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quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Circulação de águas do Atlântico pode enfraquecer de modo inédito até 2100 e impactar chuva na Amazônia

 

Equipe reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil:
efeitos mais graves podem ocorrer no norte da Amazônia,
com redução drástica do regime de chuvas
 (
imagem: CEN/Universität Hamburg)

Combinando dados de pesquisa de campo com projeções de modelos climáticos, estudo reconstituiu a atividade da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – um dos principais motores do clima terrestre – ao longo de todo o Holoceno. Cenários projetados para o futuro não têm precedentes nos últimos 6.500 anos 

 

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conhecida pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânica que transporta calor e nutrientes, conectando águas superficiais da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.

Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projeções dos melhores modelos climáticos, o trabalho indica que as mudanças causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedentes no período recente da história da Terra. O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástica redução do regime de chuvas.

Os resultados foram publicados no periódico Nature Communications.

A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinhos coletados em diferentes pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativos – tório-230 e protactínio-231 –, os pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – os últimos 12 mil anos.

“Esses elementos radioativos são produzidos de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partículas, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registrada nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânica. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.



Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quentes do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt et al., 2017)

Para transformar os dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceanos, atmosfera e ciclos biogeoquímicos, permitindo converter registros de sedimentos em estimativas quantitativas da circulação oceânica. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litros por segundo.

Os resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleiras e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódios de resfriamento mais intensos do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.

“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhuma oscilação maior, minimamente próxima daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científica.”

Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudanças nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de monções da Índia e do Sudeste Asiático.


Impacto sobre a Amazônia

Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduções significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.

O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da floresta. Diferentemente do sul e do leste amazônicos, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade. “É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climática poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.

Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico (foto: Stefan Mulitza)

Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre eles o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registros de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinhos, os cientistas mostraram nesse trabalho que enfraquecimentos passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmidas do norte amazônico. E os modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia.


Ponto de não retorno?

O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmadas as projeções, ocorrerá uma ruptura sem precedentes na circulação oceânica que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre os pesquisadores especializados de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência. Mas os dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramentos diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, os registros são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robustas, rápidas e conectadas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.

Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada (leia mais em: agencia.fapesp.br/54611 e agencia.fapesp.br/55727).

Os dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-419/19948-0 e 21/13129-8.

O artigo Low variability of the Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout the Holocene pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.

 


José Tadeu Arantes

Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/circulacao-de-aguas-do-atlantico-pode-enfraquecer-de-modo-inedito-ate-2100-e-impactar-chuva-na-amazonia/55791


terça-feira, 9 de setembro de 2025

Estudo confirma os riscos do consumo de álcool na gestação para o neurodesenvolvimento fetal

Pesquisadores da PUCPR analisam os efeitos moleculares do consumo de álcool (EtOH) no desenvolvimento do córtex cerebral


Levantamento realizado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) revelou um aumento significativo no consumo abusivo de álcool entre as mulheres no Brasil, entre os anos de 2010 e 2023. Os dados apontam que o percentual de mulheres que fazem uso excessivo de bebidas alcoólicas cresceu de 10,5% para 15,2% neste período, enquanto, entre os homens, a taxa permaneceu estável, de 27% para 27,3%. Na população geral, o aumento foi de 18,1% para 20,8%. No caso de mulheres grávidas, os riscos associados ao álcool são ainda maiores, pois ainda não há dados que indiquem se há uma quantidade segura do consumo de álcool durante uma gestação.

 

O pesquisador Dr. Roberto Hirochi Herai, Coordenador do Laboratório de Bioinformática e Neurogenética (LaBiN) do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), é um dos autores do estudo que investigou os efeitos da exposição ao álcool durante a gestação, e potenciais impactos no desenvolvimento do córtex cerebral humano. A pesquisa utilizou modelos celulares baseados em organóides corticais humanos e foi aprovada por um comitê da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD, EUA).

 

“Estudos anteriores já demonstraram que o consumo de álcool durante a gravidez pode levar a distúrbios conhecidos como Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF), que incluem deficiências físicas, mentais e comportamentais, que inclusive se confunde com o autismo, especialmente em crianças pequenas”, explica Dr. Herai. Nos Estados Unidos, estima-se que 1 a cada 20 nascimentos seja afetado pelo TEAF, mas não há dados concretos sobre a incidência no Brasil. 

 

Os resultados confirmaram que o consumo de etanol (EtOH), componente ativo das bebidas alcoólicas, pode comprometer o neurodesenvolvimento fetal, conforme demonstrado por meio de modelos celulares. O estudo revelou que o EtOH altera a organização da cromatina — estrutura responsável por compactar o DNA — e interfere em vias de sinalização intracelular essenciais, prejudicando o desenvolvimento das sinapses necessárias para a formação de redes neurais funcionais durante o desenvolvimento cerebral. Além disso, registros eletrofisiológicos evidenciaram que a exposição ao álcool afeta negativamente tanto a formação quanto a atividade das redes neurais.

