Tomar sol de óculos sem filtro UV pode acabar com
as férias de final de ano. Entenda
De malas prontas para a praia 4 em cada 10 brasileiros carregam os óculos de sol que usam há anos ou compram um novo na primeira banca de camelô, sem dar a mínima importância para a procedência. Segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, presidente do Instituto Penido Burnier, isso acontece porque esta parcela da população não acredita que a radiação do sol pode prejudicar a saúde ocular.
Há casos de extrema falta de proteção. O pesquisador cultural e arquivista J. B. foi operado aos 54 anos por Queiroz Neto. Me recebeu rodeado de livros, revistas e recortes de jornais. “Nunca protegi os olhos do sol”, conta. Só passou a fazer isso depois da cirurgia de catarata. Na infância e adolescência morava em uma pequena cidade do estado de São Paulo e nunca foi orientado sobre os riscos da radiação UV. “Por isso, optei pela correção visual, invés do conforto dos óculos escuros”, comenta. “Mesmo usando óculos de grau, passei a vida toda com grande dificuldade de enxergar. Tinha alto grau de astigmatismo, sempre me sentava próximo à lousa para acompanhar as aulas e ainda assim tive repetência. Depois dos 50 anos ficou impossível. Minha visão piorou muito e um amigo me indicou Dr. Leôncio”, relata. “Confesso que fiquei com medo de operar quando recebi o diagnóstico, mas a cirurgia foi excelente. No dia seguinte fiquei surpreso como estava enxergando. Não podia imaginar que ficaria com a visão tão boa. Cometi um erro que me deu mais anos de vida com qualidade de visão”, conclui sorrindo.
Queiroz Neto afirma que
ninguém escapa da cirurgia de catarata, mas tomando cuidado você pode adiar a
operação. De acordo com os fabricantes a duração do filtro UV, uma película
aplicada nas lentes, dura em média dois anos, dependendo do tempo de exposição
ao sol. Depois disso vence e deixa de proteger seus olhos. O oftalmologista
adverte que usar óculos vencidos ou de procedência duvidosa causa mais danos à
saúde ocular do que a falta deles. Isso porque, no escuro as pupilas dilatam e
a quantidade de radiação UV que entra nos olhos é maior. Na hora da compra a
forma mais segura de garantir a qualidade das lentes é verificar se têm a
certificação ABNT NBR ISO 15111. Os
testes feitos nas banquinhas de camelô não são precisos. O especialista conta que participou de um
painel do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade
Industrial) em que a análise de seis diferentes marcas de óculos apontou a
conformidade de proteção das marcas avaliadas, enquanto as lentes sem
procedência não apresentaram o bloqueio de 100% da radiação UV.
Efeitos cumulativos:
Visão embaçada
A OMS (Organização Mundial da
Saúde) preconiza o uso de óculos com filtro UV sempre o índice UV chega a 6
para evitar a catarata, degeneração macular e o pterígio.
Queiroz Neto afirma que segundo a FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) a catarata atinge 25% dos brasileiros com 50 anos. Não é uma doença só de velhos. Acontece também na meia-idade. Opacifica o cristalino e no Brasil responde por 49% dos casos de cegueira recuperável. O único tratamento é a cirurgia em que o cristalino opaco é substituído pelo implante de uma lente. O tipo de lente intraocular implantada, depende do perfil do paciente e da biometria óptica, exame que mede com exatidão o grau da lente a ser implantado. Por isso, ressalta, toda cirurgia de catarata é personalizada de acordo com as características e expectativas de cada paciente.
A doença é multifatorial, salienta. Além da exposição ao sol sem proteção pode ser causada pelo envelhecimento, trauma no olho, uso contínuo de corticoide, estatina, hipertensão arterial, diabetes, hábito de fumar, tratamentos com radiação, medicamentos fotossensibilizantes, excesso de sal na alimentação e genética.
A visão embaçada é um dos
sinais, mas pasme, pode passar despercebida. Se você têm trocado com frequência
os óculos, enxerga as cores desbotadas, tem visão dupla em um dos olhos e perda
da visão de profundidade deve passar por consulta com um oftalmologista que vai
saber lhe indicar o melhor momento e lente para a cirurgia.
