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quinta-feira, 10 de julho de 2025

O silêncio dos policiais que desistem de viver

Mais policiais morrem por suicídio do que em confrontos armados — e a sociedade segue em silêncio 

 

No Brasil, há uma realidade que raramente ganha espaço no debate público. Mais policiais morrem por suicídio do que em confrontos armados, seja durante o serviço ou nos dias de folga. Para muitos, o maior perigo não está nas ruas, mas dentro deles mesmos. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2024), a principal causa de morte entre policiais não é a violência que enfrentam externamente, mas aquela que se acumula em silêncio no peito até se tornar insuportável. 

Apesar dessa realidade brutal, o tema segue negligenciado pelo poder público e subestimado pelas próprias instituições. O suicídio policial continua sendo tratado como um caso isolado, e não como sintoma de um sistema que adoece seus integrantes de forma estrutural e constante. 

A carreira policial é, por natureza, estressante e emocionalmente desgastante. Exposição constante à violência, longas jornadas de trabalho, ameaças, risco de morte e o desprezo de uma sociedade que exige muito, mas pouco reconhece, moldam a trajetória mental de quem veste a farda ou distintivo. 

Há, ainda, um peso mais insidioso: a cultura de invulnerabilidade imposta pelas instituições. Desde o início da formação, o policial é ensinado a resistir a tudo — dor, frio, fome, medo — sem jamais demonstrar fragilidade. O mito do “herói indestrutível” sufoca qualquer tentativa de acolhimento ou cuidado com a saúde mental. Falar sobre sofrimento ainda é visto como sinal de fraqueza. 

Essa cultura se agrava em estruturas hierárquicas rígidas, onde o medo de punição, rebaixamento ou desqualificação impede o profissional de pedir ajuda. O resultado é previsível: traumas silenciados, sinais de esgotamento e, muitas vezes, explosões. Contra si ou contra os que estão ao redor. 

A violência institucional não está apenas nas ruas. Dentro das corporações, muitos policiais enfrentam assédio moral, humilhações de superiores, transferências arbitrárias e perseguições disfarçadas de correções disciplinares. A instabilidade das escalas, a ausência de critérios objetivos para promoções e a falta de perspectiva de crescimento alimentam a desesperança. 

Há também o fator financeiro. Baixos salários fazem com que muitos policiais façam bicos nos dias de folga para complementar a renda, aumentando o desgaste físico e mental. Lazer torna-se privilégio, e convívio familiar, exceção. Nesse ciclo, corpo e mente se esgotam, sem chance de recuperação. 

Além disso, dívidas crescentes, uso abusivo de álcool, dependência de medicamentos e acesso facilitado a armas tornam qualquer crise emocional uma tragédia anunciada. 

A rede de apoio psicológico é quase inexistente. Quando há atendimento, costuma ser pontual, sem continuidade, e realizado por profissionais que muitas vezes não têm formação específica em saúde mental ocupacional ou traumas complexos. 

A ausência de dados confiáveis sobre tentativas de suicídio agrava o problema. As instituições policiais têm estruturas fechadas e pouca transparência. Não há protocolos padronizados de acompanhamento psicológico nem diretrizes claras de prevenção. A cifra negra é regra, não exceção. 

E o mais alarmante: muitas vezes, as próprias chefias são orientadas a tratar os casos com discrição excessiva — o que perpetua o estigma, apaga as estatísticas e impede a construção de políticas públicas eficazes. 

Romper o ciclo de silêncio é urgente. Não se trata apenas de implementar “programas de apoio psicológico”, mas de reformular a lógica de cuidado nas forças de segurança. É necessário:

• Núcleos permanentes e independentes de saúde mental, com atendimento contínuo e sigiloso;

• Protocolos institucionais claros de prevenção ao suicídio;

• Formação de gestores para identificar sinais de sofrimento e agir com empatia;

• Campanhas internas que promovam o cuidado como sinal de força — não de fraqueza;

• Revisão de escalas, plantões e políticas de promoção, valorizando o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. 

Cuidar de quem cuida é a escolha de reconhecer que nenhuma instituição sobrevive sem humanidade. Investir na saúde mental dos policiais vai além de garantir segurança pública – é afirmar que toda vida tem valor, inclusive a daqueles que dedicam a própria vida para proteger as outras. 

Porque, antes de qualquer farda ou distintivo, existe um ser humano que precisa continuar existindo. E ninguém deveria caminhar sozinho pelo próprio abismo.

 


Raquel Gallinati - Delegada de Polícia, Mestre em Filosofia (PUC-SP), Diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil


 

Merck abre inscrições para o Programa de Estágio 2025

  • Com foco na formação de talentos, a empresa oferece 20 vagas em Tecnologia Farmacêutica, Controle de Qualidade, Saúde Ocupacional, Finanças e Comunicação;
  • Inscrições vão até 30 de julho, e posições estão disponíveis em Barueri (SP), Cajamar (SP) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 A Merck, líder global em ciência e tecnologia, abre inscrições para o Programa de Estágio 2025, com oportunidades nas cidades de Barueri (SP), Cajamar (SP) e Rio de Janeiro (RJ). A empresa, que é a farmacêutica mais antiga do mundo, está presente há mais de 100 anos no Brasil, com escritórios e laboratórios em Barueri, uma fábrica no Rio de Janeiro, e um time de campo espalhado em todo o país. 

“Queremos construir uma empresa cada vez mais inclusiva e conectada com o futuro, pois acreditamos que ambientes plurais enriquecem as relações e, principalmente, impulsionam a inovação e os negócios”, afirma Franciele Ropelato, diretora de RH da Merck no Brasil. “Nosso programa de estágio é pensado para refletir nossa visão de ‘Inspirar a Descoberta, Elevar a Humanidade’, trazendo impacto real na vida dos brasileiros”, reforça a executiva. 