 

Dr. Bruno Guerra, também um dos autores do estudo, afirma que “muito pouco é conhecido a respeito dos efeitos moleculares do consumo de álcool (EtOH) durante a gestação no desenvolvimento do córtex cerebral fetal humano”. Ele reforça que “compreender a base das alterações moleculares, incluindo quais problemas são causados nas células cerebrais, ajudará no desenvolvimento de futuras terapias de tratamento para as TEAF, e também a esclarecer as alterações relacionadas aos processos neurobiológicos. Isso permitirá a geração de mais dados que possam auxiliar na criação de políticas de saúde pública relacionadas ao consumo de álcool por grávidas”, destaca.  

 

Publicação do estudo

 

O artigo Impact of alcohol exposure on neural development and network formation in human cortical organoids (Impacto da exposição ao álcool no desenvolvimento neural e na formação de redes em organoides corticais humanos) foi publicado no Molecular Psychiatry número 28, 1571–1584 e está disponível no link:  https://doi.org/10.1038/s41380-022-01862-7

 

O artigo é de autoria de Jason W. Adams, Priscilla D. Negraes, Justin Truong, Timothy Tran, Ryan A. Szeto, Bruno S. Guerra, Roberto H. Herai, Carmen Teodorof-Diedrich, Stephen A. Spector, Miguel Del Campo, Kenneth L. Jones, Alysson R. Muotri & Cleber A. Trujillo. 

 

Dr. Bruno Siegel Guerra realizou seu Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da PUCPR, Dr. Roberto Hirochi Herai é orientador e pesquisador da PUCPR, Dr. Alysson Muotri e Dr. Cleber A. Trujillo são pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD, EUA).



Setembro Verde: 78 mil brasileiros esperam por um transplante, mas, 43% das famílias ainda dizem “não” à doação de órgãos

O Brasil possui o segundo maior programa público de transplantes do mundo, mas ainda enfrenta uma das maiores taxas de recusa familiar. Uma única pessoa pode salvar até 8 vidas, mas o silêncio dentro de casa continua sendo a principal barreira
 

Setembro marca a campanha Setembro Verde, dedicada à conscientização sobre a doação de órgãos. No próximo dia 27 de setembro, é celebrado o Dia Nacional da Doação de Órgãos, um convite à reflexão sobre um tema que impacta milhares de famílias todos os anos. 

De acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), mais de 30 mil transplantes foram realizados no Brasil em 2024. Apesar do recorde histórico, 78 mil pessoas ainda aguardam na fila por um órgão. O contraste está no alto índice de recusa familiar: 43% das famílias se negam a autorizar a doação, quase o dobro da média mundial (25%). 

“A recusa geralmente vem do medo e da falta de informação. Muitas famílias não conversam sobre o tema e, na hora da perda, acabam decidindo pelo ‘não’. É por isso que precisamos falar mais abertamente sobre doação de órgãos em casa, nas escolas e em todos os espaços possíveis”, explica a Dra. Lilian Curvelo Gastroenterologista e Hepatologista. 

A doação pode ser feita por doadores vivos (em situações específicas, como um dos rins ou parte do fígado) ou após a constatação de morte encefálica, sempre com autorização da família. 

-Órgãos: coração, fígado, rins, pulmões, intestinos, pâncreas.

-Tecidos: córneas, pele, ossos, tendões, válvulas cardíacas, medula.

Um único doador pode salvar até 8 vidas e transformar mais de 50 pessoas com tecidos. 

“Quando falamos em doação, não estamos falando de estatísticas frias. Estamos falando de pessoas reais que ganham uma segunda chance de vida, de famílias que voltam a sorrir, de crianças que podem crescer saudáveis. É sobre humanidade e solidariedade”, reforça a médica.
 

Mitos que ainda afastam as famílias

1-A aparência do corpo será alterada. Mito! O procedimento é cirúrgico e não compromete a aparência do doador.

2-É possível furar a fila. Mito! A lista é nacional, auditada e segue critérios clínicos e de compatibilidade.

3-Se a pessoa tiver dito ‘sim’ em vida, a família não pode recusar. Mito! A autorização final é sempre da família.

“Um dos mitos mais comuns é o de que alguém pode passar na frente da fila, mas isso não existe. O sistema é transparente, auditado e baseado em critérios clínicos. A confiança nesse processo é fundamental para que mais pessoas se sintam seguras em dizer ‘sim’ à doação”, afirma a Dra. Lilian.


Como se tornar um doador

Não existe cadastro formal no Brasil. Para ser doador, basta avisar a família sobre a sua decisão. No momento da perda, são os familiares que autorizam ou não a doação. “Muita gente acredita que precisa de um registro em cartório ou um documento especial, mas não é verdade. Basta conversar com a sua família. Essa é a única forma de garantir que a sua vontade será respeitada”, esclarece a especialista.
 


DRA. LILIAN CURVELO- CRM 78.526/SP - RQE 84418. Gastroenterologista e Hepatologista. Formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com especialização e doutorado em Gastroenterologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pós-doutorado em transplante de fígado pela Universidade Erasmus-MC na Holanda. Há mais de 25 anos dedica-se ao estudo, diagnóstico e tratamento clínico das doenças do aparelho digestivo e do fígado.
  

