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sábado, 9 de agosto de 2025

Nova geração de pais 60+ desafia padrões e ressignifica o envelhecimento no Brasil

Especialista da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia aponta como a paternidade tardia impõe novas demandas emocionais e sociais

 

O avanço da medicina trouxe, entre seus principais benefícios, o aumento da expectativa e da qualidade de vida. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que até 2050 a expectativa de vida do brasileiro será de 81 anos. 

Em um País com uma população cada vez mais idosa, um fato está se tornando cada vez mais frequente: homens sendo pais pela primeira vez a partir dos 60 anos. Se algumas décadas atrás os homens nessa faixa-etária já eram avôs, hoje, deparam-se em uma nova situação. 

De acordo com a psicóloga e membro da Comissão de Formação Gerontológica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Valmari Cristina Aranha Toscano, quando uma pessoa se torna pai pela primeira vez, independentemente da idade, é importante entender o histórico dessa paternidade; se foi planejada ou não, uma vez que ter um filho implica em diferentes responsabilidades legais e afetivas. “É muito comum perceber as pessoas mudando hábitos e estilo de vida após se tornarem pais, fazendo um seguro de vida, cuidando melhor da saúde e mudando alguns comportamentos de risco. Se para a mulher as principais mudanças com a maternidade são em relação à liberdade, uso do tempo e as mudanças físicas, com os homens as mudanças tendem a culminar mais em responsabilidades, seja com a educação, em preparar um ser humano melhor para o mundo, seja em relação à segurança financeira”, explica, ao comentar que quando um homem se torna pai depois dos 60 anos essas questões se acentuam, pois os riscos com a saúde são mais frequentes, assim como a preocupação em deixar uma segurança material para esse filho, pois dependendo da idade desse pai pode ser que o filho ainda seja dependente quando vier a falecer.

 

Etapas

Valmari revela que o importante, para esses pais, não é aumentar a expectativa de vida, mas sim prolongar o número de anos que ele deseja ficar com filho. “Não adianta prolongar a vida com limitações e debilidade. Para fugir desse cenário é preciso cuidar da saúde física, por meio de atividades físicas, alimentação saudável, qualidade do sono e consulta com especialistas, por exemplo, e também da saúde mental, não permitindo que o preconceito por ser um pai mais velho atrapalhe a relação com o filho.” 

A psicóloga destaca também que ser pai nessa fase da vida traz muitos benefícios, uma vez que renova a motivação da pessoa e cria um novo propósito, o que é importante para o envelhecimento bem-sucedido. “Esse homem passará a conviver com a modernidade, com um outro modo de enxergar o mundo, que o obrigarão a se atualizar, sem falar na rede de contatos que ampliará. Então, ser pai a partir dos 60 anos traz mais benefícios que desafios”, afirma, ao explicar que a melhor forma de lidar com possíveis conflitos de geração é o diálogo, para que o filho entenda de que lugar o pai traz determinados valores, assim como o pai também entenda que o filho crescerá em outro contexto social. Segundo Valmari, normalmente, esses conflitos são oriundos de posicionamentos atrelados a características de personalidade, religião e valores. “Trabalho com envelhecimento há muitos anos e uma pessoa idosa há 30 anos era muito diferente da pessoa idosa hoje. Por isso, precisamos desmistificar a ideia de que toda pessoa idosa pensará diferente do jovem.”

 

Como educar?

Educar um filho, independentemente da idade do pai, certamente é um dos maiores desafios vividos. Muitas dúvidas surgem nesse momento, com tantos “especialistas” que aparecem em vídeos nas redes sociais. De acordo com a psicóloga, o primeiro passo (e o mais importante) é o homem olhar para si e analisar as suas características para entender qual será o seu posicionamento diante da criança. “Duas perguntas devem ser feitas nesse processo: ‘Que pessoas eu quero deixar para o mundo?’ e ‘Que contribuição eu posso trazer para a vida de alguém?’. Educar um ser-humano é uma função delicada e fica ainda mais difícil quando os pais, de maneira geral, não querem assumir essa responsabilidade, sendo o ‘chato’ da história, aquela pessoa que não apenas brincará, mas colocará limites na criança”, afirma a especialista, ao comentar que muitos também erram ao compensar a sua ausência na vida dos filhos por meio de bens materiais e de superproteção, o que acaba criando uma geração muito sensível e dependente. “O melhor caminho a ser seguido é o da presença, do diálogo. Impor limites e dizer não poderá ser um ato de amor se acompanhado de carinho e respeito.”

 

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia - SBGG


Geração Z adota códigos para expressar emoções mal compreendidas e evitar julgamentos

Especialista em comportamento humano, Orlando Pavani Júnior analisa o surgimento de códigos secretos entre jovens e alerta: é preciso aprender a “nova linguagem” para enxergar os sinais de sofrimento

 

Um número aparentemente inofensivo tem chamado atenção nas redes sociais. O código “700” vem sendo usado por jovens para expressar emoções profundas — em especial dor emocional — sem precisar dizer uma palavra sequer. Ao que tudo indica, trata-se de uma tentativa de desabafo silencioso, um grito contido de quem não quer (ou não consegue) ser plenamente compreendido. Para o especialista em Primazia da Gestão e Comportamento Humano, Orlando Pavani Júnior, esse tipo de comunicação é

sintomático: revela não apenas a criatividade da juventude digital, mas também uma fragilidade nas relações entre gerações. 

