Letícia Amici, médica psiquiatra e professora da Faculdade São Leopoldo Mandic, também comenta o papel das atividades lúdicas na prevenção de distúrbios e doença de Alzheimer
Brincar é uma atividade fundamental no desenvolvimento humano. Quando criança, contribui para diversos aspectos, como a formação cognitiva, o gerenciamento de emoções ou o aprendizado das relações sociais. Mas as pessoas não deixam de se desenvolver após a infância; pelo contrário, este processo que acompanha o ser humano durante toda a sua jornada. Logo, brincar também é benéfico quando a vida se torna algo sério: em adultos, pode trazer benefícios inclusive na vida profissional, enquanto em idosos, auxilia na manutenção de funções essenciais para o bem estar.
É o que explica a médica psiquiatra e professora da Faculdade São Leopoldo Mandic, Leticia Amici. De acordo com a especialista, a prática de atividades lúdicas na fase adulta estimula a liberação de substâncias importantes para o funcionamento cerebral, como a dopamina, associada ao prazer, aprendizado e motivação.
Exemplo deste benefício para a qualidade de vida veio de um estudo* empresa de brinquedos Mattel, com apoio dos institutos de dados e pesquisa MADO e Dynata. A partir de entrevistas com pessoas de todas as idades de sete países – incluindo o Brasil –, a pesquisa mostrou que quase a totalidade (94%) considera que brincar é um “superpoder humano”, essencial, transformador e duradouro, independentemente da idade. Para a grande maioria, essas atividades ajudam a reduzir a solidão (87%), e inclusive 70% disseram já ter tido suas ideias mais inovadoras durante momentos de diversão. Porém, cerca de quatro em cada dez entrevistados dizem não brincar o suficiente, seja por falta de tempo (51%), companhia (38%), ou segurança (34%).
“Atividades lúdicas, como aquelas em que é necessário resolver problemas ou improvisar, incentivam a flexibilidade cognitiva, estimulando a ativação e integração de inúmeros circuitos neuronais, o que é essencial no processo criativo”, comenta Letícia.
Nesta entrevista, a especialista comenta a importância da brincadeira em diversas funções da vida, como prevenção de distúrbios como burnout ou doenças como Alzheimer. Confira abaixo.
Por que o brincar
é importante não apenas na infância, mas também na vida adulta e na terceira
idade?
Hoje, com as teorias mais modernas,
sabemos que o desenvolvimento humano não se restringe à infância e
adolescência, e continua ocorrendo, mesmo nos idosos, ainda que de maneiras
diferentes, de acordo com cada fase da vida. Brincar, então, assume um papel
fundamental ao longo de todo esse processo - na infância, contribui para o
desenvolvimento cognitivo, sensório-motor e socioemocional; na adolescência,
contribui para autonomia, inserção social e identidade. Nos adultos, o jogo
estimula o bem-estar, o uso da criatividade, aumenta o repertório para resolução
de problemas, e continua sendo uma atividade que reforça vínculos e interação
social. Já nos idosos, o jogo pode ajudar a manter ou reabilitar funções
executivas, como a memória, o planejamento e a atenção, além contribuir na
socialização e com manutenção da funcionalidade, mesmo com as mudanças
inerentes dessa fase da vida.
O que a ciência já
comprovou sobre os impactos das atividades lúdicas no cérebro e na saúde
mental?
Sabemos que as atividades lúdicas
contribuem para a estruturação das circuitarias cerebrais, estimulando conexões
neuronais e ativação de redes cerebrais importantes. Durante jogos e
brincadeiras, por exemplo, sabemos que circuitos associados às funções executivas
são estimulados, sejam através do controle inibitório, planejamento ou direcionamento
da atenção, além de estimular regiões associados à linguagem e criatividade.
Além desse estímulo direto nesses circuitos, o brincar também estimula a
liberação de substâncias importantes para o funcionamento cerebral, como, por
exemplo, a dopamina, associada ao prazer, aprendizado e motivação,
contribuindo, consecutivamente, para o bem-estar.
Como atividades
lúdicas podem ajudar a reduzir estresse, ansiedade e sintomas de burnout em
adultos?