Bruxismo: como identificar o problema e sua relação com a ansiedade

Especialista explica os sinais que diferenciam o distúrbio de outros problemas odontológicos e orienta sobre prevenção e tratamento 

 

O bruxismo, hábito de ranger ou apertar os dentes, tem se tornado cada vez mais comum e está intimamente relacionado ao estilo de vida moderno, marcado por altos níveis de estresse e ansiedade. Embora muitas pessoas associem o problema apenas ao desgaste dentário, suas consequências vão muito além da saúde bucal, podendo afetar também o bem-estar geral.  

Heitor Castro, professor de Odontologia da Una Itumbiara, ressalta que o fator emocional exerce grande influência no desenvolvimento do distúrbio. “O estresse e a ansiedade aumentam a atividade do sistema nervoso central, especialmente do sistema nervoso simpático. Isso leva a uma maior tensão muscular, incluindo os músculos mastigatórios, favorecendo hábitos como apertar ou ranger os dentes”.  

Ao contrário do que muitos acreditam, o bruxismo não acontece apenas durante o sono. O professor observa que ele também pode ocorrer durante o dia, com características distintas. O noturno geralmente está associado a episódios inconscientes, que afetam a qualidade do descanso, enquanto o diurno tende a estar ligado a momentos de concentração ou tensão. 

 

Consequências para a saúde 

Estar atento aos sinais do corpo é o primeiro passo para identificar o bruxismo e evitar complicações mais graves. Dores de cabeça frequentes, dentes trincados ou sensíveis, restaurações quebradas, tensão muscular e sono agitado são alguns dos sintomas que exigem avaliação profissional.  

As complicações são amplas: “Ele provoca fraturas dentárias e de restaurações, retração gengival, sensibilidade, dores e fadiga nos músculos da face, pescoço e ombros”, afirma Castro. Segundo o especialista, também pode causar sobrecarga na articulação temporomandibular (ATM), levando a disfunção (DTM) e dores de cabeça tensionais, além de prejudicar a qualidade do sono e impactar a saúde psicológica.  

O professor acrescenta que o uso de placas de mordida não elimina a causa do bruxismo, “mas são fundamentais para proteger os dentes, aliviar dores e preservar resultados de tratamentos odontológicos complexos. Funcionam como uma barreira de controle dos danos, especialmente em pacientes sob estresse intenso”. Além disso, práticas cotidianas como exercícios de relaxamento, manejo do estresse, higiene do sono e redução de estímulos como a cafeína podem ajudar a controlar os episódios. 

 

Como diferenciar de outros problemas dentários 

Identificar corretamente o bruxismo é essencial para evitar confusões com outras doenças bucais. Entre os sinais característicos estão:  

·                    Desgaste dentário: no bruxismo é plano, brilhante e generalizado, diferente da erosão ácida, que tem formato em “conchas”, ou da abrasão, localizada; 


·                    Dor muscular: difusa nos músculos mastigatórios, especialmente ao acordar, enquanto a dor dentária é pontual e associada a estímulos; 


·                    Fraturas: múltiplas e simétricas no bruxismo, ao contrário de traumas dentários isolados; 


·                    Cefaleia matinal: típica do bruxismo noturno; 


·                    Marcas em língua e bochecha: geralmente bilaterais e causadas pela mordedura inconsciente.  

Reconhecer esses sinais e buscar ajuda profissional é essencial para evitar que o bruxismo traga prejuízos maiores à saúde. Com orientação adequada e cuidados contínuos, é possível controlar o problema, reduzir os impactos físicos e garantir mais qualidade de vida. 

 

Centro Universitário Una


Saúde preventiva desponta como tendência entre quem busca qualidade de vida

Alimentação consciente, prática de exercícios e autocuidado conquistam espaço na rotina dos brasileiros


Ao longo dos últimos anos, a forma de olhar para a saúde vem passando por uma transformação. Cada vez mais, o foco deixa de estar apenas no tratamento de doenças e se volta para a prevenção e o bem-estar contínuo. Esse movimento pode ser visto em hábitos que se popularizaram nos últimos anos: o uso de suplementos e vitaminas, a prática regular de atividades físicas, o interesse por rotinas de sono mais equilibradas, a adoção de uma alimentação mais consciente e até mesmo tendências como os banhos de gelo, apontados como aliados no fortalecimento físico e mental.

Nas redes sociais, é possível acompanhar essa mudança de comportamento refletida no dia a dia de diversos influenciadores digitais, em práticas que estão diretamente ligadas a uma percepção mais ampla sobre qualidade de vida, longevidade e autoestima. “As pessoas entenderam que cuidar da saúde não se resume a tratar doenças. Ao mudar hábitos e prestar atenção a detalhes metabólicos mais sutis, é possível identificar sinais silenciosos de desequilíbrios e agir antes que eles se transformem em problemas mais sérios”, explica o médico Fábio Gabas, fundador da HMetrix.

