Antropólogos
falam de cultura como sendo o conjunto de costumes e práticas que uma sociedade
desenvolve com o tempo. Aqui, estamos interessados no que significa cultura no contexto
de uma organização. Nas últimas décadas, estudiosos das organizações (sejam
eles teóricos de administração de empresas, psicólogos industriais ou
executivos do lado “prático” do balcão) vêm chamando de cultura o conjunto de
normas e práticas que uma organização desenvolve, ou ainda, o conjunto de
valores e crenças que uma empresa fala como sendo seus (ou seja, se refere
tanto ao que *é* quanto ao que *deveria ser*).
Segundo
o dicionário Cambridge, um valor pode ser definido como ”Principles or standards
of ehavior; one’s judgement of what is important in life”, ou “Princípios
ou padrões de comportamento, o julgamento de alguém sobre o que é importante na
vida”, em tradução livre. Assim, valores são crenças, fundamentos e princípios
tidos como verdade por pessoas de um grupo, e que acabam por determinar a forma
com que essas pessoas agem, pensam e se sentem. Importante: empresas não têm
valores. Pessoas têm valores.
Os valores compartilhados de um grupo se
desenvolvem a partir dos valores pessoais de seus membros mais influentes, que
tendem a ser seus fundadores e líderes, e que são absorvidos pelos seus membros
mais influentes. Esses comportamentos servem de incentivo imediato à imitação.
À
medida em que o grupo cresce, os valores originais podem ser diluídos no grupo,
à medida em que, de um lado, que novas lideranças se formam, eventualmente não
alinhadas com os valores de fundadores ou líderes originais, e de outro, que o
grupo desenvolve seus próprios artefatos e incentivos. Esses novos valores
podem eventualmente se tornar dominantes no grupo, efetivamente mudando sua
estrutura e “cultura”. Os valores ganham vida própria.
Já
os incentivos são outro fator extremamente importante na construção e
desenvolvimento de culturas organizacionais. Aqui também acabam no começo
refletindo os valores iniciais da empresa (que se confundem com os valores dos
seus fundadores e líderes). Os mais fortes incentivos de comportamento em uma
empresa são promoções e demissões. É como a empresa mostra quais comportamentos
são desejados e quais comportamentos não são desejados em seus colaboradores.
Essas pessoas (promovidas e demitidas) acabam virando exemplos – tanto do que
fazer quanto do que não fazer – e assim os valores acabam se perpetuando.
Um
dos maiores fatores diluidores de cultura se dá quando pessoas que não
representam os valores da organização acabam, por algum motivo, sendo
promovidas ou mantidas em seus cargos a despeito de mostrarem, por meio de seus
comportamentos, falta de sincronia com o que é pregado como cultura na
organização. Os membros da organização percebem a discrepância e passam a ter
incentivos menores para agirem de acordo com os valores. Também servem de
incentivo as histórias e comportamentos que influenciam a forma com que todos
se comportam na organização. Claro que quando há um fundador presente no grupo,
ele acaba servindo de grande exemplo para todos os seus outros membros, que
buscam imitar seus comportamentos e crenças.
Histórias
frequentemente contadas e “causos” também acabam virando exemplos na
organização. A empresa escolhe por reproduzir certos acontecimentos, com maior
ou menor fidelidade ao que de fato aconteceu, e isso gera incentivos para que
as pessoas reproduzam os comportamentos contados. Valores escritos na parede são
um grande exemplo. Plantas de escritório (que podem ser abertas ou fechadas)
são também importantes artefatos, assim como a estrutura e decoração dos
espaços ocupados pela liderança e a existência – ou inexistência – de portas,
“secretárias-xerife” e outras barreiras, físicas ou psicológicas, de acesso à
liderança.
Também
são artefatos da cultura a forma com que as pessoas se vestem na organização
(já percebeu como empresas podem ter diferenças sutis na forma com que a
vestimenta é reforçada pelos exemplos dos líderes? Pense nas calças jeans da
Ambev; nas camisas brancas do Itaú; nos ternos azuis-marinhos da IBM).
Rituais:
um tipo importante de artefato.
São
eventos como reuniões periódicas, prêmios, cafés da manhã com o presidente e outras
coisas do tipo menos formais (até o happy hour de quinta-feira
pode ser considerado um ritual) e que acaba por reforçar certos valores e
comportamentos do grupo. Na Google, por exemplo, acontecem as TGIFs (sigla que
quer dizer thank God it’s Friday, em inglês), eventos que reúnem todos
os colaboradores que quiserem participar (física ou remotamente por meio de
salas virtuais de vídeo conferência) e em que são feitos anúncios, discutidas
prioridades, mas mais importante, funcionários podem fazer perguntas
diretamente à liderança da empresa, sem censura.
São
rituais poderosos, que reforçam a crença da liderança da Google de que a
transparência é importante para o sucesso da empresa à medida em que todos têm
o máximo de acesso possível às informações da empresa, facilitando a tomada de
decisões mais conscientes e completas, por exemplo.
Francisco
Homem de Mello - fundador da Qulture.Rocks, software de gestão de desempenho.
Especialista e estudioso em cultura organizacional. Autor do livro The 3G Way:
Dream, People, and Culture.
Nenhum comentário:
Postar um comentário