Apesar do aumento de diagnósticos da
doença em pacientes jovens, novos caminhos podem contornar os desafios de
mulheres que desejam ter filhos no futuro
Para muitas mulheres, o sonho da maternidade faz parte de um
projeto de vida, tornando cada história única. A decisão de ter filhos traz à
tona uma etapa importante de planejamento, adaptada à realidade e aos desafios
dos futuros pais.
Um deles, muitas vezes pouco discutido, é a descoberta do câncer
de mama durante a idade fértil, que costuma causar apreensão quanto a
necessidade de adaptar os planos iniciais e recalcular a rota. Segundo o
Instituto Nacional de Câncer (Inca) é estimado que só em 2023 serão
diagnosticados 73.610 novos casos da doença no Brasil, que é o tipo mais
incidente no público feminino, com exceção do câncer de pele não melanoma.
Um estudo realizado pelo Instituto do Câncer de São Paulo notou um
aumento significativo de diagnósticos de câncer de mama em mulheres com menos
de 40 anos. Durante a pesquisa, aproximadamente 500 mulheres jovens foram
atendidas e 68% delas já estavam com o tumor em estágio avançado.
Outra comparação realizada foi sobre o registro da doença em
outros países: enquanto nos Estados Unidos 5% das pacientes possuem menos de 40
anos, no Brasil são 15%. “Muitas pacientes jovens nos procuram com o sonho de
engravidar. O ideal é que esse planejamento aconteça logo no início do
tratamento, pois a quimioterapia, radioterapia e até mesmo cirurgia podem
acabar afetando a fertilidade por promoverem lesões nos ovários. Contudo, com o
avanço das novas tecnologias, temos alternativas que contornam essa trajetória,
como é o caso da preservação de óvulos através do congelamento", explica
Edson Borges Jr, Diretor Científico do Instituto Sapientiae – Centro de Estudos
e Pesquisa em Reprodução Assistida - e Diretor Médico no FERTGROUP.
E, indo além do câncer de mama, o especialista ressalta que a
orientação para outros tipos de tumores é a mesma e sempre deve ser discutida
com uma equipe multidisciplinar. "Independente do tipo de câncer e do
tratamento realizado, devemos sempre entender a história de vida daquela
paciente e considerar seus sonhos futuros".
Diante do cenário atual, em que a mulher deixa para engravidar
cada vez mais tarde, coincidentemente pode ocorrer de, neste mesmo momento, ela
ser surpreendida com um diagnóstico de câncer, o que pode colocar em risco o
sonho da gravidez. É o que explica a Dra. Maria Cecília Erthal, especialista em
reprodução assistida do Instituto Vida, uma das unidades do FERTGROUP, no Rio
de Janeiro.
“Por isso, o acompanhamento da fertilidade deve
começar por volta dos 25 anos, muito antes de qualquer possibilidade de diagnóstico
de câncer. Esse cuidado pode auxiliar em um congelamento antecipado dos óvulos,
que atua como uma forma de preservar desde cedo a fertilidade, caso haja alguma
intercorrência no processo”.
Um novo caminho
O objetivo da oncofertilidade é hoje muito mais amplo, deixando no
passado a não importância dos prejuízos do tratamento, que muitas vezes
impactavam no bem-estar físico, mental e social das mulheres com câncer.
Apesar do congelamento de óvulos ser a técnica mais comum, há
também a possibilidade do congelamento de embriões, do tecido ovariano e da
supressão ovariana. "Esse é um processo muito delicado e que deve ser
levado em consideração cada possibilidade e os desejos da família. Um olhar que
vai além da saúde física, cuidando também da parte emocional daquela paciente,
é a chave para que a trajetória seja a mais leve possível dentro de todos os
desafios propostos", orienta Maria Cecília Erthal.
Para a realização do processo de congelamento de óvulos, é
inicialmente feito a indução da ovulação através de medicamentos que estimulam
o desenvolvimento e amadurecimento dos óvulos. Em seguida, com a paciente
sedada, é feita a coleta dos óvulos para posteriormente ser realizada a seleção
daqueles que estão saudáveis. Quanto ao congelamento, a técnica é feita com
nitrogênio líquido, mantendo os óvulos à disposição da paciente para uma
gravidez no futuro.
“É fundamental que a paciente converse com o seu médico sobre os
tratamentos disponíveis para a preservação da fertilidade. Contudo, vale
destacar que nem toda paciente submetida ao tratamento oncológico ficará
infértil. Isso irá depender do tipo do tumor, localização no corpo, terapias
realizadas e sua intensidade”, reforça a médica.
ANS pode cobrir o tratamento de preservação da fertilidade
para pacientes oncológicas?
Apesar de ainda ser um tema bastante discutido, a Terceira Turma
do Superior Tribunal de Justiça (STJ) definiu que as operadoras de planos de
saúde possuem a obrigatoriedade de custear a criopreservação (processo de
congelamento de óvulos ou sêmen) de pacientes oncológicos até a alta do
tratamento de quimioterapia.
Segundo o órgão, é entendido que se o plano de saúde cobre o
tratamento, deve prevenir também os efeitos adversos previsíveis - como é o
caso da infertilidade. Contudo, após esse período, o tratamento de reprodução
assistida deve ser realizado de maneira individual.
"A paciente que passará pela criopreservação é protegida pelo
Código de Defesa do Consumidor. Por isso, caso o plano de saúde apresente uma
negativa, é possível recorrer à decisão para que o congelamento seja mantido
até o final da quimioterapia", finaliza Edson Borges.
FERTGROUP
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