Esse olhar para o futuro do próprio corpo abriu espaço para que a saúde preditiva e personalizada ganhasse notoriedade. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por ferramentas que permitam conhecer melhor o próprio metabolismo e suas necessidades. O uso de dados clínicos, históricos familiares e informações sobre estilo de vida, por exemplo, já começa a ser integrado à rotina médica, oferecendo uma visão mais ampla da saúde de cada indivíduo. Essa tendência reforça uma mudança de perspectiva: em vez de esperar que um problema apareça, busca-se identificar sinais precoces e fatores de risco que muitas vezes passam despercebidos em consultas tradicionais.

Outro ponto importante é a personalização. Se antes a medicina trabalhava com protocolos mais gerais, hoje ganha força a ideia de que cada organismo reage de maneira única. Essa abordagem abre espaço para que condutas preventivas sejam ajustadas de acordo com as particularidades de cada pessoa, tornando o cuidado mais assertivo.

Segundo Gabas, esse olhar detalhado é o que representa uma verdadeira quebra de paradigma na medicina atual. “Dois pacientes com sinais e sintomas semelhantes podem precisar de orientações completamente diferentes, uma vez que cada organismo responde de forma única. A personalização do cuidado é fundamental para evitar generalizações e alcançar resultados mais efetivos”, ressalta.

Esse movimento dialoga diretamente com uma mudança cultural mais ampla. Pessoas cada vez mais informadas e conectadas passaram a assumir o protagonismo sobre o próprio bem-estar, buscando longevidade com qualidade de vida. Nesse cenário, a medicina deixa de ser vista apenas como solução para doenças já instaladas e passa a ser aliada em escolhas que contribuem para uma vida mais saudável e equilibrada.

O futuro da saúde, portanto, não está apenas em tratar doenças, mas em evitá-las. Trata-se de um caminho que combina ciência, tecnologia e novos hábitos, inaugurando uma forma de cuidado mais inteligente e alinhada às necessidades reais de cada indivíduo.

 

HMetrix


Como a fisioterapia ajuda a aliviar os sintomas da ansiedade

Pexels
 Técnicas fisioterapêuticas auxiliam no controle dos sintomas físicos e emocionais, promovendo qualidade de vida 


Em meio à rotina cada vez mais acelerada, muitas pessoas desenvolvem sintomas relacionados ao estresse, à ansiedade e até mesmo à depressão. Além do acompanhamento psicológico e médico, a fisioterapia tem se mostrado uma importante aliada na prevenção e no tratamento desses transtornos, especialmente na prevenção e no controle dos sintomas físicos que eles provocam. 

De acordo com Fábio Viana, professor de Fisioterapia da Una Catalão, diferentes técnicas podem ser utilizadas como parte de um plano terapêutico integrado. “Existem várias práticas fisioterapêuticas que podem ser incluídas no tratamento dessas patologias, como a hidroterapia, acupuntura, liberação miofascial, ventosa terapia, alongamentos, exercícios de respiração e massagem desportiva, ou até mesmo a combinação de algumas estratégias, conforme a avaliação do quadro clínico do paciente”, explica. 

Segundo o especialista, práticas simples como exercícios respiratórios e alongamentos podem trazer benefícios significativos para quem convive com transtornos emocionais. “O paciente desenvolverá uma consciência respiratória, com capacidade de autocontrole que interfere diretamente em níveis hormonais, no controle da ansiedade e até na tomada de decisões comportamentais”, destaca Viana.

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Os sintomas físicos também merecem atenção. Pessoas com ansiedade e depressão podem apresentar fadiga crônica, distúrbios do sono, dores de cabeça, problemas gastrointestinais, alterações de peso, dores miofasciais e até questões posturais. Disfunções que podem ser prevenidas e controladas com a fisioterapia. 

Além de auxiliar no tratamento, a fisioterapia também pode atuar de forma preventiva. “Não se trata apenas de reabilitação. Ela pode estar presente no nível primário de prevenção, ajudando a promover uma melhor qualidade de vida e evitando a evolução dos transtornos”, afirma Viana. 

O especialista ainda reforça que a abordagem precisa ser individualizada. “O quadro clínico pode variar de paciente para paciente. É essencial avaliar sintomas e queixas de forma criteriosa, observando desde aspectos comportamentais até exames físicos, para que seja traçado um plano de tratamento adequado”, conclui.

 

 Centro Universitário Una


Setembro Amarelo: conscientização exige atenção contínua

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No Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, especialistas reforçam a importância de quebrar tabus, reconhecer sinais de alerta e promover uma cultura de acolhimento durante todo o ano
 

 

Nesta quarta-feira, 10 de setembro, é celebrado o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, uma data que reforça a importância de falar sobre saúde mental e fortalecer a campanha Setembro Amarelo. A iniciativa surgiu para conscientizar a sociedade sobre os riscos do suicídio e incentivar a busca por ajuda, mas o alerta não deve se limitar a apenas um mês: é necessário estar atento durante todo o ano. 

O psicólogo e especialista em saúde mental Alexander Bez, reforça que a prevenção começa pela observação atenta de sinais que muitas vezes passam despercebidos. “Mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, falas que demonstram desesperança ou desinteresse pela vida são alertas importantes. É essencial que familiares e amigos estejam atentos, pois a escuta acolhedora e o encaminhamento para ajuda profissional podem salvar vidas”, destaca. 