Os candidatos devem ter formação prevista entre dezembro de 2027 e julho de 2028, nos cursos de Administração, Biologia, Biomedicina, Biotecnologia, Ciências Contábeis, Ciências da Computação, Comunicação, Economia, Engenharia Elétrica, Engenharia, Farmácia, Matemática, Engenharia Mecânica, Mecatrônica, Química, Relações Internacionais e Tecnologia da Informação. As oportunidades contemplam áreas operacionais e administrativas da empresa.
 

The FutURe Project: saúde emocional para Geração Z e Millenials

A pesquisa The FutURe Project, conduzida pela Merck com cerca de 9.300 jovens da Geração Z e Millenials, revelou que 60% consideram a saúde emocional um dos aspectos mais importantes de suas vidas. “Além desse tema estar intrinsicamente ligado ao nosso trabalho diário e ao nosso propósito em saúde, esses dados reforçam a importância de programas corporativos que valorizem o bem-estar desses profissionais que estão ingressando no mercado de trabalho e enfrentam um mundo mais incerto economicamente e socialmente do que algumas gerações anteriores”, comenta Ropelato.

O Programa foi estruturado para proporcionar uma experiência completa de desenvolvimento, com mentorias, trilhas de aprendizagem e participação em projetos de aceleração profissional. Além da bolsa-auxílio, os estagiários contam com uma série de benefícios, como assistência médica e odontológica, vale-transporte, vale-refeição ou acesso a refeitório no local, conforme a localidade do estágio.

“Nós acreditamos que grandes transformações começam com pessoas dispostas a fazer a diferença e descobrir o novo. Para nós, não há nada pequeno demais no que fazemos, e nosso Programa de Estágio é uma porta de entrada para quem deseja construir o futuro da ciência e da saúde no Brasil”, reforça Ropelato.

As etapas de seleção ocorrem entre julho e setembro, e o início do estágio está previsto para dezembro de 2025.

 

Programa de Estágio Merck 2025

Período de inscrições: até 31 de julho de 2025

Requisitos: candidatos com previsão de formação entre 12/2027 e 07/2028 dos cursos Administração, Biologia, Biomedicina, Biotecnologia, Ciências Contábeis, Ciências da Computação, Comunicação, Economia, Engenharia Elétrica, Engenharia, Farmácia, Matemática, Engenharia Mecânica, Mecatrônica, Química, Relações Internacionais e Tecnologia da Informação.

Link para inscrição: Link




Merck
acesse www.merck.com.br
Facebook (@grupomerckbrasil), Instagram (@merckbrasil) e LinkedIn (Merck Brasil).

 

Como preparar o ambiente de TI para a adoção da IA generativa de forma segura e escalável

Dois dos combatentes que se tornaram símbolo da luta constitucionalista foram sepultados no Cemitério da Consolação


A IA generativa está transformando a forma como empresas conduzem seus processos e se relacionam com os clientes – onde sua adoção começou. Agora, quanto mais a IA também tem sido usada em processos de negócios, como análise de dados, previsão de tendências e suporte em decisões estratégicas, mais as empresas precisam se preparar para que a inserção dessa nova tecnologia não se torne um problema no futuro.  

Não se trata apenas de empregar uma tecnologia inovadora, mas de assegurar que sua implementação seja feita de modo consistente. Nesse sentido, vale lembrar que cada empresa possui demandas específicas em termos de segurança cibernética, conformidade na governança de dados e robustez de infraestrutura. Ao observá-las de forma integrada, é possível explorar todo o potencial da IA generativa sem comprometer a estabilidade e a reputação do negócio. 

E, para isso, é necessário considerar três pilares: segurança cibernética, governança de dados e infraestrutura — antes de integrar essa inovação.

 

Segurança da informação: preocupação constante

O primeiro deles, o desafio de cibersegurança, é um problema em nível global. No Brasil em especial, os executivos estão conscientes dos riscos: a pesquisa Global Digital Trust Insights 2025, conduzida pela PWC, apontou que 68% dos tomadores de decisão brasileiros têm a percepção de que a IA aumenta a superfície de ataque. Isso significa que, com a IA generativa, surgem vetores de ataque mais complexos e imprevisíveis, tornando as organizações potencialmente mais vulneráveis. Ainda de acordo com a mesma pesquisa, ao menos 74% dos CEOs no Brasil acreditam que a IA generativa provavelmente aumentará o risco de cibersegurança. A média global é de 64%.  

Em termos de prontidão, porém, muitas empresas brasileiras ainda estão estruturando seus programas de segurança para IA. Tecnologias modernas de defesa (como monitoramento de modelos em produção, detecção de deepfakes) começam a ser adotadas pelas grandes empresas no país, enquanto nos EUA e Europa já há iniciativas maduras focadas em segurança de modelos de IA. Regulamentações em discussão (no Brasil, o PL 2338/2023; na UE, o AI Act) também influenciam: na Europa, por exemplo, espera-se obrigatoriedade de proteção contra ataques, e requisitos de cibersegurança por projeto para sistemas de IA de alto risco – nosso país tende a seguir padrões similares de exigência no futuro.  

Do ponto de vista ofensivo, criminosos podem usar IA generativa para automatizar e aprimorar ataques cibernéticos. Por exemplo, a tecnologia permite criar phishing altamente personalizado e convincente, imitando comunicações de fontes confiáveis. A tecnologia também viabiliza a geração de deepfakes – vídeos ou áudios falsos de executivos – usados em fraudes de engenharia social. Outras ameaças incluem a criação automatizada de malware adaptativo e a busca por vulnerabilidades zero-day em códigos usando algoritmos de IA. 