“Muitas vezes esses jovens criam códigos exatamente para não serem entendidos pelas gerações anteriores”, explica Pavani. “É uma forma de comunicação restrita a um grupo que pensa e sente da mesma forma. No caso do ‘700’, parece ser uma maneira de manifestar sofrimento emocional sem correr o risco de ser alvo de ainda mais bullying ou julgamento”. 

Para ele, esse movimento revela algo ainda mais delicado: uma dificuldade crescente dos jovens em utilizar palavras claras para falar sobre o que sentem. “Abrir o jogo de forma direta está, muitas vezes, gerando ainda mais sofrimento. Isso acontece porque há uma falta de compreensão e respeito pelo sentimento alheio, principalmente por parte de quem está fora da bolha geracional”, afirma. 

O distanciamento entre pais e filhos, mestres e alunos, jovens e adultos, tem sido ampliado pela velocidade com que novas linguagens e comportamentos surgem. Para Pavani, o desafio da comunicação entre gerações pode ser comparado ao de tentar conversar com alguém em outro idioma. “Estabelecer diálogo entre gerações diferentes é como falar uma língua diferente da sua linguagem nativa. É difícil, mas essencial. E é papel dos adultos, principalmente dos pais, tomarem a iniciativa de aprender essa nova linguagem emocional”, orienta. 

Ignorar ou ridicularizar esses códigos pode ser mais perigoso do que parece. O risco é deixar passar sinais importantes de vulnerabilidade emocional, muitas vezes sutis, mas que gritam por ajuda. “Esses códigos não são apenas modismos — eles podem ser o único jeito que um jovem encontrou de dizer ‘eu preciso de ajuda’, sem se expor ou ser invalidado”, alerta Pavani. 

Por isso, a escuta atenta e sem julgamento, a disposição para aprender com os mais jovens e o esforço para decifrar esses sinais silenciosos são atitudes urgentes. “Se queremos de fato proteger e apoiar essa geração, precisamos sair da zona de conforto, baixar as barreiras e aprender a falar a língua deles”, finaliza.

  

 

Orlando Pavani - reconhecido antologista dos Referenciais de Exemplaridade da Primazia da Gestão (REPG) e um especialista em Inteligência Comportamental e Cultura Organizacional. Como idealizador do Método Olho de Tigre de Desenvolvimento Humano, Pavani dedica sua carreira a ajudar pessoas a atingirem sua plenitude, promovendo o empreendedorismo protagonista, e a apoiar empresas na busca pela excelência em sua gestão. Essa visão norteia sua trajetória de mais de três décadas como consultor, mentor e educador. Atualmente, Pavani é Diretor Presidente da HOLDING PAVANI, que administra a Gauss Consulting Group e a Olho de Tigre. Além disso, é Consultor Certificado CMC® pelo IBCO/ICMCI e detém outras certificações internacionais em áreas como Business Process Management (CBPP®), Metodologias Ágeis (HCMBOK® to AGILE) e coaching. Pavani também ocupou cargos de destaque, incluindo a presidência do IBCO (2017-2020), consolidando-se como uma referência no cenário da consultoria organizacional no Brasil. Com sólida formação acadêmica, Pavani possui duas titulações de mestrado – uma em Administração Integrada pela Universidade São Francisco e outra em Administração e Desenvolvimento Empresarial pela FACECA –, além de pós-graduações em Economia Empresarial e Medicina Comportamental. Ele complementa sua expertise com certificações em áreas como neurociência aplicada, coaching e Programação Neurolinguística (PNL). Sua trajetória multifacetada é marcada pela busca contínua por conhecimento e pela vontade de transformar vidas e organizações por meio de métodos inovadores e uma visão humanista da gestão.


Amamentação sem filtros: psicóloga alerta para os impactos emocionais das expectativas irreais no pós-parto


A maternidade real raramente se parece com os comerciais de TV — e isso vale, especialmente, para a amamentação. Aline Graffiette, psicóloga e CEO da Mental One, chama atenção para o peso emocional que muitas mulheres enfrentam antes mesmo do bebê nascer. “É muito comum que mães recentes escutem histórias como ‘meu filho mamava muito’, ‘tive leite de sobra’, ‘amamentei até os dois anos’. Poucas falam sobre as dificuldades reais, e isso contribui para a culpa e ansiedade desde o início do processo”, afirma.


Segundo a especialista, a amamentação nem sempre é simples — e quase nunca corresponde à imagem idealizada da mãe tranquila, com o bebê calmo no colo, em um ambiente leve e silencioso. “Criamos a expectativa de reviver a cena da propaganda: seio farto, vínculo mágico, tudo sob controle. Mas a maioria das mulheres enfrenta dor, insegurança, noites mal dormidas e muita pressão emocional. E quando isso não acontece como o esperado, vem o sentimento de falha.”