Entre as condições que mais aumentam a vulnerabilidade, a depressão é uma das mais preocupantes. “A depressão é e sempre será uma condição séria que deve ser tratada e observada constantemente. Diferentemente de outros transtornos psicológicos, quando não tratada corretamente, ela pode aumentar significativamente o risco de fatalidade”, explica o especialista. 

Para Bez, o estigma em torno das doenças mentais ainda é uma barreira que impede muitas pessoas de buscarem auxílio. “É fundamental desconstruir a ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Pelo contrário: reconhecer a necessidade de apoio é um ato de coragem e um passo fundamental para a recuperação”, afirma. 

Além do acompanhamento psicológico e psiquiátrico, a rede de apoio formada por familiares, amigos e cuidadores tem papel essencial no processo de prevenção. “Quando alguém encontra acolhimento, compreensão e paciência em seu entorno, a chance de enfrentar a dor com mais equilíbrio é muito maior. Prevenir o suicídio é, acima de tudo, um esforço coletivo que envolve empatia e humanidade”, conclui o psicólogo. 

O Centro de Valorização da Vida (CVV) desempenha um papel fundamental na prevenção do suicídio. A instituição realiza apoio emocional de forma voluntária e gratuita, sempre com total sigilo, oferecendo escuta acolhedora a todas as pessoas que precisam conversar. O atendimento é realizado por telefone, e-mail, chat ou VoIP, funcionando 24 horas por dia, todos os dias da semana. Em parceria com o SUS, o CVV pode ser contatado pelo número 188, com ligação gratuita a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular. 

O Setembro Amarelo é, acima de tudo, um convite à escuta e à empatia. Falar sobre o suicídio de forma responsável, oferecer apoio emocional e incentivar o cuidado profissional são atitudes que podem transformar realidades e salvar vidas. Mais do que isso, é essencial compreender a importância de cuidar da saúde mental como um todo, cultivando hábitos de prevenção e bem-estar ao longo da vida. Quanto mais a sociedade se engajar nessa causa, maior será a chance de construir um futuro com menos silêncio e mais acolhimento.

 

Setembro Amarelo: Solidão crônica está ligada a mais de 870 mil mortes por ano, segundo novo relatório da OMS

Para especialista da Afya Sete Lagoas, a desconexão social fragiliza o sentido de vida e aumenta o risco de ideação suicida


Com o início do Setembro Amarelo, campanha dedicada à prevenção do suicídio, um novo relatório da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS), joga luz sobre a solidão, um dos gatilhos mais silenciosos e potentes do sofrimento mental. O estudo revela que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pelo isolamento, condição associada a cerca de 100 mortes a cada hora, o que representa mais de 871 mil vidas perdidas anualmente. 

 

Este fenômeno impacta, sobretudo, jovens e populações de países de baixa e média renda, com até 21% dos jovens de 13 a 29 anos relatando se sentir sozinhos. Este cenário de desconexão social serve como um gancho para aprofundar o debate sobre a saúde mental e entender a complexidade por trás das estatísticas de suicídio.

 

Para a psicóloga da Afya Sete Lagoas, Dra Sabrina Magalhães, a solidão crônica é um importante fator de risco emocional. “A ausência de vínculos e de uma rede de apoio eficaz enfraquece os recursos emocionais da pessoa, dificultando o enfrentamento de situações de estresse - e sabemos que a presença de apoio social é um importante fator de proteção”. 

 

A especialista também reforça que  a solidão pode estar relacionada a traços como o perfeccionismo, pessoas que se cobram excessivamente e se sentem constantemente inadequadas podem se isolar por vergonha ou frustração, o que aprofunda o sofrimento e a sensação de desesperança.

 


Solidão entre jovens e adolescentes

 

Anualmente, 727.000 pessoas tiram a própria vida globalmente, sendo o suicídio a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, segundo a OMS. No Brasil, a realidade reflete essa crise mundial, com a mesma organização apontando cerca de 14 mil mortes por suicídio a cada ano, o que equivale à trágica média de 38 vidas perdidas por dia. 

 

Segundo a psicóloga da Afya Sete Lagoas os jovens e adolescentes são mais vulneráveis ao suicídio por uma combinação de fatores emocionais, sociais e neurobiológicos. “A impulsividade é maior nessa fase devido à imaturidade cerebral, especialmente nas áreas responsáveis por controle emocional e tomada de decisão. Eles também têm menos habilidades de enfrentamento, o que os faz perceber situações difíceis como insuportáveis ou sem saída. Conflitos familiares, especialmente com os pais, são um fator importante, assim como condições psiquiátricas, uso de substâncias e o bullying.”

 

Ainda segundo a psicóloga, os jovens são mais suscetíveis ao chamado "efeito contágio", imitando comportamentos suicidas de pessoas próximas, celebridades ou personagens de mídia, principalmente quando se identificam com elas ou quando esses casos recebem grande visibilidade.