Do lado defensivo, vale notar que a IA generativa também pode auxiliar na cibersegurança – por exemplo, na análise de padrões de ataque ou na automação de respostas a incidentes. Porém, o consenso global é que os riscos superam as vantagens se não houver preparo adequado. Empresas no Brasil e no mundo estão aumentando investimentos para lidar com esses desafios: 80% dos executivos brasileiros afirmam ter ampliado investimentos em gestão de riscos e governança de IA nos últimos 12 meses (vs. 72% globalmente) de acordo com o estudo da PWC. Ou seja, há um movimento forte para aprimorar a resiliência cibernética diante da IA generativa, seja adotando frameworks de gestão de risco, seja aprimorando ferramentas de proteção.

 

Governança de dados: ainda precisamos avançar

Implementar IA generativa de forma responsável requer uma sólida governança de dados. Isso envolve lidar com exigências regulatórias, aderir a frameworks de conformidade e superar desafios práticos na gestão de dados usados por modelos de IA. Diferentemente da governança tradicional de TI, a governança de IA abrange aspectos de ética, transparência e accountability no uso de algoritmos e dados. Dentro dessa perspectiva, duas frentes são críticas: atender às leis e regulações aplicáveis e estabelecer processos internos que garantam qualidade e uso adequado dos dados. 

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) impõe obrigações rígidas sobre coleta, armazenamento e uso de dados pessoais. Isso significa que projetos de IA generativa devem, desde a concepção, incorporar princípios de privacidade por design, assegurando finalidade específica, minimização de dados e consentimento para uso de informações pessoais. O não cumprimento dessas regras pode levar a multas severas e danos reputacionais. 

Além da LGPD, está em tramitação o Marco Legal da IA (PL nº 2338/2023), que estabelece diretrizes gerais para o desenvolvimento e aplicação de IA no país. Embora ainda não aprovado, esse projeto de lei já sinaliza direitos que as empresas deverão respeitar, como: direito à informação prévia (informar quando o usuário está interagindo com um sistema de IA), direito à explicação das decisões automatizadas, direito de contestar decisões algorítmicas e direito à não-discriminação por vieses algorítmicos. 

Esses pontos exigirão que empresas implementem transparência nos sistemas de IA generativa (por exemplo, deixando claro quando um texto ou resposta foi gerada por máquina) e mecanismos de auditoria para explicar como o modelo chegou a determinada saída. 

A Europa também está endurecendo a regulamentação sobre a IA. O EU AI Act classifica sistemas de IA em categorias de risco (mínimo, limitado, alto e inaceitável) e impõe requisitos proporcionais. Modelos de uso geral e IA generativa (como grandes modelos de linguagem) deverão cumprir obrigações de transparência e segurança adicionais.  

Por exemplo, fornecedores de modelos genéricos serão obrigados a realizar avaliação de riscos dos sistemas, documentar rigorosamente os modelos (incluindo fornecer resumos dos dados de treinamento e garantias de conformidade com leis de direitos autorais) e reportar incidentes graves. Também há exigências de indicar quando conteúdo é gerado por IA – a UE demandará etiquetagem de deepfakes e aviso aos usuários ao interagirem com chatbots, por exemplo. 

Os Estados Unidos não contam com uma legislação específica, mas o NIST AI Risk Management Framework orienta as empresas a adotarem princípios de governança semelhantes, focando em transparência, equidade e accountability. 

Apesar dessas referências, na prática muitas empresas enfrentam desafios de implementação de governança na IA generativa. Um estudo recente no Brasil revelou que 98% das organizações não possuem uma estrutura abrangente de governança para IA generativa. Ou seja, apenas 2% têm algo próximo de um framework completo atualmente. Além disso, menos de 5% oferecem treinamento avançado em governança e monitoramento de IA para suas equipes.

 

Infraestrutura tecnológica para IA generativa

Um estudo recente realizado pela Cisco apontou que 74% dos gestores de TI brasileiros devem aumentar a capacidade de processamento, com mais GPUs em data centers para suportar futuras cargas de IA. Em ambientes on-premises, isso pode significar adquirir clusters de servidores equipados com múltiplas GPUs e interconectados por redes de alta velocidade (por exemplo, redes InfiniBand de 100 Gbps ou mais, para garantir baixa latência entre nós de processamento). Já em ambientes de nuvem, as empresas estão optando por instâncias otimizadas para ML oferecidas pelos fornecedores de nuvem pública, nas quais é possível alugar GPUs por hora. 

A decisão entre construir infraestrutura local ou usar a nuvem é estratégica. A nuvem oferece elasticidade – ou seja, recursos podem ser escalados sob demanda, o que é ideal para projetos de IA com carga variável ou experimental. Além disso, fornecedores de nuvem mantêm o hardware atualizado, liberando a empresa do ônus de atualizações frequentes. No contexto de IA generativa, onde novas arquiteturas e chips aparecem rapidamente, essa agilidade é um ponto forte. No Brasil, muitas empresas estão adotando a nuvem híbrida: mantêm alguns recursos on-premises (por questões de soberania de dados ou latência local) e alavancam nuvens públicas para picos de processamento ou para acessar recursos avançados indisponíveis internamente.  

Contudo, a nuvem traz preocupações com custos de longo prazo (o uso intensivo de GPUs pode gerar contas elevadas se não houver planejamento) e localização dos dados – empresas reguladas às vezes precisam garantir que dados sensíveis fiquem em data centers localizados em solo nacional.  

