O
impeachment é um instituto elaborado pelo sistema jurídico-político britânico e
que se faz presente tanto nos EUA quanto no Brasil. Ainda que a origem desse
instituto esteja atrelada ao sistema político parlamentarista, os sistemas
presidencialistas também contemplam esse recurso. O que ocorre é que o custo
político mobilizado para a condução do processo de impedimento é mais alto e
mais custoso no modelo presidencialista, se comparado ao modelo
parlamentarista. E, sobretudo, deve-se medir a importância do sistema
partidário e o papel da opinião pública, mesmo entre os modelos presidenciais.
A
indagação que se apresenta para a população é: por que no Brasil um processo de
impedimento deixa cicatrizes mais profundas no funcionamento da democracia do
que nos EUA? Deixando de lado a maior transitividade entre primeiros ministros
em modelos parlamentares, que são trocados com maior facilidade e menor custo
institucional, o sistema presidencialista norte-americano parece recepcionar
com maior grau de normalidade institucional a abertura e condução de um
processo de impedimento do que o sistema político-presidencial brasileiro para
o mesmo fenômeno.
Quando
são comparadas de forma estrita as fases do processo nos EUA e no Brasil,
percebe-se um rito quase equivalente. Em resumo, o processo inicia na “House of
Representatives” e, caso tenha-se maioria simples, o processo avança para o
senado. Nesse meio tempo, o presidente é afastado do cargo, o presidente da
suprema corte assume a presidência do senado e, caso o processo seja votado com
maioria composta — dois terços do total —, o presidente é removido do cargo. O
mesmo vale para o caso brasileiro, com a diferença de que tanto no congresso,
para abertura do processo, como no senado, para o fim, deve-se votar com
maioria composta.
Nesse
sentido, se o sistema político é equivalente, assim como o rito processual
também o é, as respostas devem estar atreladas ao sistema partidário e ao
perfil da opinião pública.
O
caso de impedimento do presidente norte-americano inicia com uma acusação feita
pelos democratas de que Donald Trump teria barganhado com o primeiro ministro
da Ucrânia para que o mesmo investigue e colete informações sobre possíveis
ligações entre seu maior rival do partido democrata, Joe Biden. A correlação de
forças atual, que ocorre entre câmara e senado, contempla maioria das cadeiras
controladas pelos democratas na câmara, enquanto no senado maioria republicana.
Bem como uma corrida eleitoral dentro do partido democrata, disputada entre
dois candidatos competitivos: Joe Biden e Elizabeth Warren. Logo, a
configuração de forças está limitada a dois partidos, democratas e
republicanos, derivada do modelo bipartidário, e a disputa eleitoral está
limitada a dois candidatos democratas e um rival republicano. De modo
simplificado, as perdas e ganhos em todo esse processo devem estar distribuídas
entre esses cinco atores.
O
caso brasileiro de impedimento iniciou com uma acusação de crime de
responsabilidade à presidenta brasileira Dilma Roussef do Partido dos
Trabalhadores, que foi colocada para votação pelo presidente da Câmara dos
Deputados do MDB. Em 2014 o total de partidos políticos no Brasil registrados
que tinham representantes na câmara era de vinte quatro, sendo que o partido no
poder era o PT — que contava com apoio de outros partidos que compunham a base
do governo. A votação do impedimento se deu com votos favoráveis ao impedimento
dos partidos: PSDB, PSB, DEM, PRB, Sd, PSC, PPS, PV; enquanto contrários ao
início do processo PT, PDT, PCdoB e PSOL.
Enfim,
quando comparados o processo nos EUA e no Brasil e relacionados o sistema
partidário, em ambos países, quais considerações podem ser feitas: os custos do
processo nos EUA são mais concentrados em torno dos partidos derrotados, bem
como, no caso das investigações sobre Joe Biden, em um único potencial
candidato dentro do partido democrata. Isso indicaria um potencial
fortalecimento de Elizabeth Warren e, caso o processo encerre com uma deposição
do Trump, um fortalecimento de Partido Democrata. É um jogo que termina com
dois vitoriosos. Já no caso brasileiro, o Partido dos Trabalhadores é o
principal responsabilizado, mas toda o resto da coalização de partidos
envolvidos recebe efeitos difusos do processo.
O
que fica em aberto é como a opinião pública nacional e internacional interpreta
o acontecimento, em especial, em termos de confiança nas instituições. Quais
sejam: os partidos, o chefe do executivo, o sistema de governo, o poder
judiciário. Se a opinião pública perde a confiança em todo o sistema, isso não
pode ser derivado apenas do processo e corresponde a história política e a
formação social de cada país. Nenhum sistema pode alterar essa herança. De
outro lado, se o problema de confiança pode ser corrigido por soluções
institucionais, será o modelo bipartidário uma resposta mais adequada, mesmo
quando os custos diretos de um processo dessa natureza ficam concentrados em
poucos partidos? No final das contas, a resiliência dos partidos é uma dimensão
deveras importante, seja para evitar uma crise de confiança nas instituições,
seja para produzir novas lideranças dentro dos partidos capazes de recuperar a
responsividade entre cidadão e partido.
André Frota -
professor dos cursos de Relações Internacionais e Ciência Política e membro do
Observatório de Conjuntura do Centro Universitário Internacional Uninter.
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