A cirurgia
metabólica, uma importante ferramenta no tratamento do diabetes tipo 2, vem
ganhando espaço nos últimos anos, especialmente quando a pessoa tem obesidade e
dificuldade para controlar o índice glicêmico com medicamento. Mas, apesar dos
resultados expressivos, ainda existem muitas dúvidas sobre o procedimento.
Afinal, ela é igual à cirurgia bariátrica? Pode curar o diabetes? O paciente
deixa de tomar remédios? E quem tem diabetes tipo 1 pode fazer?
Preocupada com
informações às vezes exageradas sobre o procedimento, a Sociedade Brasileira de
Diabetes quer esclarecer a população sobre a cirurgia, indicando os seus reais
efeitos.
Veja, abaixo,
mitos e verdades sobre a cirurgia metabólica:
A cirurgia
metabólica é invasiva?
Verdade. A cirurgia metabólica é um procedimento cirúrgico
realizado com o objetivo de melhorar o controle do metabolismo, especialmente
do diabetes tipo 2. Ela utiliza técnicas semelhantes às da cirurgia bariátrica,
como o bypass gástrico e a gastrectomia vertical (sleeve), mas sua principal
indicação é o tratamento de doenças metabólicas e não apenas a perda de peso.
Os benefícios
ocorrem porque a cirurgia provoca alterações hormonais e intestinais que
melhoram a ação da insulina e o controle da glicose, muitas vezes antes mesmo
de uma perda significativa de peso.
Cirurgia
metabólica e bariátrica são a mesma coisa?
Mito. Embora utilizem técnicas cirúrgicas semelhantes,
os objetivos são diferentes. Enquanto na cirurgia bariátrica a principal
finalidade é o tratamento da obesidade, a cirurgia metabólica é indicada para
tratar o diabetes tipo 2 e outras alterações metabólicas, podendo, inclusive,
ser realizada em pessoas com índices de massa corporal (IMC) menores do que os
tradicionalmente indicados para a bariátrica.
Na prática, muitos
especialistas utilizam o termo “cirurgia bariátrica e metabólica”, já que os
benefícios costumam abranger tanto a perda de peso quanto a melhora das doenças
associadas.
A cirurgia
metabólica cura o diabetes?
Mito. O termo mais correto é “remissão” e não cura. Após
a cirurgia, muitos conseguem manter níveis normais de glicemia sem necessidade
de medicamentos por anos. Entretanto, o diabetes tipo 2 pode voltar,
especialmente se houver recuperação de peso ou progressão natural da doença.
Estudos mostram
que a cirurgia metabólica é mais eficaz do que o tratamento exclusivamente
clínico para promover remissão do diabetes e melhorar o controle glicêmico a
longo prazo. Em alguns casos, a melhora ocorre poucos dias após o procedimento,
antes mesmo do emagrecimento significativo.
A cirurgia
metabólica é uma técnica nova?
Mito. Embora o termo “cirurgia metabólica” tenha se
tornado mais conhecido nos últimos anos, a relação entre cirurgias para
obesidade e melhora do diabetes é observada desde os anos 1950 e 1960.
Os médicos
perceberam que muitas pessoas submetidas a procedimentos bariátricos apresentavam
melhora dos níveis de glicose, muitas vezes antes mesmo de perder peso
significativamente. A partir dos anos 2000, estudos científicos passaram a
investigar esse fenômeno de forma mais aprofundada, demonstrando que alterações
hormonais e intestinais provocadas pela cirurgia têm papel importante no
controle do diabetes tipo 2.
O reconhecimento
formal da cirurgia metabólica como tratamento para diabetes ocorreu
gradualmente, impulsionado por pesquisas internacionais e pela publicação de
diretrizes de entidades médicas. Hoje, ela é considerada uma opção terapêutica
validada para pacientes selecionados.
A cirurgia
metabólica é segura?
Verdade. Quando realizada por equipes experientes e em
centros especializados, a cirurgia metabólica é considerada um procedimento
extremamente seguro.
Os avanços nas
técnicas cirúrgicas, especialmente com o uso da videolaparoscopia, reduziram
significativamente os riscos e aceleraram a recuperação dos pacientes.
Atualmente, as taxas de complicações graves e mortalidade são baixas e
comparáveis às de outras cirurgias amplamente realizadas, como a retirada da
vesícula biliar.
Isso não significa
que o procedimento seja isento de riscos. Como qualquer cirurgia, podem ocorrer
complicações como sangramentos, infecções, tromboses, vazamentos nas suturas e
deficiências nutricionais a longo prazo. Por isso, uma avaliação criteriosa
antes da operação e o acompanhamento multidisciplinar após a cirurgia são
fundamentais.
De acordo com
sociedades médicas internacionais, os benefícios da cirurgia metabólica para
pacientes adequadamente selecionados geralmente superam os riscos,
especialmente quando o diabetes está mal controlado e aumenta a probabilidade
de complicações cardiovasculares, renais e neurológicas.
Quem faz a cirurgia pode parar de tomar remédios?
Verdade, mas
apenas em parte. Muitas pessoas
conseguem reduzir ou até suspender medicamentos para diabetes após a cirurgia.
Entretanto, isso não acontece com todos.
A possibilidade de
interromper o uso de remédios depende de diversos fatores, como tempo de
diagnóstico do diabetes, reserva de produção de insulina pelo pâncreas, idade e
controle da doença antes da cirurgia.
A decisão sobre
reduzir ou suspender medicamentos deve ser tomada exclusivamente pelo
endocrinologista responsável pelo acompanhamento do paciente.
Depois da
cirurgia não é mais necessário acompanhamento médico?
Mito. O acompanhamento continua sendo fundamental. A
cirurgia metabólica não elimina a necessidade de consultas regulares com
endocrinologista, cirurgião, nutricionista e outros profissionais da equipe
multidisciplinar.
Além do
monitoramento do diabetes, é preciso avaliar possíveis deficiências
nutricionais, acompanhar a perda de peso, orientar a alimentação e prevenir
complicações tardias.
O sucesso do
procedimento depende da combinação entre cirurgia, alimentação adequada,
atividade física e acompanhamento médico contínuo.
A cirurgia
metabólica serve para diabetes tipo 1?
Mito. Ela é indicada apenas para pessoas com diabetes
tipo 2. No diabetes tipo 1, o organismo deixa de produzir insulina devido à
destruição autoimune das células pancreáticas. Como a cirurgia não restaura a
produção de insulina, ela não trata a causa do diabetes tipo 1. Embora
pacientes com DM1 e obesidade possam apresentar benefícios relacionados à perda
de peso, o procedimento não substitui a insulinoterapia nem promove remissão da
doença.
A cirurgia
metabólica faz emagrecer?
Verdade. Embora o foco principal seja o controle
metabólico, a perda de peso é um dos efeitos mais importantes do procedimento.
A redução do peso corporal contribui para melhorar a resistência à insulina,
reduzir a pressão arterial, controlar o colesterol e diminuir o risco cardiovascular.
Dependendo da técnica utilizada e das características da pessoa, a perda de
peso pode ser bastante significativa e duradoura.
Conclusão
A cirurgia
metabólica representa um dos maiores avanços no tratamento do diabetes tipo 2
nas últimas décadas. Os resultados podem ser impressionantes, incluindo
remissão da doença, redução do uso de medicamentos e melhora da qualidade de
vida.
No entanto, ela não é
uma cura definitiva nem dispensa mudanças de hábitos. Alimentação
equilibrada, prática regular de atividade física e acompanhamento médico
continuam sendo pilares essenciais para manter os benefícios conquistados com a
cirurgia.