Para Aline, o impacto emocional é profundo. “A mulher tenta fazer da amamentação um momento mágico. Quando não é, se sente menos mãe. Mas o vínculo com o bebê vai muito além do leite. Ele está no olhar, no toque, no cheiro, na voz, no colo. A amamentação é só uma das ‘perninhas’ de uma cadeira com muitas outras bases. Ela não define o afeto”, explica.


Compartilhando sua própria experiência, a psicóloga relembra como o estresse emocional intenso secou seu leite em 20 dias. “Minha mãe estava em depressão profunda, com ideação suicida. Eu precisava cuidar do meu bebê e da minha mãe. Não tinha como meu corpo responder de forma diferente. Meu filho foi para a fórmula e hoje é um gigante, super vinculado a mim. O leite não é tudo.”


O recado é direto: é preciso tirar o “chantilly” da relação mãe-bebê e parar de glamourizar a maternidade. “A amamentação precisa ser funcional — quando for possível. E, acima de tudo, é preciso estar preparada emocionalmente para lidar com a frustração que pode vir junto. Relaxar não é simples, mas é necessário buscar recursos, apoio, informação e acolhimento para tornar esse momento mais real e menos idealizado.” 


A maternidade precisa ser vista com verdade — não como um conto de fadas. E a amamentação, quando possível, deve ser construída com leveza, não com culpa.


Dia dos Pais: como a presença paterna molda a personalidade dos filhos

 Getty Images
Especialista em comportamento humano aponta fatores que enfraquecem esse vínculo e estratégias para reconstruí-lo

 

Com a chegada do Dia dos Pais, celebra-se não apenas a figura paterna, mas também o impacto profundo que um relacionamento saudável entre pai e filho exerce no desenvolvimento humano. Estudos revelam que laços paternos de alta qualidade estão associados ao maior desenvolvimento da socialização infantil, melhores relações com colegas e maior competência social. Para a especialista em comportamento humano Gisele Hedler, esse vínculo vai muito além da provisão material: ele é um pilar de segurança emocional, autoconfiança e crescimento mútuo, capaz de influenciar positivamente o futuro da criança. 

Hedler ressalta que as crianças estão desde cedo expostas ao "bombardeio das mídias sociais" e conteúdos superficiais que reduzem a capacidade de concentração, pensamento crítico e criatividade — elementos fundamentais para a construção de uma relação sólida com o pai. Essa desconexão digital pode interferir na qualidade do vínculo vivido em família, exigindo presença emocional e diálogos autênticos.

 

O que pode enfraquecer a conexão? 

Vários fatores podem estremecer essa relação e um deles são os estilos parentais autoritários, negligentes ou excessivamente protetores, pois podem gerar insegurança emocional e impacto negativo no bem-estar futuro das crianças. 

Outro fator é o estresse paterno, baixa sensibilidade aos sinais do filho e falta de co-parentalidade, que podem comprometer a formação de vínculos seguros. Gisele também pontua as distrações modernas, como o uso excessivo de redes sociais e conteúdos de baixa profundidade, pois reduzem a presença real e a qualidade da interação entre pai e filho.

 

Como reconstruir e fortalecer a relação?

 

1. Reconectar com presença emocional

Investir em diálogo e em momentos de atenção real com os filhos, desconectando-se do consumo rápido de conteúdos e promovendo empatia.

 

2. Promover interações positivas no dia a dia

Brincar, ler juntos ou compartilhar momentos rotineiros ajudam a criar segurança emocional. Estudos mostram que intervenções simples podem regular melhor o comportamento infantil.

 

3. Estabelecer limites com carinho

A postura autoritativa — que combina afeto com regras claras — contribui para autoestima e cooperação, ao contrário dos extremos da rigidez ou permissividade.

 

4. Fomentar co-parentalidade e reduzir conflitos conjugais

Harmonia entre os cuidadores reforça a segurança emocional da criança e fortalece a relação pai‑filho.

 

5. Buscar apoio emocional se necessário

Quando o vínculo está muito fragilizado, terapeutas familiares ou programas de intervenção podem auxiliar na reparação.

 

Por fim, a especialista ressalta que celebrar a paternidade é reconhecer que ser pai é um exercício diário de escuta, reconhecimento e presença emocional. Um vínculo fortalecido entre pai e filho não garante apenas sucesso acadêmico ou social, mas também impacto duradouro sobre o bem-estar mental, emocional e até mesmo físico da criança ao longo da vida. 

Para Gisele Hedler, não é sobre admirar ou concordar, mas sim sobre estar presente de forma consciente, com atenção e profundidade. Que este dia seja um marco para reacender ou fortalecer esse elo, com afeto, respeito e a construção de memórias que edificam. 



Gisele Hedler:Gisele Hedler - empresária, especialista em comportamento humano e saúde emocional, psicanalista e CEO da Faculdade de Saúde Avançada (FSA), uma das maiores instituições de formação em saúde integrativa da América Latina, voltada à capacitação de profissionais da saúde, com mais de 30 mil alunos.
@giselehedler


78% das crianças de até 3 anos passa de 2 a 3 horas por dia em frente às telas

Levantamento nacional revela que, mesmo reconhecendo os riscos, apenas 4 em cada 10 responsáveis acham que é excessivo tempo em que bebês e crianças pequenas passam diante às telas  

 

As crianças pequenas estão cada vez mais expostas às telas. Segundo a pesquisa “Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida”, realizada pelo Datafolha a pedido da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 78% das crianças de até 3 anos e 94% das de 4 a 6 anos têm contato diário com TV, celular, tablet ou computador. A média de de uso varia entre 2 e 3 horas por dia – mais que o dobro do recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que orienta o limite de 1 hora por dia para crianças com mais de 2 anos. Antes dessa idade, o ideal é que não haja exposição a telas. 