No Brasil, embora as grandes corporações (bancos, telecom, etc.) tenham orçamentos de TI significativos, historicamente o investimento em HPC (computação de alta performance) era voltado para segmentos específicos. Com a explosão da IA generativa, vemos uma corrida para atualizar a infraestrutura: em 2024, 54% dos líderes de TI brasileiros se consideravam apenas moderadamente preparados, no máximo, quanto à infraestrutura para IA, e quase metade admite limitações de escalabilidade em seus ambientes atuais​​. Ou seja, há um terreno a evoluir. Ainda assim, 62% das empresas no Brasil já figuram entre os perfis mais avançados (pacesetters ou chasers) em prontidão de infraestrutura de IA – um número ligeiramente menor que a média global, mas próximo.  

Isso indica que o Brasil não está muito atrás na adoção de infraestrutura moderna, ainda que a lacuna de topo exista (empresas globais de tecnologia operando no país têm vantagens).  

Em síntese, a adoção de IA generativa com foco em segurança cibernética, governança de dados e infraestrutura sólida tem o potencial de impulsionar a competitividade das empresas brasileiras em um cenário cada vez mais orientado pela inovação. Embora haja desafios, como a necessidade de ampliar frameworks de governança, alinhar políticas internas às regulamentações, e investir em infraestrutura de alta performance, observa-se um movimento consistente de amadurecimento no país. Cada organização deve analisar suas demandas específicas, seja priorizando a proteção de dados pessoais, estabelecendo processos de auditoria e transparência ou ampliando a capacidade computacional para lidar com algoritmos de última geração.



Atilla Arruda - diretor de Vendas da Solo Network

Solo Network
www.solonetwork.com.br


35 anos de ECA: guarda compartilhada e os desafios do melhor interesse da criança

Maior legado do Estatuto é justamente colocar a criança no centro das decisões, como sujeito de direitos, com prioridade absoluta e proteção integra

 

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 35 anos no próximo dia 13 de julho. Desde sua promulgação em 1990, o Brasil passou a adotar uma doutrina de proteção integral à infância e à adolescência, reconhecendo crianças e adolescentes como sujeitos de direitos. Um dos avanços mais significativos impulsionados por esse novo paradigma foi a consolidação da guarda compartilhada, que vem ganhando força nos últimos anos como modelo preferencial nas decisões judiciais de família. 

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2014, em 85% dos divórcios a guarda dos filhos ficava com a mulher; em 2022, a porcentagem caiu para metade e o índice de guarda compartilhada passou de 7,5% para quase 38% dos casos. A lei de guarda compartilhada foi implementada no Brasil há 11 anos e definiu que os pais dividam a responsabilidade e a tomada de decisões sobre os filhos após a separação ou o divórcio. 

Antes considerada exceção, a guarda compartilhada tornou-se regra quando ambos os genitores estão aptos ao convívio e à tomada conjunta de decisões. “Houve uma evolução da guarda unilateral, antes tida como padrão, para a guarda compartilhada, que se baseia no princípio do melhor interesse da criança. Esse princípio, inicialmente interpretativo, ganhou força como critério concreto e prioritário”, explica Otavio Pimentel, sócio-fundador do PHR Advogados e especialista em Direito de Família e Sucessões. 

A legislação atual não apenas estimula a corresponsabilidade entre os pais, mas também reconhece que o direito de convivência pertence à criança — e não ao genitor. “A guarda compartilhada é vista pela maioria dos operadores do direito como a melhor alternativa para garantir o pleno exercício da parentalidade. A divisão de responsabilidades e o exercício conjunto dessas funções fortalecem os laços familiares mesmo após a separação”, afirma o advogado. 

Nos últimos anos, tem crescido o entendimento de que a convivência equilibrada, com a criança dividindo seu tempo entre os dois lares, tende a favorecer seu desenvolvimento emocional e social. “A distribuição equilibrada do tempo de convívio entre os genitores, ao contrário do antigo modelo de residência fixa e direito de visita, tem se mostrado mais benéfica. O foco passa a ser o bem-estar da criança, não a conveniência dos adultos”, ressalta Pimentel. 

Apesar dos avanços, a implementação prática da guarda compartilhada ainda enfrenta desafios, como a resistência de algumas famílias e a falta de estrutura do Judiciário para fiscalizar o cumprimento dos acordos. “No campo da guarda compartilhada, há um visível fortalecimento do princípio do melhor interesse da criança, impulsionado pelo ECA. A evolução é contínua, e a expectativa é que os tribunais sigam consolidando essa diretriz”, diz o especialista. 

Ao celebrar os 35 anos do ECA, o maior legado do Estatuto é justamente colocar a criança no centro das decisões, como sujeito de direitos, com prioridade absoluta e proteção integral. Modelos jurídicos como a guarda compartilhada são reflexos diretos desse marco civilizatório, que ainda segue em construção dentro e fora dos tribunais. 



Fonte:
Otavio Pimentel - sócio co-fundador do Pimentel, Helito & Razuk Advogados (PHR Advogados) com atuação especializada em Direito de Família e Sucessões, ex-membro assessor do Tribunal de Ética da OAB-SP e ex-professor em Planejamento Sucessório na FK Partners.


O que o Banco Imobiliário e outros jogos de tabuleiro podem ensinar sobre educação financeira às crianças?