 


Afya
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Tabagismo: as reações impressionantes do corpo depois que a pessoa para de fumar

Dra. Fernanda Ronchi é oncologista clínica, especialista em câncer de pulmão, mama, cabeça e pescoço, e professora da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR)

 

O tabagismo é um dos grandes males da humanidade, causador de diversas doenças, algumas delas fatais. Estudos indicam que cerca de 1,25 bilhão de pessoas fumam, representando 1 em cada 5 adultos. No Brasil, dados recentes indicam um novo aumento, com 11,6% da população adulta sendo fumante em 2024, voltando ao patamar de 2012, com 13,8% dos homens e 9,8% das mulheres fumantes. 

Parar de fumar é um grande desafio para quem tem o hábito do cigarro. Muitos tentam, mas infelizmente não conseguem. Já aqueles que conseguem se livrar do vício, experimentam benefícios imediatos, em médio e também no longo prazo. 

Muitos fumantes, principalmente aqueles que já fumam há muitos anos, podem pensar que parar agora não faz mais diferença. Afinal, os danos já estariam feitos, certo? Errado! 

A verdade é que os benefícios de parar de fumar começam a surgir já nas primeiras horas após o último cigarro, e continuam por meses e anos. 

A seguir, veja o que acontece no organismo em diferentes momentos após cessar o tabagismo:

 

Após 20 minutos - Em apenas 20 minutos sem fumar, a frequência cardíaca e a pressão arterial começam a voltar ao normal. A circulação melhora e os pés e mãos começam a ficar mais aquecidos, sinal de que o sangue está fluindo melhor.

 

Após 8 a 12 horas - Nesse intervalo, os níveis de monóxido de carbono no sangue caem e o oxigênio começa a se equilibrar novamente. Isso significa que o corpo está começando a se desintoxicar.

 

Após 24 a 48 horas - Os nervos do olfato e paladar começam a se recuperar, e é possível notar que os alimentos têm mais sabor e os aromas ficam mais perceptíveis.

 

Após 2 a 3 semanas - A circulação sanguínea melhora significativamente, facilitando atividades físicas e reduzindo o cansaço. Os pulmões começam a funcionar melhor, e é possível notar mais disposição no dia a dia.

 

Após 1 a 9 meses - Durante esse período, os cílios dos pulmões (estruturas que ajudam a limpar as vias aéreas) voltam a funcionar com mais eficiência. A tosse, a falta de ar e outros sintomas respiratórios reduzem bastante.

 

Após 1 ano - Ao completar um ano sem fumar, o risco de desenvolver doenças cardíacas é reduzido em comparação a quem continua fumando.

 

Após 5 anos - De 5 a 10 anos após parar, o risco de derrame cerebral pode cair ao mesmo nível de uma pessoa que nunca fumou. O risco de câncer na boca, garganta, esôfago e bexiga também diminui de forma significativa.

 

Após 15 anos: quase como se nunca tivesse fumado. O risco de doença cardíaca coronariana e de câncer de pulmão agora é quase similar ao de alguém que nunca fumou. O corpo se regenera de forma profunda, e os benefícios à saúde se tornam duradouros.

 

Vale a pena parar de fumar? A resposta é: sim, sempre. Invista na sua saúde e no seu bem-estar. Sua vida agradece!


Setembro Amarelo: a ciência por trás da verdade sobre mortes suspeitas

"Diferenciar suicídio de homicídio exige uma análise técnica rigorosa e multidisciplinar"


No dia 10 de setembro, o mundo volta seus olhos para a conscientização sobre a saúde mental e a prevenção ao suicídio. A data, reconhecida como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, é marcada por ações da campanha Setembro Amarelo, que neste ano reforça o lema “Agir salva vidas”. 

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos em todo o mundo. Esse número, no entanto, pode ser ainda maior, considerando os casos subnotificados — acredita-se que o total ultrapasse um milhão de ocorrências anuais. No Brasil, os registros oficiais apontam cerca de 14 mil mortes por suicídio a cada ano, o que representa uma média preocupante de 38 vidas perdidas por dia. 

Diante desse cenário preocupante, além da prevenção, é essencial discutir a importância da perícia médico-legal na investigação de mortes suspeitas, especialmente quando há dúvidas sobre a natureza da ocorrência — se foi suicídio ou homicídio forjado. 

A médica legista Caroline Daitx, especialista em medicina legal e perícia médica, explica que diferenciar suicídio de homicídio exige uma análise técnica rigorosa e multidisciplinar. “O exame do local da morte é o primeiro passo: a posição do corpo, sinais de luta, desordem no ambiente e objetos fora do padrão esperado podem indicar manipulação da cena. No corpo da vítima, lesões superficiais conhecidas como “feridas de hesitação” são comuns em suicídios, enquanto lesões incompatíveis com autolesão sugerem agressão externa. Em casos de arma de fogo, a presença de lesão de contato é típica de suicídio, ao passo que disparos à distância ou múltiplos são mais compatíveis com homicídios”. 

Vestígios biológicos e digitais também são fundamentais. “Impressões digitais em armas, cordas ou copos, bem como a presença de DNA de terceiros, podem indicar a participação de outra pessoa. O histórico médico e psicológico da vítima, incluindo indícios de depressão ou comportamento suicida, contribui para estabelecer o nexo causal entre o estado emocional e o ato”, detalha a perita. 

