A patologia se
caracteriza pela intolerância à glicose e todo o carboidrato é digerido pelo
organismo em glicose. Dessa maneira, é natural que haja melhora com essa
estratégia alimentar
Com o crescimento do uso de alimentos
industrializados na mesa das pessoas, doenças crônicas, que antes não afetavam
a população de um modo geral, começaram a se tornar frequentes. A diabetes é
uma delas. No caso do Brasil, a situação ganha ares de calamidade, como mostra
a Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito
Telefônico (Vigitel), divulgada em 2017 pelo Ministério da Saúde. Segundo o
levantamento, em apenas uma década, o número de pessoas diagnosticadas com
diabetes cresceu 61,8%.
A solução eficaz para o manejo de diabetes está não
apenas nos medicamentos existentes, mas, principalmente, em intervenções no
estilo de vida através de melhores hábitos alimentares. Nesse quesito, a
estratégia alimentar low carb aparece como uma das mais promissoras. Segundo o
médico endocrinologista, diretor científico de Medicina da Associação
Brasileira LowCarb (ABLC), Rodrigo Bomeny, no início do século XX, a diabetes
mellitus tipo 2, era predominantemente definida como uma doença de intolerância
aos carboidratos, sendo combatida fundamentalmente com a redução do consumo
desses macronutrientes. “Essa restrição era uma forma particularmente
bem-sucedida de tratar a diabetes tipo 2 antes da descoberta da insulina.”,
explica o diretor científico de Medicina da associação.
Segundo Bomeny, na última década diversos estudos
científicos mostraram que reduzir os carboidratos é superior a reduzir as
gorduras, tanto visando à redução do peso, quanto a uma maior eficácia no
controle do diabetes. Isto levou o centro de referência no tratamento da doença
nos Estados Unidos, a Joslin Diabetes Center, a propor que uma alimentação com
menos carboidratos seja a melhor para o tratamento dessa patologia. Essa
recomendação faz todo o sentido, segundo o médico, diretor-presidente da ABLC,
José Carlos Souto. Isto porque a diabetes mellitus se caracteriza pela
intolerância à glicose e todo o carboidrato é digerido pelo organismo em glicose.
“Dessa maneira, é natural que haja melhora com estratégia low carb.”, esclarece
Souto.
O aumento de glicose no sangue obtém como resposta
do corpo humano o incremento na produção do hormônio insulina, cujo papel é
controlar a glicose no organismo, mas não só. A insulina também é responsável
por estocar gordura. Então, quando ela aumenta, é natural que também haja
elevação da gordura no corpo humano. Não à toa, explica Souto, é muito comum
que diabetes ou pré-diabetes venha acompanhada de obesidade, sobrepeso ou
aumento da gordura visceral. Nesse sentido, ao optar por uma dieta com
restrição de carboidratos, a tendência é de que a glicose diminua, assim como a
produção da insulina, o que provoca a redução de peso.
Além disso, a dieta low carb se distingue pelo
maior consumo de proteínas e gorduras naturais, que são fontes mais ricas de
nutrição do que os carboidratos. A preferência por tais alimentos acarreta uma
maior saciedade por parte dos adeptos da estratégia alimentar, fazendo com que
eles, consequentemente, comam menos, gerando, por sua vez, manutenção ou perda
de peso.
De acordo com o diretor-presidente da ABLC, a
estratégia de dieta low carb também se mostra muito eficaz no tratamento da
síndrome metabólica, que é o principal fator e risco para muitas doenças, entre
as quais a diabetes. Caracterizada por alterações na glicose e triglicerídeos,
elevação da pressão arterial, aumento da circunferência abdominal e baixo HDL
(colesterol bom), a síndrome tem como causa a resistência à insulina e os
níveis consequentemente elevados desse hormônio. “Ao remover o principal
estímulo à elevação da insulina, a low carb produz grande melhora nesse
quadro.”, destaca Souto.
A utilização da estratégia alimentar no tratamento
de diabetes mellitus pode ser tão eficiente que, em alguns casos, leva à
suspensão do uso de medicamentos. Conforme o diretor-presidente da ABLC, um
ensaio clínico recente mostrou que 94% dos pacientes diabéticos tipo 2 que usam
insulina reduziram ou eliminaram completamente seu uso após um ano de low carb.
“É crucial, no entanto, que tais pacientes sejam acompanhados por um
profissional de saúde que tenha experiência com essa abordagem.”, alerta o
médico.
No combate à diabetes tipo 1 - doença autoimune que
surge, geralmente, na infância ou adolescência – a dieta com redução de
carboidratos e aumento de proteínas também tem apresentado resultados
positivos. Um estudo recém-publicado na revista científica Pediatrics mostrou
que pacientes (crianças e adultos) que seguiram essa estratégia alimentar durante
dois anos, em média, tomando medicamentos em doses menores do que as exigidas
em uma dieta normal, apresentaram glicose no sangue em níveis mais controlados.
Por fim, o diretor científico de Medicina da ABLC,
Bomeny, reitera os benefícios à saúde que podem ser gerados em uma estratégia
alimentar que se proponha a diminuir a quantidade de carboidratos e encoraja as
pessoas a tentarem. “Se você precisa emagrecer ou controlar o seu diabetes, já
tentou restringir as calorias, e não conseguiu, experimente essa mudança no seu
estilo de vida, com o acompanhamento de um endocrinologista e de forma
segura.”, conclui.
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