Como vícios em notificações, açúcar, pornografia e compras online estão reprogramando o cérebro moderno
Vivemos
em uma era onde a escassez não é de comida, mas de silêncio, foco e prazer
genuíno. Se antes a dopamina — neurotransmissor associado à motivação e
recompensa — era ativada por conquistas reais, hoje ela é sequestrada por
notificações no celular, curtidas em redes sociais, compras online por impulso,
pornografia acessível em um clique e até pelo açúcar escondido em alimentos do
dia a dia.
A
chamada “nova fome do século” não está no estômago, mas no cérebro: uma busca
incessante por estímulos rápidos que nunca saciam de fato.
O
ciclo invisível da dopamina
O
cérebro humano não foi desenhado para lidar com estímulos constantes. Cada
notificação, cada gole de refrigerante ou cada episódio de série em sequência
libera picos de dopamina. Porém, quanto mais frequente esse disparo, menor o
impacto da recompensa. É como se o cérebro entrasse em um modo tolerância,
exigindo doses cada vez maiores para sentir o mesmo prazer.
Essa
lógica é a mesma das dependências químicas, mas aplicada ao cotidiano digital e
alimentar. O resultado? fadiga mental, queda de motivação,
ansiedade, dificuldade de concentração e até sintomas depressivos.
A
comida como dopamina líquida
O
médico Dr. Ronan Araujo explica: “Estudos apontam que ultraprocessados ricos em
açúcar, gordura e aditivos químicos funcionam como atalhos neurológicos. Eles
ativam o sistema de recompensa de forma tão intensa quanto substâncias
psicoativas. Por isso, não é coincidência que, após um dia estressante, muitas
pessoas recorram a doces, fast-food ou bebidas alcoólicas como válvula de
escape.”
Mas o
alívio é temporário. Logo vem a queda de energia, a culpa e a necessidade de
repetir o ciclo.
O
vício invisível das telas
Além
da alimentação, a tecnologia amplificou a fome de dopamina. Scroll infinito,
jogos online, pornografia em excesso, vídeos curtos e compras instantâneas são
projetados para prender a atenção e criar recompensas imediatas, dificultando
que o cérebro aprecie estímulos mais lentos e profundos, como uma leitura, uma
conversa significativa ou até mesmo um simples momento de descanso.
Como
quebrar o ciclo
O Dr.
Ronan Araujo apresenta ferramentas poderosas para começar a quebrar esse ciclo,
não se trata de abolir o prazer, mas de reeducar o cérebro. Algumas estratégias
incluem:
- Jejum de dopamina: reduzir
voluntariamente estímulos fáceis (celular, redes sociais, doces) por
algumas horas ou dias, para “resetar” a sensibilidade cerebral.
- Prazeres reais: trocar recompensas
instantâneas por experiências de longo prazo, como exercícios físicos,
meditação, hobbies criativos e contato social.
- Alimentação reguladora: priorizar
comida de verdade, rica em proteínas, fibras e gorduras boas, que
sustentam energia e estabilizam o humor.
- Sono profundo: é durante o
descanso que o cérebro recalibra receptores de dopamina.
Mais
do que saúde, é liberdade
O
médico Ronan Araujo conclui: “A fome de dopamina não é apenas uma questão
biológica, mas também cultural e social. Num mundo que cobra produtividade,
beleza e felicidade constantes, somos empurrados para buscar escapes fáceis. O
verdadeiro desafio está em recuperar a capacidade de sentir prazer em coisas
simples, profundas e humanas.”
Talvez
a pergunta que deveríamos nos fazer não seja “o que quero comer ou comprar
agora?”, mas sim: “o que vai me dar prazer daqui a um mês, um ano, uma década?”


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