Casos de enforcamento exigem atenção especial. De acordo com a especialista, em suicídios, o sulco no pescoço costuma ser oblíquo, ascendente e incompleto, enquanto em homicídios simulados o sulco é horizontal, completo e compatível com estrangulamento manual. “Fraturas na cartilagem tireoide ou hióide, equimoses em braços e face, e incompatibilidades na altura do ponto de fixação da corda são sinais que podem indicar manipulação da cena. A rigidez cadavérica incompatível com a posição encontrada ou a ausência de sangue gravitacional coerente também são elementos que levantam suspeitas”, completa a médica. 

“A comunicação entre o perito criminal e o médico legista deveria acontecer para investigações mais eficazes. Enquanto o perito criminal analisa a dinâmica do local e os vestígios materiais, o médico legista examina o corpo e os mecanismos da morte. A troca de informações entre esses profissionais evita conclusões isoladas e aplica a Teoria do Queijo Suíço, que mostra como múltiplas barreiras analíticas reduzem a chance de erro”, explica a médica. 

A correta definição entre suicídio e homicídio tem implicações éticas, emocionais e legais. “O Código de Ética Médica reforça que o médico perito deve atuar com independência, isenção e respeito à dignidade da pessoa falecida. Para os familiares, a conclusão pericial afeta diretamente o processo de luto e a memória da vítima. No aspecto legal, o Código de Processo Penal exige exame de corpo de delito para elucidar as causas da morte, e um laudo mal fundamentado pode gerar injustiça, prejudicando tanto os familiares quanto possíveis acusados”, finaliza a perita.
 

Crime de induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio ou à automutilação

Do ponto de vista jurídico, o advogado criminalista Gabriel Huberman Tyles, mestre em Direito Processual Penal, do escritório Euro Filho e Tyles Advogados, explica que o artigo 122 do Código Penal tipifica como crime o induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio ou à automutilação, com pena de seis meses a dois anos. Essa pena pode ser aumentada em casos envolvendo menores de idade, vítimas com capacidade reduzida de resistência ou quando o crime é praticado por meio da internet ou redes sociais. 

O penalista esclarece que, “se a vítima tiver menos de 14 anos ou for incapaz de oferecer resistência, o autor pode responder por lesão corporal gravíssima (pena de 2 a 8 anos) ou por homicídio (pena de 6 a 20 anos), dependendo do resultado. A legislação também prevê agravantes para líderes ou administradores de grupos virtuais que incentivem essas práticas”. 

O advogado faz a seguinte diferenciação, a depender do tipo de participação: “induzir é incutir a ideia do suicídio, instigar é reforçar uma ideia já existente, e auxiliar significa contribuir materialmente para o ato, como fornecer arma, corda ou veneno. Em todos os casos, há responsabilização penal conforme previsto na lei”, ressalta Tyles.
 



Fontes:

Caroline Daitx - médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica. CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais - CAEPE, Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”.


Gabriel Huberman Tyles - mestre em Direito Processual Penal pela PUC-SP, do escritório Euro Filho e Tyles Advogados.

 

Sucesso nas cirurgias de câncer de mama depende da precisão dos exames de imagem

Estudo comparativo realizado por pesquisadores brasileiros, com participação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), indica bons resultados da mamografia contrastada


A avaliação pré-operatória é determinante para o sucesso nas cirurgias de câncer de mama. Sob a perspectiva de investigar a efetividade e a precisão dos exames de imagem que detectam o tamanho e a localização dos tumores, pesquisadores brasileiros acabam de publicar um estudo que compara a mamografia digital, a mamografia contrastada, a tomossíntese digital e a ressonância magnética. Com a participação de pacientes com câncer de mama invasivo em estágio inicial do Hospital da Mulher, antigo Pérola Byington, em parceria com a rede Dasa, a investigação constitui uma contribuição científica importante para o aprimoramento de diagnósticos e a melhoria de resultados nos procedimentos cirúrgicos.

O estudo “Avanço no estadiamento pré-operatório do câncer de mama precoce: uma análise comparativa de modalidades de imagem” foi publicado pelo periódico Current Problems in Diagnostic Radiology, dedicado à pesquisa e melhoria da prática em radiologia clínica. Coordenado pelo mastologista André Mattar, tesoureiro-adjunto da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), tem a participação dos pesquisadores Almir Bitencourt, Flora Finguerman Menache Dwek, Andressa Amorim, Luiz Henrique Gebrim e Flavia Paiva. Os especialistas Marcelo Antonini e Henrique Lima Couto, também da SBM, completam a equipe.

As pesquisas científicas que comparam diretamente a mamografia digital, a mamografia contrastada, a tomossíntese digital e a ressonância magnética para estadiamento pré-operatório são escassas. Além disso, o estudo conduzido pelo médico André Mattar é notável por concentrar investigações exclusivamente sobre pacientes com câncer de mama em estágio inicial, elegíveis para cirurgia. “Neste grupo distinto, o dimensionamento preciso do tumor e a detecção da lesão são cruciais para a realização da cirurgia”, ressalta o mastologista da SBM.