 Nova lei endurece punições por maus-tratos contra idosos e pessoas com deficiência: um avanço histórico

Defensor Público André Naves destaca que a lei representa um marco na luta pela dignidade e proteção das populações mais vulneráveis do Brasil 

 

Acaba de ser sancionada a Lei nº 15.163/2025, que eleva as penas para crimes de abandono e maus-tratos cometidos contra idosos e pessoas com deficiência. A nova legislação altera o Código Penal e os estatutos que protegem esses grupos, representando um reforço legal importante na garantia da dignidade humana. Para o Defensor Público Federal André Naves, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, a lei “é uma resposta concreta a um problema estrutural de nossa sociedade e uma reafirmação dos compromissos constitucionais com a justiça social”. 

A nova lei aumenta a pena básica para abandono e maus-tratos, de 6 meses a 3 anos, para até 5 anos de prisão. Em casos com lesão corporal grave, a punição sobe, variando de 3 a 7 anos; e, nos casos que resultam em morte, a reclusão pode chegar a 14 anos. A nova regra também veda o uso dos Juizados Especiais Criminais (Lei nº 9.099/95) para esses crimes, impedindo benefícios penais que poderiam suavizar a responsabilização dos agressores. 

“Essa lei vem corrigir uma distorção histórica: o tratamento brando dado a crimes gravíssimos cometidos contra pessoas que, muitas vezes, não conseguem se defender sozinhas”, afirma André Naves. Segundo ele, além do aumento das condenações, a nova legislação tem efeito educativo e simbólico, reforçando o pacto social de respeito e solidariedade para com idosos e pessoas com deficiência. 

O Defensor Público chama atenção, porém, para a necessidade de fiscalização quanto à aplicação das punições: “É fundamental que as instituições de acolhimento, amigos, parentes, vizinhos, todos estejam atentos e denunciem os maus-tratos que, porventura, chegarem ao seu conhecimento. A sociedade precisa se mobilizar para cobrar dos órgãos de Justiça a correta aplicação da lei; e o poder público deve também promover ações educativas e preventivas. A punição é um passo importante, mas precisamos atuar de forma ampla para garantir ambientes seguros e inclusivos”. 

Com uma trajetória marcada pela defesa das minorias e promoção da equidade, André Naves reitera que o Brasil avança ao tratar com mais seriedade os direitos dos idosos e PCDs, mas lembra: “As leis devem vir acompanhadas de políticas públicas estruturantes. É isso que transforma a realidade”. 

Para saber mais sobre o trabalho do Defensor Público André Naves, acesse o site: andrenaves.com ou acompanhe pelas redes sociais: @andrenaves.def.

 

O que o Banco Imobiliário e outros jogos de tabuleiro podem ensinar sobre educação financeira às crianças?

De princípios básicos do dinheiro a raciocínio lógico e habilidades sociais, jogos podem oferecer momentos de aprendizado e conexão em família

 

Com a chegada das férias escolares, pais e responsáveis encontram uma oportunidade para incentivar atividades que combinam aprendizado e diversão. Muitos jogos de tabuleiro, sejam tradicionais ou adaptados, oferecem experiências interativas que ensinam os princípios básicos do dinheiro, ao mesmo tempo que estimulam o raciocínio lógico e a tomada de decisões. Dessa forma, contribuem para a construção de uma consciência financeira desde cedo. 

“Brincar é a linguagem natural da infância, e quando incorporamos conceitos financeiros nesse contexto, o aprendizado ganha mais significado. Jogos de tabuleiro mostram, de forma prática e envolvente, que o dinheiro é um recurso limitado, que exige escolhas conscientes e responsabilidade”, afirma Thaíne Clemente, executiva de dados da Simplic, fintech de crédito pessoal online. 

Segundo a executiva, ao enfrentar situações como poupar, investir ou assumir riscos durante a brincadeira, a criança desenvolve uma mentalidade financeira que a acompanhará por toda a vida. “Mais do que uma simples brincadeira, os jogos de tabuleiro estimulam o diálogo sobre dinheiro dentro de casa e criam um ambiente propício para aprender errando”, completa Thaine. 

A seguir, a especialista elencou algumas dicas e jogos que podem transformar as férias em momentos de aprendizado em família. Confira:

 

Banco Imobiliário

Clássico entre os jogos de tabuleiro, ele ensina sobre compra, venda e aluguel de propriedades. A criança aprende conceitos como investimento, retorno financeiro e gestão de patrimônio. Também desenvolve a noção de risco e recompensa, já que decisões precipitadas podem levar à falência no jogo — um reflexo direto do mundo real.

 

Jogo da Mesada

Voltado especialmente para o público infantil, esse jogo ensina sobre o recebimento de uma quantia mensal e a importância de saber administrar esse valor. Ao longo do jogo, surgem despesas inesperadas e oportunidades de ganhar mais dinheiro, o que exige planejamento e tomada de decisões. É uma forma simples e eficiente de introduzir o conceito de orçamento pessoal.

 

Cashflow (Fluxo de Caixa)

Criado por Robert Kiyosaki, autor do livro Pai Rico, Pai Pobre, o jogo é mais elaborado, indicado para crianças maiores e adultos. Ele ensina sobre investimentos, ativos, passivos e como sair da “corrida dos ratos”, ou seja, da dependência do salário mensal. É ideal para jogar em família e discutir estratégias financeiras de maneira prática.

 

Jogos cooperativos com temas econômicos

Títulos como Mysterium e Ilha Proibida promovem o pensamento estratégico, a comunicação e o trabalho em equipe, habilidades essenciais para a gestão financeira familiar. Embora não abordem diretamente conceitos financeiros, esses jogos reforçam a importância do planejamento conjunto e da tomada de decisões coletivas para alcançar metas sustentáveis e fortalecer os vínculos entre pais e filhos.