“As telas são uma distração passiva que, em excesso, podem prejudicar o desenvolvimento infantil. Nos primeiros anos de vida, a criança aprende por meio de brincadeiras e atividades interativas. Por isso, é importante basear as aprendizagens iniciais em contextos concretos e relevantes para a criança”, explica Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.



Riscos de exposição 

Mesmo diante do período de exposição elevada, a pesquisa indica que há uma preocupação entre os cuidadores: 40% acreditam que as crianças estão mais tempo diante das telas do que deveriam. Os entrevistados também disseram que essa exposição pode ter consequências 

  • Prejuízos à saúde física (movimento reduzido, visão afetada): 56%
  • Limitação do contato com outras pessoas e atividades: 42%
  • Agitação ou agressividade: 42% 

Por outro lado, parte dos entrevistados acreditam que as telas têm impactos positivos. Manter a criança ocupada (18%), estimular o aprendizado (17%) e acalmar a criança (12%) foram as principais razões apresentadas.
  
“Diversos estudos mostram que há uma relação entre o tempo de tela e o risco de problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão. Além disso, o uso excessivo dessas tecnologias na infância pode afetar negativamente o desenvolvimento infantil, causando problemas como obesidade, isolamento social, dor muscular, déficit de atenção, hiperatividade e queda no rendimento escolar”, pondera Luz.

 

Estratégias para diminuir o uso de telas 

“Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida” também procurou entender como os cuidadores limitam a exposição das crianças nas redes. Questionados sobre as principais alternativas para controlar o uso de telas, as principais estratégias mencionadas são: 

  • Incentivar brincadeiras ao ar livre e atividades físicas: 51%
  • Estabelecer horários fixos para o uso: 47%
  • Limitar o tempo diário de uso: 45%
  • Selecionar e monitorar os conteúdos: 22%
  • Não permitir o uso de telas: 15%

“O desafio não é simplesmente desligar as telas, mas construir com as crianças uma relação mais equilibrada com o tempo, o corpo e o afeto. Promover experiências ao ar livre, brincar junto e conversar são práticas simples e poderosas para um desenvolvimento mais saudável na primeira infância. Não podemos esquecer que, para algumas famílias, o celular pode atuar como uma rede de apoio, uma distração para que a mãe ou cuidadora possa realizar outras tarefas. Não podemos julgar essa mãe, mas oferecer alternativas que substituam isso”, finaliza Luz.



Metodologia 

A pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 10 de abril de 2025 com uma amostra nacional, por meio de entrevistas presenciais em pontos de fluxo populacional. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para a amostra geral e 3 pontos para os responsáveis por crianças. No total, 2.206 entrevistas realizadas (amostra nacional), sendo que 31% são responsáveis pelo cuidado de bebês e crianças de até 6 anos. 

“Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida está" foi lançado hoje, dia 04 de agosto, no Mês da Primeira Infância. 

Acesse a pesquisa completa

 

Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal


Volta às aulas: como apoiar a readaptação das crianças à rotina escolar?

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Educadora orienta famílias sobre os desafios do retorno, a importância da rotina e os impactos do uso excessivo de telas nas férias



Com o fim das férias, alunos de todas as idades enfrentam o desafio da readaptação à rotina escolar. A transição entre um período de horários livres e maior uso de telas e o retorno às aulas pode causar resistência, cansaço, ansiedade e dificuldades de concentração, tanto para os alunos quanto para as famílias. 

Segundo a educadora parental e especialista em infância e adolescência Priscilla Montes, esse é um momento que exige mais presença, escuta e orientação dos adultos. “A volta às aulas não é apenas sobre reorganizar a mochila ou comprar material escolar. É um processo emocional, que pede acolhimento e parceria. A criança precisa se sentir segura para se reconectar com os compromissos, com os vínculos sociais e com os novos aprendizados”, afirma. 

Um ponto que merece atenção neste ano letivo é a lei que restringe o uso de celulares nas escolas públicas e privadas, sancionada recentemente. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, 81% dos brasileiros entre 9 e 17 anos já possuem celular próprio, e o tempo médio de uso entre adolescentes pode ultrapassar quatro horas diárias. Plataformas como WhatsApp, YouTube, Instagram e TikTok estão entre as mais acessadas diariamente. 

“Durante as férias, esse tempo de tela tende a aumentar ainda mais, o que interfere diretamente no sono, na concentração e até na disposição física. O retorno às aulas, sem a presença constante do celular, será também um exercício de presença, escuta ativa e redescoberta das interações reais. E isso pode ser desconfortável no início, mas é essencial para o desenvolvimento saudável”, explica a educadora. 