Na avaliação pré-operatória, a ressonância magnética, segundo o especialista, é considerada “padrão ouro” para orientar o planejamento cirúrgico e otimizar resultados nos casos de câncer de mama em estágio inicial. “O exame, no entanto, tem várias limitações. Podemos enumerar o alto custo, a disponibilidade reduzida de equipamentos e técnicos para realizá-lo e contraindicações para pacientes com claustrofobia ou dispositivos metálicos implantados, como o marca-passo”, afirma.

No estudo, os pesquisadores brasileiros incluíram 46 mulheres com idade média de 55,4 anos do Hospital da Mulher, em São Paulo (SP), referência no tratamento de câncer feminino que atende pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde). O levantamento contou ainda com a parceria da rede Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil e na América Latina.

Como resultado, o tumor primário foi identificado pela mamografia digital em 89,1% dos casos; a tomossíntese, em 97,8%. Mas tanto a ressonância magnética quanto a mamografia contrastada identificaram o câncer em 100% dos casos.

“Evidentemente, a ressonância magnética é um recurso de imagem que oferece melhor definição e dá ao cirurgião mais segurança para realizar um procedimento”, destaca Mattar. Mas como alternativa nova e promissora, pondera o médico, a mamografia que utiliza contrastes iodados se mostra superior à mamografia digital e permite uma avaliação mais precisa das lesões.

Na avaliação dos especialistas envolvidos no estudo, a mamografia contrastada “combina de forma única dados anatômicos e funcionais que revelam massas subjacentes e distorções arquitetônicas difíceis de interpretar com a mamografia digital, devido à sobreposição do tecido glandular mamário”. Para mulheres com mamas densas, as imagens obtidas com contraste ajudam a dimensionar, com maior precisão, a extensão do tumor.

Embora não esteja disponível no SUS e no rol de cobertura da saúde suplementar, que inclui os planos de saúde, André Mattar observa que a mamografia contrastada, como demonstra o estudo brasileiro, tem potencial para ser aplicada na avaliação pré-operatória em casos de câncer de mama em estágios iniciais. “O exame também tem a vantagem adicional de ser alternativa mais rápida e barata que a ressonância magnética”, finaliza.


Principal causa de cegueira no mundo pode ser evitada com cirurgia


Imagem de wavebreakmedia_micro no Freepik

Especialista alerta que a catarata avança de forma silenciosa e pode levar à perda total da visão 



A catarata é a principal causa de cegueira no mundo. Silenciosa e traiçoeira, a doença avança de forma lenta e muitas vezes imperceptível, até que a visão já esteja tão comprometida que tarefas simples, como dirigir, ler ou até reconhecer o rosto de familiares, se tornam impossíveis. “A catarata é a perda da transparência da lente natural que temos dentro dos olhos. Essa opacificação impede a passagem da luz e leva à baixa visão, que em casos mais avançados pode resultar em cegueira”, alerta o oftalmologista Dr. Daniel Fulgêncio, especialista em catarata do IOBH - Instituto de Olhos de Belo Horizonte. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a catarata causa 51 % de todos os casos de cegueira no planeta, afetando cerca de 20 milhões de pessoas. No Brasil, a realidade não é diferente: a doença é altamente prevalente e praticamente inevitável com o envelhecimento. Por ano, surgem cerca de 550 mil novos casos no país, de acordo com a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO). “A maior parte da população vai desenvolver catarata em algum momento da vida. Infelizmente, não existe prevenção. Não há tratamento alternativo: colírios, pomadas, laser, exercícios ou chás não funcionam contra a catarata. O único recurso eficaz é a cirurgia”, reforça o médico. 

O perigo da catarata está justamente no fato de se instalar de forma silenciosa. “A visão vai embaçando de maneira lenta, insidiosa. Muitas vezes, a pessoa nem percebe que está enxergando mal, porque se acostuma com aquela visão ruim”, explica o especialista. Por isso, consultas regulares com o oftalmologista são fundamentais para o diagnóstico precoce. 

A boa notícia é que a cegueira causada pela catarata é reversível. “Com a cirurgia, o paciente volta a enxergar”, destaca o Dr. Daniel. O procedimento, considerado um dos mais realizados no mundo, é rápido, seguro e de alta precisão. Em alguns casos, dependendo da lente intraocular escolhida, é possível reduzir bastante – ou até eliminar – a necessidade de usar óculos. “Hoje existe uma quantidade muito grande de opções de lentes intraoculares, que corrigem a visão para distâncias diferentes. Apesar dos resultados variarem individualmente, as lentes mais modernas podem proporcionar uma grande independência dos óculos”, explica o médico. 

O processo de recuperação também costuma ser tranquilo. “Em geral, com uma semana o paciente já enxerga bem, embora a recuperação completa leve cerca de um mês. Os principais cuidados no pós-operatório são evitar esforço físico, contato com sujeira e água nos olhos”, orienta Dr. Daniel. 

Diante disso, a recomendação dos especialistas é clara: não espere a catarata avançar para buscar ajuda. Quanto antes o diagnóstico for feito e a cirurgia realizada, menores os riscos e maiores as chances de o paciente recuperar a visão com qualidade e segurança.

 

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