O cuidado adequado e contínuo, iniciado
precocemente, é essencial para garantir qualidade de vida e prevenir
complicações ao longo da vida
Outubro marca o Dia Mundial da Paralisia Cerebral, movimento de conscientização e apoio às pessoas que vivem com a condição, além de suas famílias e cuidadores1. Considerada um grupo de distúrbios que engloba dificuldade de movimentação e rigidez muscular ou postural (espasticidade)2, a paralisia cerebral (PC) costuma ser resultado de uma lesão no cérebro ainda em formação – durante a gestação, parto ou na primeira infância. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registra cerca de 30 mil novos casos por ano3.
De acordo com a neuropediatra e fisiatra, Carla Caldas, embora a condição não piore com o tempo, ela pode impactar algumas funcionalidades. “A PC não progride, mas os sintomas podem mudar à medida que a criança cresce. Sem cura, o cuidado multidisciplinar precoce e constante é fundamental para aumentar a qualidade de vida e independência dos pacientes”, explica.
Entre os fatores de risco da paralisia cerebral estão a falta de oxigenação no cérebro (hipóxia), a prematuridade, infecções durante a gestação e traumatismos. A especialista avalia que o diagnóstico precoce ainda é um desafio, mesmo com os avanços em neuroimagem e nas ferramentas de avaliação do desenvolvimento. “Faltam protocolos de triagem e profissionais capacitados para aplicar avaliações mais modernas”, ressalta a médica.
Os sintomas e o grau de comprometimento variam conforme a extensão e a área do dano neurológico. Existem diferentes tipos de paralisia cerebral, como a espástica (marcada por rigidez muscular), a discinética (movimentos involuntários), a atáxica (problemas de equilíbrio e coordenação) e formas mistas, que combinam mais de uma característica4. “Alguns pacientes apresentam apenas leve desequilíbrio, enquanto outros podem ter limitações motoras graves, o que exige órteses, andador ou cadeira de rodas. Também não podemos deixar de pontuar os impactos cognitivos”, explica a neuropediatra.
O tratamento da PC deve ser contínuo e adaptado a cada fase da vida. “A reabilitação envolve uma equipe multiprofissional, podendo contar também com tecnologias assistivas e medicamentos”, conta a especialista.
Com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a condição e combater a
desinformação, a especialista explica a seguir alguns mitos e verdades sobre a
paralisia cerebral:
“A paralisia cerebral sempre piora com o tempo”
Mito. A PC é uma condição não progressiva, portanto o que pode mudar ao longo dos anos são os sintomas e suas consequências, que precisam de acompanhamento constante. “Falamos que é uma encefalopatia não progressiva, mas com consequências dinâmicas.
O
paciente pode desenvolver dor crônica, rigidez muscular e perda de mobilidade
se não houver reabilitação adequada”, explica a Dra. Carla. Segundo ela, o uso
regular da toxina botulínica tipo A e o ajuste de equipamentos de assistência,
como órteses e cadeiras de rodas, ajudam a manter a funcionalidade mesmo na
fase adulta.
“O tratamento precisa ser ajustado ao longo dos anos”
Verdade. O manejo precisa
ser ajustado a cada fase da vida. “Na adolescência e na vida adulta, as
demandas mudam. Surgem desafios como dor crônica, fadiga, perda de força e
dificuldades psicossociais — escolarização, trabalho, sexualidade e
independência. O acompanhamento contínuo é o que garante qualidade de vida e
evita complicações”, afirma a médica.
“A espasticidade é inevitável e não tem tratamento”
Mito. A rigidez
muscular, típica da forma espástica da PC, pode ser controlada com terapias
adequadas. “A toxina botulínica tipo A é um dos tratamentos mais consolidados
para reduzir a espasticidade e a distonia. Ela melhora a amplitude dos
movimentos, o conforto e até atividades como caminhar, se vestir e se
alimentar”, explica Carla. O tratamento, porém, deve ser combinado com
fisioterapia e acompanhamento multidisciplinar. “Após a aplicação, o paciente é
reavaliado e novas doses podem ser feitas a cada três meses, conforme a
necessidade”, completa.
“Com cuidado multidisciplinar e suporte familiar, é possível viver ter mais qualidade de vida”
Verdade. “Quando há
diagnóstico precoce, acesso a terapias e apoio familiar, o paciente pode
atingir um alto nível de funcionalidade e inclusão. A reabilitação regular, o
uso de tecnologias assistivas e o controle da espasticidade com toxina
botulínica A são pilares para que ele conquiste autonomia e bem-estar ao longo
da vida”, pontua a Dra. Carla.
“O diagnóstico precoce é essencial”
Verdade. Detectar
precocemente a PC faz toda a diferença no desenvolvimento do paciente. “O
diagnóstico precoce permite iniciar terapias direcionadas ainda nos primeiros
meses de vida, quando o cérebro está em intensa fase de plasticidade. Isso pode
mudar completamente o prognóstico motor e cognitivo”, destaca a neuropediatra.
A especialista ressalta que ferramentas como a General Movements Assessment
(GMA) e o exame neurológico de Hammersmith têm acurácia de até 95% em bebês de
risco. “Infelizmente, no Brasil, ainda são poucos os profissionais capacitados
para aplicá-las, o que atrasa o início da reabilitação”, finaliza.
Referências
1 WORLD CEREBRAL PALSY DAY. Home: World Cerebral Palsy
Day. Disponível em: Link.
Acesso em: 24 ago. 2025.
2 BRASIL. Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia
cerebral. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: Link.
Acesso em: 03 out. 2025.
3 BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em
Saúde (BVSMS). Unicamente PC: 06/10 – Dia Mundial da Paralisia Cerebral.
Brasília: BVSMS. Disponível em: Link.
Acesso em: 6 out. 2025.
4 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à
Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Diretrizes de atenção
à pessoa com paralisia cerebral. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.
Disponível em: Link.
Acesso em: 6 out. 2025.
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