Para Priscilla, essa mudança de cenário pode gerar resistência, mas também representa uma oportunidade de reencontro com a rotina escolar de forma mais consciente. “O uso excessivo de telas afasta as crianças do tempo presente. E a escola, quando acolhe e propõe vínculos reais, é justamente o espaço para restaurar essa conexão com o agora.” 

Ela reforça que o papel da família é essencial para que esse recomeço aconteça com tranquilidade: “Não adianta esperar que a criança ‘se ajuste sozinha’. A previsibilidade da rotina, os combinados claros e a validação das emoções fazem toda a diferença nessa fase”, ressalta. 

Antes de retomar cobranças por desempenho ou produtividade, a especialista orienta que os adultos priorizem o vínculo e o cuidado. “Uma escuta afetuosa, uma conversa sobre o dia na escola e o reforço das conquistas diárias ajudam a criança a se sentir motivada e segura. A conexão vem antes da correção, sempre!”, afirma.Para um retorno mais leve e consciente, ela dá algumas dicas e orienta:

  • Reorganize gradualmente os horários de sono e alimentação nos dias anteriores à volta às aulas;
  • Converse com a criança sobre as expectativas para o novo semestre e escute como ela se sente em relação a isso.
  • Acompanhe de perto o dia a dia escolar, valorizando os pequenos avanços e fortalecendo o vínculo com a escola.
  • Estabeleça combinados sobre o uso de telas em casa, criando momentos de qualidade offline em família.

Agosto Lilás Psicóloga alerta os sinais silenciosos de violência contra a mulher e como isso pode afetar o cérebro

 

Agosto é o mês da conscientização pelo fim da violência contra a mulher. A campanha Agosto Lilás, criada para reforçar a importância da Lei Maria da Penha, vai além das denúncias formais: é um momento para refletir sobre os tipos de violência que não aparecem nos noticiários, mas deixam cicatrizes profundas — inclusive no funcionamento do cérebro.

A psicóloga e neuropsicóloga Tatiana Serra, especialista em comportamento, destaca que a violência psicológica e emocional, muitas vezes invisível, pode ser tão devastadora quanto a física. “Estamos falando de relações marcadas por humilhação, controle, gaslighting, isolamento social e manipulação afetiva. Isso não deixa roxo no braço — mas pode desorganizar o sistema nervoso e comprometer áreas ligadas à memória, atenção, autoestima e capacidade de tomar decisões”, explica.


A violência que mexe com o cérebro

Tatiana lembra que o cérebro feminino exposto constantemente a ameaças emocionais entra em estado de alerta crônico. “O sistema de defesa se ativa, liberando altos níveis de cortisol. A longo prazo, isso pode levar a quadros de ansiedade, depressão, confusão mental e até alterações cognitivas”, aponta.

Em avaliações neuropsicológicas, a especialista relata que muitas mulheres apresentam queixas de esquecimento, insônia, dificuldade de foco e sensação de estarem 'desconectadas de si mesmas'. “Esses sintomas são comuns em vítimas de abuso emocional. É como se o cérebro estivesse tentando sobreviver a um campo de batalha invisível”, diz.


Sinais de alerta: quando procurar ajuda

Segundo a psicóloga, é importante desconstruir a ideia de que só existe violência quando há agressão física. “Frases como ‘você está louca’, ‘ninguém mais vai te querer’, ‘isso é culpa sua’ são formas de violência que destroem a autonomia emocional da mulher e precisam ser levadas a sério”, destaca.

Tatiana orienta que sinais como:

  • medo constante do parceiro,
  • baixa autoestima repentina,
  • isolamento de amigos e familiares,
  • culpa excessiva e
  • alterações de comportamento

devem ser observados com atenção — por si mesma e pelas pessoas próximas.


Denunciar é importante — mas acolher também é

A especialista reforça que nem sempre a vítima consegue sair da relação de forma imediata, e que o primeiro passo é o acolhimento sem julgamento. “A violência contra a mulher é também um problema de saúde mental pública. Precisamos oferecer espaços seguros, redes de apoio e acesso à psicoterapia, para que ela possa se reconhecer como vítima e se fortalecer emocionalmente”, afirma. 

Tatiana finaliza com um alerta: “Quem vive em uma relação que se diminui, se assusta ou se faz duvidar de si mesma o tempo todo, isso não é amor. É violência e quem sofre disso precisa saber que nunca está sozinha.”


Tatiana Serra, psicóloga e neuropsicóloga - CRP: 06/123778 - Neuropsicóloga pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), graduada em Psicologia pela Universidade Paulista (2014), analista do Comportamento pela Universidade de São Paulo (USP). Experiência de mais de 10 anos em Análise do Comportamento e desenvolvimento de famílias e equipe
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Ser pai é escolher ficar

 

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Não se nasce pai, torna-se pai. Gosto de começar por essa frase porque ela desmonta, de início, a ideia de que a paternidade seja um dado natural ou instintivo.  

Mesmo a maternidade, que tantas vezes começa com sensações físicas — um enjoo, o inchaço, a náusea que precede a consciência da gravidez — não é uma experiência automaticamente subjetiva. Ainda assim, há um corte do real no corpo da mulher. E para o homem? 