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Cyberstalking: especialista indica o que fazer para evitar a perseguição virtual

Tema ganhou destaque após biomédica ter perfil fake criado em sites de relacionamento; prática de stalking é crime no Brasil

 

Você já ouviu falar em cyberstalking? O termo une as palavras inglesas cyber e stalking. Cyber está associada ao universo cibernético, ou seja, à internet. Já a prática de stalking inclui atos de perseguição persistente a alguém e configura crime, incluído no Código Penal em 2021 com a promulgação da Lei nº 14.132. Criação de perfis falsos por terceiros, rastreio de atividade online ou localização física de alguém sem permissão, excesso de comentários em postagens nas redes sociais ou envio exagerado de mensagens indesejadas são exemplos de cyberstalking. 

Recentemente uma biomédica paranaense foi alvo desse tipo de crime. Nesse caso, que foi noticiado pelo Domingo Espetacular, da Record, a vítima, que não teve o nome revelado, teve perfis falsos, contendo fotos e dados pessoais, inscritos em sites de relacionamento. Ela registrou o boletim de ocorrência na delegacia, e a autora do crime, atual namorada do ex da vítima, foi descoberta e autuada por falsa identidade e crime de perseguição. 

Para evitar cair em ciladas como essa, entrevistamos o especialista em relacionamento Caio Bittencourt, da plataforma MeuPatrocínio. “Fazer boas escolhas na vida para se proteger de pessoas mal intencionadas é sempre importante, na vida online não seria diferente. Para garantir sua segurança e privacidade, é preciso saber fazer escolhas certas e não se expor demais. Fique atento a sinais estranhos, como pessoas pedido dados sensíveis, como documentos, endereço, fotos íntimas ou qualquer coisa que você não se sinta confortável em enviar. Se surgir desconfiança, interrompa a conversa e procure profissionais do assunto, quem entenda de práticas abusivas e até autoridades se de fato for constado cyberstalking”, resume Caio. 

Abaixo detalhamos as cinco dicas consideradas fundamentais pelo especialista para aumentar a segurança online. Confira: 

  1. Evite compartilhar informações pessoais, como endereço, local de trabalho ou telefone, em plataformas de relacionamento ou redes sociais, sempre ajustando as configurações de privacidade para que tenham acesso a seus dados apenas pessoas próximas a você.
  2. Procure não enviar fotos por mensagem, sobretudo imagens privadas e íntimas, porque, caso a pessoa que receba as fotos seja mal intencionada, isso pode favorecer que ela te manipule ou chantageie em algum momento, mesmo que futuramente, ameaçando tornar as fotos públicas.
  3. Mantenha a atenção com suas conversas virtuais: caso você se torne vítima de cyberstalking, é crucial documentar todas as provas, especialmente aquelas com ameaças ou abusos, pois elas podem ser decisivas para um boletim de ocorrência junto às autoridades e medidas protetivas.
  4. Ao perceber que pessoas desconhecidas começam a interagir com você em redes sociais ou até por telefone, desconfie que um possível perfil falso tenha sido criado. Procure a delegacia de repressão a crimes cibernéticos para adotar as medidas necessárias e denunciar os perfis.
  5. Se detectou uma situação abusiva, não interaja mais com quem está te perseguindo, isso pode encorajar ainda mais o stalker; em vez disso, bloqueie o contato, denuncie o perfil na plataforma e busque a devida assistência tanto de familiares e amigos quanto judicial e psicológica. 

“Na internet, há muitas pessoas com intenções ótimas e dispostas a um relacionamento respeitoso, transparente e que some com o outro. Vale a pena conhecer pessoas assim. O que não vale é se arriscar”, finaliza o especialista.

 

Caio Bittencourt - especialista em relacionamentos do MeuPatrocínio.com


O que o Brasil deve aprender com a China?


Não é de hoje que a China vem chamando a atenção do mundo com seu crescimento acelerado e forte investimento em inovação e tecnologia. Mas, qual é o seu segredo e, o que o Brasil pode – e deve – aprender com este país? Foi isso que tentei descobrir em uma imersão por cidades como Pequim, Xangai e Guangzhou.

Primeiramente, vale uma rápida volta ao tempo.  Em 1995, o PIB do Brasil era de aproximadamente US$ 769 bilhões, enquanto o da China era de US$ 735 bilhões. Curiosamente, esse foi o último ano em que a economia brasileira superou a chinesa. Desde então, a China se tornou uma potência, consolidando-se como a segunda maior economia do mundo. Na época, os dois países eram, basicamente, exportadores de commodities.

Tanto que, em 2000, o PIB da China era de aproximadamente US$ 1,2 trilhão, enquanto o do Brasil girava em torno de US$ 645 bilhões – quase dobrou em apenas cinco anos. Na época, a economia chinesa já era impulsionada por reformas econômicas e industrialização, enquanto o Brasil enfrentava desafios como inflação e ajustes fiscais.

Para entender essa guinada na economia chinesa, precisamos avaliar o contexto de cada país na década de 90. No Brasil, vivíamos a redemocratização com a constituição de 1988; a primeira eleição direta após a ditadura militar, que culminou no impeachment de Fernando Collor; a implementação do Plano Real, em 1994, que controlou a hiperinflação que chegava a quase 2.000% ao ano; a onda de privatizações, como Vale e Telebras; além da globalização do mercado, com maior entrada de investimentos estrangeiros no país.