Perda da visão de detalhes
O efeito cumulativo da
radiação UV nos olhos também pode causar a degeneração macular relacionada à
idade, ou DMRI, maior causa de perda
visão de detalhes. Queiroz
Neto afirma que enxergar linhas tortuosas é o primeiro sinal da doença. O
diabetes e o colesterol alto não diagnosticados podem dificultar a circulação
nos finos vasos da retina e resultar na DMRI Por isso o oftalmologista
recomenda hemogramas periódicos a partir dos 60 anos. Quem tem casos na família
e olhos claros corre mais risco. “Se a doença for diagnosticada no início, a
aplicação de laser e injeções antiangiogênicas no olho podem impedir a perda da
visão”, salienta.
Pterígio
A exposição dos olhos ao sol também predispõe à formação do pterígio, uma reação defesa contra o ressecamento provocado pela radiação UV em que a conjuntiva forma uma espécie membrana fibrovascular que cresce sobre a conjuntiva, do canto interno do olho em direção à córnea. “O tratamento é feito com colírios e nos casos avançados exige extração cirúrgica para impedir o recobrimento de parte da córnea”, elucida.
Alterações imediatas:
Pele das pálpebras
Queiroz Neto ressalta que
algumas alterações podem ser sentidas durante os dias que você vai ficar na
praia. Este é o caso das queimaduras, escurecimento e degeneração da pele das
pálpebras que eleva o risco de contrair câncer nas pálpebras, o mais frequente
no Brasil segundo relatório do INCA (Instituto Nacional do Câncer). Em estágio
inicial o tratamento é medicamentoso e inclui proteção da pele com filtro
solar.
Inflamação na córnea
Outra alteração imediata é a
fotoceratite, uma inflamação da córnea por queimadura de primeiro grau que
geralmente ocorre após 6 horas ininterruptas de exposição dos olhos ao sol sem
proteção. Os sintomas são olhos vermelhos e ressecados. O problema é que a fotoceratite não é levada
a sério por muitas pessoas porque depois de 48 horas de afastamento do sol os
sintomas desaparecem. Queiroz Neto alerta que a
falta de sintomas não significa que o problema foi resolvido. A
inflamação provoca o desprendimento de células do epitélio, camada externa da
lente externa do olho. a córnea, e por isso, leva ao seu envelhecimento
precoce.
Novidade
O oftalmologista afirma que
os óculos de sol com filtro UV criam uma barreira física que evita o câncer de
pele nas pálpebras. A novidade para reforçar a proteção tanto da pele como dos
olhos são as cápsulas de sol que contêm a formação de radicais livres
responsáveis pela degeneração das pele e dos olhos durante a exposição ao sol.
Como escolher os óculos
Queiroz Neto afirma que para
pessoas que precisam usar óculos de grau a opção solar mais prática e eficaz
são as lentes fotossensíveis com filtro UV transparentes. A mesmo opção é
indicada para proteger os olhos das crianças, inclusive das que não têm vícios
de refração. Isso porque, embora o sistema ocular esteja completamente
desenvolvido aos 3 anos de idade, a visão é moldada até os 10 anos. Significa
que neste período o estímulo visual de cores, formas e brilho contribuem para
perfeita moldagem da visão que está associada à capacidade de aprender. Por
isso, os óculos escuros podem comprometer o processo de desenvolvimento da
plasticidade visual nesta fase da vida. Só a partir dos 10 anos os óculos escuros
devem ser usados.
O oftalmologista ressalta
bons óculos escuros ajustam a quantidade de luz que chega aos olhos sem alterar
a visibilidade. Para o dia a dia as
melhores cores são: âmbar, marrom e cinza que permitem boa visão de contraste e
profundidade, além de reduzirem reflexos.
Para dirigir em dias nublados lentes cinza são as ideais por permitirem
melhor visão de contraste. Para
surfistas e outros esportes aquáticos as lentes rosa e púrpura melhoram a visão
de contraste em fundos verdes ou azuis. No lusco-fusco do entardecer, lentes
amarelas reduzem o ofuscamento de motoristas provocados pela luz dos faróis,
conclui.
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