Para o homem, esse processo é muito mais sutil, elaborado, psíquico. Porque não existem marcas imediatas no corpo. Há, no entanto, algo tão ou mais profundo: acolher a paternidade. Isto é, implica revolver identificações antigas, arcaicas até, com o próprio pai. É aí que o menino reencontra seu herói, ou aquele que faltou, falhou, silenciou. 

A função paterna é simbólica por excelência: ela é a base do que chamamos cultura patriarcal, estruturada ao redor da figura do pater. Ser pai é ocupar esse lugar. É estar entre dois polos: ser ainda filho, com tudo o que se recebeu (ou não recebeu), e, ao mesmo tempo, espelhar-se como referência para um novo ser que chega ao mundo. 

É por isso que a paternidade pode ser tão angustiante. Tocar esse lugar simbólico nos convoca a nos implicar. E muitos não dão conta. Muitos fogem, “saem fora”, como diz a expressão popular.  

E essa saída, essa desimplicação subjetiva, é um dos silêncios mais profundos da nossa sociedade. Ela reverbera em sintomas: autoritarismos, hedonismos, vícios, adoecimentos psíquicos. O vazio da função paterna cobra seu preço. 

Mas também vejo outros caminhos. Vejo homens dispostos a ocupar esse lugar com presença, com afeto, com escuta. Não se trata de ser um pai perfeito, mas de estar. De poder cuidar, amar, educar, transmitir.  

Para isso, é preciso antes se reconhecer como filho, reconhecer o legado que recebeu, perdoar as falhas possíveis, metabolizar as ausências, para então poder seguir com um novo bastão simbólico. 

É esse movimento que me interessa: o de homens que escolhem assumir a paternidade. Que assumem essa travessia com coragem e delicadeza. Porque, no fim, ser pai é isso: uma construção, uma aposta, uma possibilidade de transmitir amor. 

 

Maria Homem - psicanalista e coautora do livro “Coisa de Menino? Uma conversa sobre masculinidade, sexualidade, misoginia e paternidade”, escrito em parceria com o psicanalista Contardo Calligaris.  


Coração de pai

 

Não é um super-herói, é o meu pai!

 

Ele não usa disfarces, não tem uma vida escondida ou apenas surge nos momentos de perigo. O meu pai não é assim!

 

No coração de um pai pulsa vida para os seus filhos, que são formados para a vida. Um super-herói não troca fraldas, não ensina a andar de bicicleta, não joga bola, não chama a atenção quando necessário, não forma o caráter de um filho, porém um pai, sim. Os pais são os que participam, escutam, cuidam, validam sentimentos e constroem vínculos.

 

“Não se nasce pai, torna-se pai”. Ser pai não é somente gerar uma vida ou colocá-la no mundo, mas sim assumir integralmente a responsabilidade por uma vida. Ao introduzir o filho na experiência da realidade, o coração do pai exerce sua paternidade, tornando o filho capaz de fazer escolhas, de ser livre, e, no momento certo, partir.

 

Eu me recordo do nascimento do meu primeiro filho, Mathias. Quando minha esposa estava para dar à luz no hospital, eu estava lá, vi todo o trabalho de parto. Depois da minha esposa, eu fui o primeiro a segurá-lo. Todo o trabalho de parto, esforço foi feito pela minha esposa, eu mesmo não fiz nada, mas estava lá! O desenvolvimento de meu filho é e será marcado pela minha presença em sua vida.  “A ausência do pai não se mede apenas por sua presença no lar, mas por sua disposição em estar verdadeiramente com o filho” (Guy Corneau).

 

A vida de um pai tem suas exigências. Ele trabalha, e muito, para prover o sustento de sua família, se esforça para ajudar a esposa em casa, procura ser presente ao máximo na vida dos filhos, dentre outras prioridades. Nenhum pai é igual a outro, afinal cada um tem sua personalidade. Mas todos os filhos esperam o mesmo de um pai: atenção e amor! Um filho carente ou problemático em alguma área de sua vida não é somente aquele que sentiu a falta de um pai, mas aquele que não teve espaço para ser visto e acolhido.

 

No nascimento da minha filha, Catharina, eu vivi uma das experiências mais marcantes em minha vida. Diferente da gestação do Mathias, na da Catharina, minha esposa ficou muito enjoada e cansada. Isso exigiu mais de mim em casa, com o Mathias e nos cuidados com ela. De todo modo, Catharina tardou para nascer. Para nossa surpresa, na noite do dia 10 de agosto de 2024, minha esposa começou a sentir dores de parto e o processo foi muito rápido, fazendo com que Catharina nascesse em casa. Eu fiz o parto da minha filha sem doula, enfermeira ou médico. Isso não estava programado, não pensávamos em ter um parto em casa sem qualquer ajuda.

 

Esse exemplo tão marcante em minha vida, mostra que um filho não espera que o pai esteja pronto ou se qualifique para se tornar um excelente pai. Um filho espera que o pai seja pai! Independente dos muitos sentimentos de fracasso, traumas ou de ter feito algo errado, ao ser sincero e aberto, até mesmo sobre as suas próprias imperfeições, o pai revela ao filho o mundo real.