Na China, após a morte de Mao Tsé-Tung, Deng Xiaoping consolidou sua transição para uma economia de mercado, que eles batizaram como “socialismo ao estilo chinês”, com taxas de crescimento anual superior a 8%. O país se tornou um grande polo de manufatura, atraindo investimentos estrangeiros e fortalecendo sua posição como "fábrica do mundo". Ali, o país deixou de exportar apenas commodities, incluindo produtos de maior valor agregado.

Boa parte deste fenômeno, se deve à criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE), que são áreas com políticas e regulamentações diferenciadas – como isenções fiscais, taxas alfandegárias reduzidas e regulamentações comerciais mais flexíveis em comparação com o resto da China – visando atrair investimento estrangeiro e promover o desenvolvimento econômico. A abertura ao mundo também se deu com a entrada na OMC – Organização Mundial do Comércio, em 2001.

Para atender aos padrões internacionais, a China se tornou líder mundial em certificações ISO. Em 2000, o país tinha 25.657 certificações ISO 9001, de gestão da qualidade. Em 2022, esse número saltou para 579.447 – um crescimento de 2.258%. O Brasil, no mesmo período, o número foi de 6.719 para 17.589 – um crescimento de 262%. Ou seja, a China cresceu 10 vezes mais.

Mais preparado para vender ao mundo, o país viveu uma grande abundância de empregos, o que fez com que milhões de pessoas migrassem do campo para as cidades em busca de oportunidades. Hoje, a China é o país com o maior número de metrópoles, registrando 19 cidades com mais de 5 milhões de habitantes. A demografia é uma das vantagens competitivas, tendo uma população de 1.42 bilhão de habitantes. No Brasil, somos em 220 milhões.

Óbvio que nem tudo são flores por lá. O Partido Comunista Chinês exerce forte controle sobre a sociedade, o que representa uma linha tênue entre expansão econômica e liberdade de expressão. A população chinesa está envelhecendo rapidamente, o que pode afetar a força de trabalho. A guerra comercial e as sanções impostas pelos Estados Unidos também são um desafio.

Ainda assim, em 2024, o PIB do Brasil cresceu 3,4%, chegando a R$ 2,18 trilhões. Já o PIB da China cresceu 5,4%, com US$ 18,27 trilhões, mantendo-se como a segunda maior economia mundial. Em suma, de 1995 a 2024, o PIB do Brasil cresceu 283%, enquanto o da China, 2.485%.

O motivo? Com certeza, não há um único. Mas, algumas pistas nos mostram como dois países que tinham o mesmo desempenho econômico em 1995, têm realidades completamente diferentes 30 anos depois. O que mais chama atenção é o fato de que a China tem planos de longo prazo, estruturado principalmente em planos quinquenais, que cobrem períodos de cinco anos e definem metas estratégicas para o desenvolvimento econômico e social do país. Além disso, o governo chinês também estabelece objetivos de desenvolvimento para 15 anos, como o plano de crescimento sustentável até 2035, garantindo continuidade e, ao mesmo tempo, adaptação às mudanças globais.

Outro diferencial é a educação, conhecida por seu rigor, disciplina e seletividade. O sistema educacional é estruturado em diferentes níveis, com exames complexos para avançar de etapa. Para entrar no ensino secundário, os estudantes precisam passar pelo exame Xiaokao. Depois de três anos, enfrentam o Zhōngkao, que define se irão para o ensino médio ou para escolas profissionalizantes. Para ir para a universidade, é preciso enfrentar o Gaokao, um exame nacional considerado um dos mais difíceis do mundo.

Mais bem preparada, a mão de obra do país tem mais capacidade de inovar. Os chineses são tradicionalmente inovadores, tendo sido os criadores do papel, pólvora, bússola, porcelana, impressão, papel moeda e até do macarrão – que muitos pensam ser italiano. O país investe em exploração espacial, veículos elétricos, tecnologia de vigilância, varejo, internet e vem assumindo protagonismo na era da IA.

Não à toa, a China é o país que com maior formação de profissionais STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics). Por ano, são formados 1.5 milhões de engenheiros. Nos EUA, são cerca de 250 mil. No Brasil, 100 mil. O país também lidera na formação de doutores. Em média, são 50 mil, contra 700 mil nos EUA e 15 mil no Brasil.

Resumindo, a China deixa lições importantes ao Brasil no que tange educação e planejamento. Basicamente, o segredo do sucesso por lá foi o tripé: cultura, processos e tecnologia. Primeiro, o investimento na formação das pessoas. Depois, em processos e padrões, o que faz com que os chineses sejam altamente produtivos e eficientes. Não por acaso, o PIB cresceu 10 vezes em 30 anos – a mesma proporção do crescimento em certificações ISO. Com uma base forte, fica muito mais simples desenvolver tecnologia que vai automatizar, escalar e acelerar resultados positivos. Ao que tudo indica, a fórmula está aí. É uma questão de testar e adaptar à nossa realidade. 



Alexandre Pierro - mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.


Digitalização de prontuários médicos deve aumentar com pressão de leis estaduais


Nos últimos anos, diferentes estados brasileiros têm aprovado leis que incentivam a digitalização de prontuários médicos, estabelecendo prazos claros para fornecimento de cópias e ampliando o direito de acesso dos pacientes e familiares a essas informações. Essas iniciativas, alinhadas à legislação federal existente, vêm pressionando hospitais a modernizar seus sistemas de registro, eliminar o papel e adotar prontuários eletrônicos para garantir compliance jurídico, segurança de dados e eficiência operacional. 

