Durante o 11° Encontro dos Povos do Cerrado, diretora de Ciência do IPAM defendeu o papel estratégico do bioma para a distribuição hídrica e sua inserção em debates da COP 30.
A preservação do Cerrado vai além do controle das emissões de
gases de efeito estufa causadas pelo desmatamento e exige atenção para o papel
do bioma na produção de água, alimentos e outros serviços ecossistêmicos,
alerta Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa
Ambiental da Amazônia). A cientista participou neste sábado, 13, da
apresentação “Sem Cerrado, não há clima: o que levamos à COP 30”,
realizada durante o 11° Encontro dos Povos do Cerrado, em Brasília.
“O desmatamento do Cerrado vai além do carbono. Precisamos situar
o bioma no contexto nacional e compreender que a população brasileira depende
da água e da comida que são produzidas nele. Por isso, é fundamental discutir o
Cerrado como uma entidade ecossistêmica cuja preservação tem valor imenso para
o Brasil, mesmo que as emissões da Amazônia sejam maiores”, destacou Ane.
A menos de três meses da COP 30, que promete trazer Belém e
Amazônia para o centro do debate climático mundial, o Cerrado ainda sofre com o
avanço do desmatamento. Apesar
de sua relevância para o Brasil e para a biodiversidade global, o bioma
permanece sub-representado nas políticas nacionais e na agenda climática
internacional.
“Espero que a gente consiga mostrar na COP que a sociedade quer
algo diferente. Acho que essa é a mensagem mais poderosa de Belém. Temos que
nos preparar como pessoas do Cerrado, como pessoas da savana, para que isso
aconteça. Precisamos trabalhar bem a mensagem de que o bioma é fundamental para
o Brasil”, completou Alencar.
Desde
1985, segundo dados da Rede MapBiomas, da qual o IPAM faz parte, o Cerrado
perdeu 40 milhões de hectares de vegetação nativa, tornando-se um dos
principais vetores das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. As áreas rurais privadas concentraram 72% de todo o
desmatamento do bioma no período, que já acumula mais de 14 milhões de hectares
de pastagens degradadas, um indicativo do uso pouco eficiente da terra.
No
mesmo período, quase metade do bioma foi queimado ao menos uma vez, superando a
marca de 89 milhões de hectares atingidos pelo fogo.
Apenas em 2024, mais de 9,7 milhões de hectares foram queimados, uma área
superior à do Estado de Santa Catarina. Já em 2025, mesmo no início do período
mais intenso de incêndios, o fogo já havia alcançado 1,2 milhão de hectares. Os
dados do MapBiomas também indicam que o uso recorrente do fogo é responsável
por 58% da área queimada em propriedades privadas.
Povos
e comunidades
Outro ponto de atenção para a COP, alertaram os participantes da
mesa, é garantir que os povos e comunidades sejam ouvidos e incluídos nas
tomadas de decisão que afetam diretamente seus territórios. Para Samuel
Caetano, coordenador técnico do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de
Minas e integrante da Rede Cerrados, o respeito aos direitos das comunidades é
o primeiro passo para qualquer decisão ambiental.
“Como promover a mitigação e a adaptação climática sem demarcar territórios? Como falar de justiça climática sem falar de justiça territorial? O que precisamos levar desta COP, e que pode ser o nosso grande legado, é a conexão dos povos da savana. Esse será o nosso saldo positivo. Precisamos estar unidos para não sermos abandonados nas mesas de discussão”, destacou.
Com a aceleração do desmatamento no Cerrado, territórios indígenas
e quilombolas têm sido cada vez mais afetados pela grilagem e pela invasão de
terras, além de conflitos relacionados ao acesso à água e ao garimpo. Em 2024,
áreas protegidas do bioma perderam 26,97 mil hectares de vegetação nativa
devido ao desmatamento, segundo dados do Relatório Anual do Desmatamento.
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