 

São José é um modelo para todos os homens, pais, trabalhadores. Não foi super-herói, mas foi pai adotivo de Jesus (Deus filho). São muitos os “Josés” que podemos reconhecer desta forma, com as características desse grande e humilde santo, apresentando-se com o coração de pai. São José nos faz recordar de todos os que estão, aparentemente, ocultos ou até mesmo em segundo plano, contudo, têm evidência inigualável na história de seus filhos.

 

Um abençoado e marcante dia dos Pais para você. Deus abençoe!

 

 

Thiago Teodoro de Souza - missionário da Comunidade Canção Nova.

 

Relacionar-se sem se anular: como cultivar a autonomia emocional


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Especialista explica como desenvolver esse recurso interno, fortalecer vínculos e identificar sinais de desequilíbrio nos relacionamentos 


Reconhecer e compreender os próprios sentimentos, tomar decisões com base em valores pessoais e manter vínculos afetivos sem abrir mão da própria identidade: esses são aspectos essenciais da autonomia emocional, uma habilidade cada vez mais valorizada em tempos de excesso de comparação e imediatismo nas relações. Desenvolver esse recurso é um caminho para relações mais saudáveis e para o fortalecimento da autoestima, tanto na vida pessoal quanto profissional.
 

De acordo com Talita Rocha, professora do curso de Psicologia da Una, a autonomia emocional é construída ao longo do tempo, com base no autoconhecimento, na capacidade de autorregulação e em vivências de vínculo seguro. “A pessoa emocionalmente autônoma não precisa que o outro diga quem ela é. Ela se conhece, sabe o que sente, entende suas necessidades e tem clareza do que está disposta a negociar ou não dentro de uma relação”, explica. 

A autonomia não anula a afetividade. Pelo contrário, segundo a especialista, ela permite conexões mais genuínas, baseadas na escolha consciente e na confiança. “Relações saudáveis não exigem que uma pessoa se anule pela outra. O vínculo se sustenta justamente quando cada um preserva a própria identidade e se sente livre para expressar suas emoções”, completa.

 

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Como reconhecer a falta de autonomia emocional 

Dificuldade em tomar decisões sem consultar alguém, necessidade constante de aprovação, medo de desagradar ou ser rejeitado, ciúme excessivo e sensação de esvaziamento quando está sozinho são sinais comuns de uma autonomia emocional fragilizada. “É como se a pessoa precisasse do outro para validar a própria existência. Ela vive em função de agradar ou manter o vínculo a qualquer custo, o que pode gerar sofrimento psíquico, baixa autoestima e dependência afetiva”, alerta Rocha. 

Esse padrão pode se manifestar em diferentes contextos, como nas relações familiares, nos relacionamentos amorosos e até no ambiente profissional. Ambientes de criação muito controladores ou superprotetores, traumas emocionais e experiências de abandono podem estar na origem desse comportamento.

 

Construção gradual e possível 

Segundo a especialista, desenvolver a autonomia emocional é um processo individual, mas que pode ser iniciado com atitudes simples no cotidiano. “O primeiro passo é olhar para dentro: reconhecer o que se sente, refletir sobre por que determinadas situações afetam tanto e perceber quais são os próprios limites. A partir disso, é possível começar a dizer ‘não’, fazer escolhas mais conscientes e buscar relações mais equilibradas”, orienta Rocha. 

Outros caminhos importantes incluem cultivar uma rede de apoio saudável, praticar o autocuidado e buscar espaços seguros de escuta e expressão emocional, como a psicoterapia. “A terapia ajuda a reorganizar experiências passadas, ressignificar crenças limitantes e desenvolver uma autoestima mais sólida. Isso fortalece a autonomia e permite que a pessoa se relacione com mais leveza e liberdade”, afirma.

 

Nas redes sociais e no cotidiano 

A pressão estética, a idealização de relacionamentos e o consumo constante de conteúdos nas redes sociais também impactam a autonomia emocional. “A comparação constante e a expectativa de corresponder a padrões irreais podem enfraquecer a percepção de si mesmo. É importante lembrar que cada pessoa tem um tempo e uma trajetória, e que validar suas emoções é fundamental para manter o equilíbrio”, ressalta Rocha. 

Ao compreender que autonomia emocional não significa frieza ou afastamento, mas sim maturidade afetiva e autoconfiança, é possível transformar a forma como nos conectamos com o outro, sem perder de vista quem somos.

 

Centro Universitário Una


Longevidade com propósito: os aprendizados das Blue Zones para uma vida mais longa e significativa

Health Coach Flavia Machioni mergulha na rotina dos centenários da Sardenha e revela como conexões sociais, alimentação natural e um "porquê" de viver são pilares para envelhecer com saúde

 

Muito além da genética, o segredo da longevidade pode estar em escolhas simples e conscientes do dia a dia. É isso que Flavia Machioni, health coach e fundadora do Wellness Hub, mostra ao compartilhar os aprendizados de sua imersão em uma das chamadas Blue Zones — regiões do mundo onde as pessoas vivem mais e melhor. De volta da Sardenha, na Itália, Flavia destaca que propósitos claros, relações sociais profundas e uma alimentação baseada em plantas e ingredientes naturais são fatores determinantes para o envelhecer com saúde, vitalidade e alegria.

