"Série Adolescência trouxe o debate público sobre problemas cada vez mais frequentes no atendimento a famílias", diz Dra Letícia Correa
Diante da repercussão da série Adolescência, a pediatra Dra.
Letícia Correa alerta para a importância do debate público, além dos
atendimentos em consultório: "Estamos diante de uma epidemia de problemas
de saúde física e mental entre crianças e adolescentes; é consenso que entre as
causas prevalece o excesso e o descontrole de atividades digitais". Ela
propõe higiene de telas pois relaciona o tempo em frente a smartphones, tablets
e computadores a distúrbios que podem afetar a visão, a audição, o sono, a
fala, problemas esqueléticos posturais, dificuldades de aprendizagem,
concentração e socialização, e também ao surgimento de doenças crônicas como
obesidade, diabetes e hipertensão. "Além de limitar o tempo de exposição a
telas, a prevenção inclui observar a rotina, adotar hábitos saudáveis,
alimentação equilibrada, sem distrações eletrônicas durante as refeições,
atividade física diária, prática de esportes e brincadeiras ao ar livre."
"Telas não são babás, computador não
é um lugar seguro, seu uso tem que ser monitorado. Nas redes há perversidades,
crianças podem se traumatizar pela simples exposição a um conteúdo impróprio do
youtube", diz a médica.
Como referência para os pais, Dra Letícia cita o manual da Sociedade Brasileira
de Pediatria, com orientações globais sobre o desenvolvimento infantil: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/manual_orientacao_sbp_cen_.pdf
"Quando começou a febre das telas, o comportamento das crianças mudou. Só
de ver como entram no consultório, identifico as super expostas pois não
conseguem se concentrar, não brincam, não nos encaram quando falamos com elas;
é uma síndrome que pode causar dano na adolescência pois afeta a formação dos
circuitos elétricos do cérebro. Se a criança passa horas diante de um
dispositivo, deixa de exercitar habilidades fundamentais como atenção, empatia
e comunicação”.
"Ansiedade, depressão, dificuldade de autocontrole e nos relacionamento
sociais, sem conseguir lidar com a realidade e se sentir feliz no mundo,
frustração pessoal sem motivo claro, são sintomas também associados ao uso de
telas", diz a médica.
Quando sinais de hiperatividade, isolamento ou crises de pânico surgem,
Dra. Letícia recomenda avaliação imediata. “O pediatra é a linha de frente na
detecção de alterações do desenvolvimento neuropsicológico; quanto mais cedo se
inicia o tratamento, melhor o resultado. Em casos graves pode ser necessário
terapia e medicamentos". Ela observa que, ao retirar o estímulo digital,
"crianças retomam rapidamente o desenvolvimento, principalmente na primeira
infância, período em que intervenções pediátricas são bastante eficazes".
"Até os 12 anos, a responsabilidade de guiar o uso da tecnologia é dos
pais. Respeitar a privacidade do adolescente não significa ausência de controle
pois é fundamental saber o que estão vendo e com quem estão se relacionando no
mundo virtual. Há movimentos tóxicos que ganham força online, grupos que evocam
masculinidade extrema e violência contra mulheres, reforçando padrões de
comportamento extremista. A série Adolescência foi feita na Inglaterra, onde se
constatou aumento de violência entre meninos jovens, associados a estímulos nas
redes sociais para se imporem como ultramachos".
Dra. Letícia Correa relembra a importância dos primeiros mil dias de vida:
"Estudos que se iniciaram em 2007 comprovaram os impactos dos hábitos
desde a vida intrauterina até os 2 anos como determinantes para a saúde física
e mental de adolescentes e adultos. O que se come, o que se vê e ouve marca
toda a vida."
"Hoje se sabe que, além de
amamentar, é importante para o desenvolvimento neuropsicológico dar colo, não
deixar o bebê chorando sozinho. O mesmo deve ser adotado com crianças e
adolescentes: conviver e estar presente são importantes para a formação de adolescentes
e adultos mais seguros".
Dra. Letícia Correa - formada em Medicina pela Universidade Federal do Paraná, fez residência médica no Hospital das Clínicas, em São Paulo, e especialização em Neonatologia na USP, onde foi professora assistente. Há 20 anos na capital paulista, trabalhou em quase todas as maternidades da cidade. Na última década, passou a atuar em ambulatórios, onde se aprofundou em cuidados com recém-nascidos em sala de parto, berçário e UTI neonatal. É especialista em prematuros e nascidos de alto risco, com experiência em aleitamento materno e banco de leite. Atende Neonatologia (acompanha a gestação, o parto, o nascido, UTI, berçário), Pediatria (até 18 anos) e Puericultura (acolhimento de mães e famílias). Tem como objetivo ser porta-voz do parto seguro, difundindo critérios que são garantias comprovadas de saúde física e mental para mães e bebês.

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