas ainda buscam o equilíbrio entre
flexibilidade e resultados.
Apesar das
dificuldades, home office e híbrido continuam no radar como alternativas para
retenção de talentos e satisfação dos profissionais. Mas sua consolidação
depende de uma equação complexa: adaptação legal, investimentos em
infraestrutura, mudança cultural e clareza de expectativas entre empresas e
colaboradores.
Em 2025, o futuro do trabalho está em aberto — e
pode pender tanto para mais flexibilidade quanto para um retorno massivo ao
presencial. O que já parece claro é que os modelos híbridos e remotos não
sobrevivem sem responsabilidade, disciplina e alinhamento constante entre
empregadores e empregados.
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