 

Ao observar o estilo de vida dos moradores da Sardenha — uma das cinco Blue Zones do mundo, ao lado de Okinawa (Japão), Icária (Grécia), Loma Linda (EUA) e Nicoya (Costa Rica) —, Flavia reforça que longevidade não está ligada a fórmulas complexas, mas sim a hábitos consistentes e alinhados com um senso de propósito. “Ter um motivo claro para levantar da cama todos os dias, manter conexões com a comunidade, amigos e família, e respeitar o ritmo do próprio corpo são atitudes poderosas que impactam diretamente nossa saúde física e emocional”, destaca.

 

Na alimentação, Flavia aponta que o consumo de alimentos frescos, integrais e preparados com simplicidade é um fator comum entre os centenários da região. “Os pratos são à base de legumes, grãos, frutas e azeite de oliva. Comer bem, com presença e em boa companhia, é um ritual diário que nutre o corpo e o espírito”, afirma.

 

Outro ponto essencial é o movimento. Nas Blue Zones, as pessoas não necessariamente praticam exercícios intensos, mas se mantêm ativas com caminhadas, jardinagem, dança e tarefas cotidianas. “É o movimento natural que se integra à vida, sem pressão, mas com constância. Isso ajuda a manter a saúde cardiovascular, a mobilidade e a saúde mental”, completa.

 

Flavia também ressalta a importância de cultivar momentos de silêncio, práticas de gratidão e leveza no dia a dia. Ela defende que longevidade não deve ser apenas uma questão de tempo, mas de qualidade de vida e sentido.



 

Um dos trechos mais marcantes do famoso romance A redoma de vidro, da escritora norte-americana Sylvia Plath, é a cena em que a protagonista se vê sentada sob uma figueira, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir qual figo escolher, já que, na verdade, queria todos. Escolher um significaria abrir mão dos demais, o que para ela era paralisante. Ao final da cena, vemos todos os figos apodrecerem e caírem ao chão. No livro, cada figo representa um objetivo, como se casar, ter filhos, fazer uma viagem internacional ou escolher uma profissão. O drama de Esther nos toca porque poucas coisas são tão humanas quanto a dúvida diante de decisões inevitáveis, sem qualquer garantia. 

Há outra cena comovente no conto A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa. Um dia, o pai do protagonista, de quem não sabemos o nome, entra em sua canoa e passa a morar nela, navegando rio acima e rio abaixo, sem nenhum mantimento. Muitos anos se passam, sua filha vai embora, casa-se e tem filho. Com o tempo, a esposa também parte com a filha para curtir o neto. O outro filho muda-se para longe. Apenas o protagonista permanece, já entrando na velhice, acompanhando a jornada do pai. Ele faz um pedido ousado: que o pai saia da canoa e que troquem de lugar. O pai aceita, mas a reação do filho surpreende — ele é tomado por um tremor profundo, um arrepio de eriçar os cabelos, um grave frio de medo e, então, corre e foge. O pai nunca mais é visto. No fundo, ele não tinha ideia do que realmente estava pedindo e, ao encarar o destino que evocava, acovardou-se e fugiu. 

No primeiro caso, temos um exemplo da dificuldade de tomar decisões; no segundo, como é duro sustentar o peso de uma escolha, especialmente quando ela não conta com o respaldo do desejo decidido — ou seja, quando queremos, mas na realidade não desejamos, como explica o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes. Hoje, no mundo contemporâneo, uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas novas gerações é a de tomar e sustentar decisões, sobretudo aquelas alinhadas com seus desejos e convicções mais íntimos. Por isso, um dos maiores legados que um pai pode transmitir aos filhos é ser, antes de tudo, um exemplo de coragem e, igualmente, ajudá-los a construir uma personalidade ou caráter baseado não no medo, mas na coragem. 

Zygmunt Bauman, em seu livro Medo Líquido, afirma que vivemos em uma época de temores, em que as oportunidades para ter medo estão entre as poucas coisas abundantes, enquanto carecemos de certeza, segurança e proteção. Talvez por isso a coragem, entendida como a capacidade de superar o medo, seja a virtude mais universalmente admirada, conforme sustenta o filósofo francês André Comte-Sponville, em seu livro Pequeno tratado das grandes virtudes.  

Sem dúvida, a coragem de ser corajoso é um dos maiores legados que um pai pode transmitir aos filhos nestes tempos de medos líquidos, nos quais o risco é a única certeza presente em cada pequena ou grande decisão. Como não é possível viver sem decidir, o que podemos ensinar a nossos filhos não é evitar a dúvida e o medo, mas sim ter a coragem de superá-los e tomar boas decisões, guiadas pelas convicções mais íntimas, alicerçadas na mente e no coração. Que a coragem — e não o medo — seja o legado do admirável novo pai a seus filhos, como herança inestimável nessa jornada singular de perseguir o próprio destino — com todos os riscos, mas também com muitas boas surpresas e, quem sabe, com alta voltagem de felicidade. 

 


Francisco Neto Pereira Filho - professor, escritor, psicanalista e pai de dois filhos. Autor de “Olha aquele menino, mamãe!”, utiliza a literatura como ponte entre a arte e a paternidade.


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