Implementar protocolos e diretrizes clínicas,
investir em capacitação da equipe/corpo clínico e utilizar sistemas de informações
que facilitem o preenchimento correto do prontuário, são alguns fatores
eficazes para evitar as ocorrências
O
Brasil registrou, em 2023, cerca de 25 mil processos por ‘erro médico’ – ou
danos materiais/morais decorrentes da prestação de serviços de saúde,
denominação que passou a ser adotada neste ano pelo Judiciário. O volume
representa alta de 35% em relação a 2020, segundo dados do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ).
A
advogada especializada em direito médico, Brenda Viglioni, atribui este cenário
a uma série de fatores complexos que, segundo ela, envolvem a relação entre
profissionais da área, seus pacientes, bem como o sistema de saúde em si. “Em
primeiro lugar, há, nos últimos anos, uma crescente conscientização dos
pacientes sobre seus direitos, bem como a busca por reparação em casos de danos
materiais ou morais decorrentes da prestação de serviços.”
Ainda
conforme a especialista, a expansão da medicina de alta complexidade e
tecnologia avançada traz consigo maiores riscos e desafios, o que pode resultar
em erros médicos involuntários. “A pressão por resultados rápidos e a
sobrecarga de trabalho dos profissionais de saúde também podem influenciar
negativamente na qualidade do atendimento e no aumento de incidentes adversos”,
analisa. Para exemplificar seu argumento, Viglioni destaca não ser incomum,
planos de saúde e/ou instituições da área determinarem um tempo máximo para
atendimento/consulta do paciente, comprometendo assim a anamnese, o
preenchimento do prontuário, o diagnóstico e a terapêutica a ser empregada.
A
advogada explica que os erros médicos mais comuns se referem,
basicamente, a falhas na identificação correta da condição médica do paciente, o que inclui diagnósticos equivocados, atrasados ou incompletos, prescrição e administração incorreta de medicamentos, além das falhas cirúrgicas, que contemplam procedimentos desnecessários ou inadequados, cirurgias executadas em locais distintos ao previsto, complicações não previsíveis em pós-operatórios, entre outras. “As especialidades médicas mais processados no Brasil são aquelas de maior complexidade, como ginecologia e obstetrícia, oftalmologia, anestesiologia, neurologia, oncologia, dermatologia, cirurgia plástica e cirurgias em geral”, cita.
Penalidades
Brenda
Viglioni afirma que as sanções aplicadas para o médico ou a instituição de
saúde diante de um caso constatado de erro médico, variam de acordo com a
gravidade da ocorrência e podem ser previstas em três esferas: administrativa,
civil e criminal. “No campo administrativo, é possível a aplicação de multas e
penalidades por órgãos reguladores ou autoridades de saúde. Pode haver ainda a
suspensão ou revogação de licenças. Na esfera civil, médicos e instituições
estão sujeitos a serem responsabilizados civilmente por dados causados a
pacientes, sendo impelidos a pagar indenizações por danos materiais, morais ou
à saúde.”
Como evitar
A
especialista em direito médico indica uma série de recomendações às
instituições de saúde no sentido de evitar o erro médico. O primeiro passo,
segundo ela, é implementar protocolos e diretrizes clínicas. “Essa prática
garante a uniformidade e qualidade do atendimento, sem, é claro, deixar de
observar casos que mereçam um atendimento personalizado. Garante ainda que os atos
médicos sejam realizados de acordo com as melhores práticas e evidências
científicas disponíveis”, pontua.
Outra
orientação da profissional é que as unidades de saúde jamais abram mão de
capacitar, treinar, reciclar e atualizar o corpo clínico, bem como seus
auxiliares e ainda todo e qualquer colaborador. “Estimular a comunicação
aberta, acessível, clara e objetiva com paciente; e a comunicação interna entre
os colaboradores, além da chamada comunicação oficial em eventos adversos para
identificar e corrigir falhas antes que resultem em danos é, também, uma
prática que deve ser incorporada às rotinas”, cita.
Utilizar
tecnologias e sistemas de informações que facilitem o preenchimento correto do
prontuário, a prescrição de medicamentos, e que sejam capazes de emitir alertas
quanto a possíveis danos e condutas; e realizar auditorias e avaliações de
qualidade para identificar possíveis falhas, propor soluções e implementar
processos seguros, são outras condutas necessárias, conforme Brenda, para
minimizar as chances de erros médicos. “Não posso deixar de citar que o
desenvolvimento de planos de gerenciamento de riscos, voltados para detectar e
mitigar potenciais fontes de erros é crucial. Nesse sentido, o compliance
médico orienta os profissionais sobre as práticas que devem ser adotadas,
cumprindo assim as regulamentações que norteiam a profissão”, destaca
acrescentando que, em casos de processos confirmados ou ainda danos materiais
e/ou morais decorrentes de prestação de serviço de saúde, os documentos adequados
e válidos juridicamente serão a melhor linha de defesa da equipe médica, sendo
imprescindíveis – neste caso - a anamnese, o prontuário preenchido de forma
clara e detalhada, contrato de prestação de serviços, dentre outros.
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