Atividades prazerosas, como as
atividades lúdicas, contribuem tanto para liberação de neurotransmissores, que
são substâncias essenciais no manejo da ansiedade e do burnout, por exemplo,
assim como também atuam na redução de substâncias ligadas ao estresse, como os
níveis de cortisol.
Em que medida o brincar
estimula a criatividade e a memória em adultos?
Atividades lúdicas, como aquelas em que é necessário resolver problemas ou improvisar, incentivam a flexibilidade cognitiva, estimulando a ativação e integração de inúmeros circuitos neuronais, o que é essencial no processo criativo.
Já quanto à memória, hoje sabemos que
as brincadeiras contribuem para a mobilização da atenção e para o fator
motivacional, que são pilares fundamentais no processamento da memória. Além
disso, também ajudam na consolidação da aprendizagem, já que diante as
atividades lúdicas, utilizamos vários tipos de estímulos, facilitando a fixação
de conteúdo, por exemplo.
Jogos e brincadeiras
podem ter efeito preventivo em doenças neurodegenerativas, como Alzheimer?
Hoje sabemos que atividades lúdicas
atuam com uma peça importante na prevenção de transtornos neurodegenerativos,
como os processos demenciais. Ao estimular a atividade dos circuitos cerebrais,
os jogos contribuem para a manutenção adequada do que conhecemos como “reserva cognitiva”,
um dos fatores de proteção contra os processos degenerativos. Estratégias de
treinamento cognitivo baseados em jogos mostram-se como ferramentas importantes
na melhora da memória e cognição. Além disso, um outro fator de proteção
neuronal associado aos jogos está na contribuição com a melhora do humor e
bem-estar, através da liberação de neurotransmissores como a dopamina e
serotonina. As brincadeiras também reduzem os estresses e fatores inflamatórios
cerebrais, também atuando como um outro fator de proteção cerebral. Outro
aspecto fundamental são os benefícios emocionais e sociais dos jogos, que atuam
ativamente na prevenção da neurodegeneração.
Quanto tempo por
semana um adulto deveria se permitir momentos de lazer lúdico?
Não há um consenso sobre qual o tempo
adequado para as atividades lúdicas na vida adulta, de maneira geral, alguns
estudos preconizam cerca de duas horas ao dia para atividades de lazer. O tempo
gasto, a necessidade, e até mesmo o tipo de atividade escolhida podem variar
para cada pessoa, de acordo com suas necessidades e preferências, mas não há
dúvidas de que esses momentos são fundamentais para o bem-estar e melhores
níveis de qualidade de vida.
Existem tipos de
jogos/brincadeiras que a senhora recomenda para cada fase da vida (criança,
adulto, idoso)?
Para crianças, jogos que estimulem o desenvolvimento sensório-motor, como massinha de modelar, blocos de empilhar, quebra-cabeça; brincadeiras de faz-de-conta com bonecos, super-heróis e imitação de atividades; jogos com conteúdos pedagógicos; jogos com bolas, pular corda, que contribuem para coordenação, além de pega-pega, esconde-esconde, que também contribuem na interação com outras crianças.
Jogos de tabuleiros e cartas, jogos de
RPG (baseados na interpretação de papéis), jogos de lógicas, passam a ser mais
interessantes tanto para adolescentes, quanto para os adultos, que também
costumam ter momentos prazerosas com jogos de enigma, improviso ou jogos tipo
“quiz”, sem contar as brincadeiras e atividades físicas que podem ser
realizadas com familiares e amigos.
Já para os idosos, jogos cognitivos, como quebra-cabeças, palavras cruzadas, sudoku, jogos de tabuleiro e cartas, peças para montar ou mesmo jogos sobre história e curiosidade podem ser bastante úteis.
*The Shape of Play
2025", pesquisa conduzida entre março e abril de 2024, com apoio da
MADO e da Dynata, envolvendo 33.449 participantes de todas as idades de sete países:
Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Finlândia, Brasil e África do Sul.
slmandic.edu.br; facebook.com/saoleopoldomandic; instagram.com/saoleopoldomandic/.
Mattel
Para mais informações acesse o site.
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