Ao tomarmos uma
decisão de mudança na vida, só uma coisa é certa: vamos ter que recomeçar
muitas vezes. Mas o foco e a determinação, juntos, nos ajudam a chegar no ponto
onde viramos o jogo, e aí aquilo que desejamos fortemente para nós toma forma.
Para a esportista de alta performance Fernanda
Surian, descobrir o transtorno alimentar e tomar a difícil decisão de buscar
ajuda foram apenas os primeiros passos de uma jornada que nunca termina: “na
verdade, é aí que o caminho de cura realmente começa. E não é um caminho
florido, parece mais um deserto com alguns oásis, com dias bons e outros, nem
tanto. A gente cai mesmo, é uma queda atrás da outra até efetivamente virar o
jogo! Então, o trabalho é diário”, explica ela.
Fernanda revela que, mesmo quando você acredita que
está indo bem, algo acaba te levando a exagerar e depois você se retrata, ou
seja, um constante recomeçar. E aí, o que aprendemos com isso? Para ela, que o
importante é o processo! “São vários os aprendizados: que não adianta se punir,
pois a culpa é o pior inimigo de qualquer mudança de estilo de vida, que é a
mudança que vai resgatando ou construindo seu amor próprio, que certamente foi
abalado pelo seu modo antigo de ver a vida e de viver, e a culpa não pode ter
vez porque ela meio que zera o cronômetro, sabe”?.
Fernanda enfatiza: “a gente aprender que precisa
ser nosso melhor amigo. Que aceitar essa montanha russa de sentimentos e ações
que acontecem nos primeiros tempos do processo é autocuidado, é a força motriz
que nos leva sempre na direção desejada. Quem sofre ou sofreu de transtorno
alimentar e teve seu momento de “basta!” quer o que? Ter mais autonomia sobre
as próprias decisões, não ser comandado por um vício, um distúrbio, uma
situação específica”, lembra ela.
Para Fernanda, é aí que mora a grande sacada:
“quando entendemos que o que desejamos nada mais é do que um resgate de nós
mesmos, conseguimos construir metas claras e mais fáceis de atingir. Porque é
no dia a dia, nas pequenas decisões, que está a chave dessa virada de jogo.
Quando você sente a primeira vez a satisfação de ter feito escolhas certas
durante um dia inteirinho, você simplesmente não quer mais voltar atrás”.
Eu vou errar muito antes de virar o jogo. E aí?
“Tem uma coisa muito incrível que aprendi nesse
processo que é a auto aceitação. A gente come pra se punir, pra substituir
desejos, pra sufocar sentimentos e mais um tanto de coisas. Então, a comida não
é exatamente o problema, as emoções é que são. Se elas não forem curadas, nada
adianta começar e recomeçar dietas. É preciso se olhar. Acreditar que somos a
melhor pessoa da nossa vida, exercitar o autoamor”, coloca a atleta.
Fernanda conta que é com o tempo que o
relacionamento com a comida e com a própria mudam efetivamente: “começamos a
entender quais são nossas reais prioridades, fazer um desenho de quem éramos e
quem desejamos ser. Nesse caminho, ter pessoas com quem possamos nos abrir,
conversar e em quem possamos nos espelhar é fundamental, e leva um tempo até
isso acontecer. Até termos coragem, paciência, liberdade com nossos próprios
sentimentos e relacionamentos”.
“Eu lembro que a cada dia eu pensava - eu tenho
mais uma chance de retomar, de refazer, fazer novas escolhas. Faz parte, uma
hora vou errar menos, não com o mundo, mas comigo mesma, e isso não me deixava
abater completamente, ou ao menos não por muito tempo”. Fernanda enfatiza que
entender que não somos perfeitos, que vamos cair e levantar, que criar novos
comportamentos leva tempo, tudo isso faz parte e precisa ser exercitado.
O tempo pode ser diferente para cada um. “Eu queria
um processo real, sem medicamentos, sem recaídas lá na frente, uma mudança
efetiva, e eu sabia que, para isso acontecer, levaria mais tempo. Então, me
perdoei nas quedas, não me deixei abater pelas pequenas derrotas, e passei a me
importar menos com o que as pessoas achavam ou com o que eu achava de mim
mesma. Comecei a ser mais tolerante comigo e com a vida: as coisas nem sempre
são como eu quero”, conta ela, que finaliza: “hoje, você pode olhar para o
espelho e pensar que não está no seu melhor momento, mas a paciência, o
autoamor, estar no caminho, no processo, ter resiliência, não desistir. É isso
que realmente importa”.
Fernanda
Surian - Professora de inglês desde 2008, Fernanda já
coordenou professores, deu aula fora do Brasil e agora oferece um curso próprio
com foco em inglês instrumental. Formada em nutrição, Fernanda foi se
especializar no inglês cursando tradução e legendagem. É certificada por
Cambridge e pelo CELTA. Em 2014, Fernanda se apaixonou pelo mundo do Crossfit e
começou uma carreira de atleta de alta performance. Desde 2016, Fernanda uniu
os dois mundos e hoje compartilha em seu blog informações preciosas sobre
técnica, treino e autoconhecimento e oferece cursos com foco nesse universo do
esporte, para ajudar coaches e alunos a melhorarem seu desempenho.

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