A Lei Estadual nº 10.867/2021, do Rio Grande do Norte, foi uma das primeiras a abordar diretamente a obrigatoriedade de fornecer um mini prontuário ao paciente ou a seu representante legal ao final do atendimento. Em 2023, o estado de Goiás sancionou a Lei nº 21.904, que determina o fornecimento de cópias do prontuário médico em até 10 dias úteis, com possibilidade de prorrogação para 20 dias mediante justificativa formal. Mais recentemente, em 2025, o estado do Rio de Janeiro aprovou a Lei Estadual nº 10.676/2025, que trouxe avanços importantes ao detalhar os prazos máximos para entrega (cinco dias corridos para cópia completa e dois dias úteis para documentos digitais), ampliar o direito de solicitação a familiares e proibir cobranças indevidas. 

Outros estados também estão em movimento. Em Roraima, tramita desde 2024 o PL 49/2024, que propõe acesso eletrônico ao prontuário por meio de plataformas seguras. No Tocantins, o PL 53/2025 busca viabilizar a criação de um sistema digital de disponibilização dos prontuários da rede pública. Em São Paulo, o PL 108/2025 também caminha nessa direção, embora ainda esteja em tramitação. 

Esse movimento legislativo descentralizado mostra que, mesmo com diretrizes federais como a Lei nº 13.787/2018 e a LGPD, as leis estaduais têm exercido um papel importante na regulação prática do acesso aos prontuários e na pressão para que as instituições de saúde adotem soluções de digitalização certificada, indexação estruturada, guarda segura e rastreabilidade.

 

Impactos práticos para os hospitais: do papel ao digital por obrigação legal

As novas leis estaduais e federais sobre acesso a prontuários têm impactos diretos na operação das instituições de saúde. Atender aos prazos legais – muitas vezes de apenas dois a cinco dias – exige mais do que boa vontade: requer mudanças estruturais na forma como os prontuários são armazenados e acessados. 

A primeira consequência prática é a aceleração da digitalização. Hospitais que ainda trabalham majoritariamente com arquivos em papel dificilmente conseguirão responder às solicitações dentro do prazo legal sem digitalizar seus acervos. Com a nova lei do Rio de Janeiro, por exemplo, acompanhantes já têm o direito de solicitar a digitalização dos prontuários durante a internação – e, se o hospital não estiver preparado, o paciente pode simplesmente fotografar os documentos. Em vez de adiar, a migração para o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) se torna inevitável. 

Atualmente, apenas 23% dos hospitais no Brasil usam esse tipo de sistema de forma plena, o que revela um enorme espaço para avanço.

Mas digitalizar não basta. Os prontuários precisam estar estruturados e indexados para garantir que sejam localizáveis rapidamente – mesmo após anos. Com o direito ampliado de acesso por familiares e o surgimento de demandas por históricos antigos, é essencial contar com sistemas de gestão documental capazes de organizar grandes volumes de informação e integrá-los a soluções como o SUS Digital. A interoperabilidade não é mais uma tendência: é uma exigência de conformidade. 

Além disso, a digitalização traz ganhos tangíveis ao permitir a eliminação legal do papel. Segundo a Lei Federal 13.787/2018, prontuários podem ser digitalizados com certificação e, depois disso, descartados. Isso reduz o espaço físico necessário, os custos de armazenagem e os riscos de extravio ou deterioração. Hospitais como o Heliópolis (SP) já digitalizaram dezenas de milhares de prontuários antigos justamente para evitar perdas irreparáveis e otimizar recursos.

 

Benefícios da digitalização para compliance e eficiência

Diante das novas exigências legais e da pressão por eficiência, a digitalização certificada de prontuários médicos deixou de ser apenas uma resposta regulatória — tornou-se uma estratégia indispensável de compliance e operação hospitalar. 

Hospitais que adotam sistemas digitais completos conseguem responder com agilidade às solicitações de acesso, evitando sanções e fortalecendo a imagem institucional. Um prontuário digital pode ser localizado em segundos e entregue por e-mail, dentro dos prazos exigidos por leis estaduais. Isso só é possível com um processo de digitalização certificado, que garanta validade jurídica conforme a Lei 13.787/2018 e normas do CFM. Além disso, ao aplicar certificação digital e armazenar os arquivos de forma segura, a instituição se desobriga de manter o documento físico — o que reduz custos e libera espaço. 

Outro benefício crítico é a segurança da informação. Prontuários digitais permitem controle de acesso, rastreabilidade e criptografia — elementos essenciais para atender à LGPD e evitar vazamentos. Do ponto de vista operacional, a digitalização também melhora a qualidade do atendimento. Médicos acessam rapidamente o histórico do paciente, exames e anotações, o que evita retrabalho e permite decisões clínicas mais rápidas e precisas. Isso reduz filas, repetições de exames e melhora o giro de pacientes. Mesmo com o investimento inicial, os ganhos são evidentes: economia com papel, espaço físico, pessoal de arquivo e aumento da capacidade produtiva. 

Em conclusão, as iniciativas legislativas regionais, aliadas à legislação federal vigente, estão impulsionando uma modernização sem precedentes nos prontuários médicos no Brasil. Trata-se de um caminho sem volta rumo ao hospital digital: um cenário em que pacientes, médicos e gestores terão informação clínica acessível, segura e útil na ponta dos dedos, substituindo pastas empoeiradas por telas eficientes. 

Mais do que cumprir a lei, essa evolução representa uma oportunidade de ouro para o setor de saúde aprimorar sua eficiência e humanização, colocando a tecnologia a serviço da vida. E, como costuma acontecer nas inovações, quem sair na frente nesse processo certamente terá vantagem – seja na gestão, seja na confiança do paciente. As leis estão dadas; cabe agora às instituições de saúde fazerem o dever de casa e colherem os frutos da era do prontuário digital.


Inon Neves - vice-presidente da Access

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