Há
cerca de uma semana, a megaoperação conduzida no Complexo do Alemão e na Penha
(Rio de Janeiro), no Rio de Janeiro, deixou um rastro visível de violência e
morte — e um impacto silencioso, porém profundo sobre a saúde mental de
moradores, testemunhas, agentes de segurança e socorristas.
Segundo
o neurocirurgião e neurocientista Dr. Fernando Gomes, professor livre-docente
da FMUSP, “vivenciar tiroteios, ver corpos nas ruas, ouvir helicópteros,
conviver com o medo constante equivale a ativar mecanismos de sobrevivência no
cérebro — e esses mecanismos não se desligam automaticamente depois que o tiro
para”.
Os
delitos urbanos recorrentes e operações de grande escala em favelas já estão
associados a elevado risco de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)
entre residentes e profissionais de segurança. Um estudo entre policiais no Rio
encontrou prevalência de cerca de 16,9 % para TEPT completo e 26,7 % para
sintomas parciais.
Quanto tempo o trauma pode durar?
Dr.
Fernando Gomes explica que não há “prazo fixo” para o trauma se dissipar —
depende de diversos fatores individuais, contextuais e de suporte social. Ele
destaca:
- Nos casos leves, sintomas como insônia, irritabilidade,
hipervigilância ou flashbacks podem durar semanas a alguns meses se houver
intervenção precoce.
- Se não acompanhados, esses sintomas podem evoluir para TEPT
crônico, que persiste por anos, gera consequências físicas — como
distúrbios do sono, hipertensão, dores crônicas — e psicológicas — como
retraimento social, medo persistente e dificuldade de retomar a vida
normal.
- Fatores de risco para duração maior incluem: falta de apoio social,
exposição prolongada à violência, histórico de traumas, ausência de
tratamento e sensação de injustiça ou impunidade.
“Uma
semana depois da operação ainda estamos no ‘fase aguda’ do trauma. Mas para
muitos a curva de recuperação começa aí — e o que se faz nas próximas semanas
será decisivo para evitar sequelas de longo prazo”, afirma Gomes.
Dicas práticas para superar o impacto psicológico
O
médico neurocientista sugere um protocolo de cuidados imediato para quem esteve
exposto à operação ou convive diretamente em áreas de risco:
- Reconhecer os sinais:
dificuldade para dormir, sustos com barulhos, reviver cenas, evitar sair
de casa, sensação de insegurança constante. A negação apenas prolonga o
sofrimento.
- Criar rotina tranquila:
alimentação regular, sono em ambiente escuro e calmo, redução de cafeína e
estimulantes, diminuição de consumo de notícias violentas — especialmente
à noite.
- Movimento corporal leve:
caminhadas diárias ou alongamentos ajudam a “dissipar” a adrenalina em
excesso no corpo. O cérebro precisa entender que a
ameaça acabou.
- Espaço para fala:
conversar com alguém de confiança sobre o que viu ou sentiu; participar de
grupos comunitários ou apoio psicológico caso o recurso esteja disponível.
- Exposição gradual à realidade:
voltar a caminhar pela rua, retomar atividades, mas sem pressa.
Permitir-se sentir insegurança e enfrentar aos poucos.
- Buscar ajuda profissional: se
após 4-6 semanas os sintomas persistirem ou se agravarem, buscar psicólogo
ou psiquiatra especializado em trauma. O tratamento precoce reduz o risco
de cronicidade.
- Identificação de gatilhos:
barulho de helicóptero, sirene, explosão de fundo — ao identificá-los,
praticar técnicas de respiração ou ancoragem (por exemplo: “meu corpo está
seguro agora”).
- Construir segurança pessoal:
reforçar a sensação de proteção no lar, com fechaduras, iluminação,
contato com vizinhos — o cérebro que viveu em ambiente ameaçador precisa
de sinais de que agora está protegido.
Óleos essenciais que auxiliam no cuidado emocional pós-trauma
Daiana
Petry, aromaterapeuta, naturóloga e especialista em neurociência explica que
certos óleos possuem efeito direto sobre o sistema límbico, região do cérebro
responsável pelas emoções, memória e comportamento, ajudando a reduzir o estado
de hipervigilância e a ansiedade persistente e destaca os principais óleos com
ação mais eficaz em quadros pós-traumáticos:
Lavanda (Lavandula angustifolia)
O
mais estudado para estados de estresse e insônia. Possui propriedades
ansiolíticas e sedativas naturais, comprovadas em estudos clínicos. A inalação
diária de lavanda reduz níveis de cortisol e promove sensação de segurança e
calma — fundamental para quem vive sob alerta constante.
Como usar: 2 a 3 gotas em difusor pessoal ou 1 gota em
algodão para respiração profunda durante crises de ansiedade.
Laranja-doce (Citrus sinensis)
Um
óleo que atua no humor, estimulando a produção de serotonina e dopamina.
Indicado para quadros de apatia, medo, tristeza e isolamento, comuns após
situações traumáticas.
Como usar: Como usar: 3 gotas em difusor de ambiente ou
1 gota difusor pessoal.
Camomila-romana (Chamaemelum nobile)
Composto
rico em esteres com efeito calmante, é indicada para pessoas que sofrem de
irritabilidade, insônia, ataques de pânico e flashbacks. A camomila ajuda a
“baixar o tom” do sistema nervoso simpático, promovendo relaxamento e sono
reparador.
Como usar: 1 gota em base vegetal para massagem na nuca
ou no peito antes de dormir.
Rosa (Rosa damascena)
Símbolo
de acolhimento e amor próprio, o óleo essencial de rosa ajuda a reconstituir o
vínculo emocional consigo mesmo, frequentemente rompido após traumas. Atua como
ansiolítico natural, ajudando em crises de choro, culpa ou desesperança.
Como usar: Diluir 1 gota em 5 ml de óleo vegetal e
aplicar sobre o coração ou pulsos.
Vetiver (Vetiveria zizanioides)
Conhecido
como o “óleo do aterramento”, é altamente eficaz em casos de pânico, medo,
agitação mental e insônia profunda. Seu aroma terroso ajuda a reconectar corpo
e mente, trazendo sensação de segurança e presença.
Como usar: 1 gota diluída em óleo vegetal nos pés antes
de dormir, ou 2 gotas em difusor no quarto.
Cedro-do-Atlas (Cedrus atlantica)
Indicado
para quem sente despersonalização, confusão mental e desconexão emocional após
trauma. O cedro oferece sensação de proteção, força e estabilidade — muito
usado em protocolos para veteranos e vítimas de desastres.
Como usar: 3 gotas em difusor de ambiente ou 1 gota
misturada à lavanda para inalação noturna.
Dr.
Fernando ainda enfatiza que os efeitos psicológicos dessas operações excedem o
indivíduo: “Quando uma comunidade inteira testemunha violência, o trauma se
torna coletivo. Crianças, adolescentes, adultos — todos compartilham o efeito
da hipervigilância. Ignorar isso é deixar o trauma virar legado.”
Ele conclui com um apelo: “É imprescindível que gestores públicos, serviços de saúde e segurança pública reconheçam que a restauração da segurança física não é suficiente. A segurança emocional e mental precisa entrar na resposta à crise.”
Daiana Petry - Aromaterapeuta, perfumista botânica, naturóloga e especialista em neurociência. Professora dos cursos de formação em aromaterapia, perfumaria botânica e psicoaromaterapia. Autora dos livros: Psicoaromaterapia, Cosméticos sólidos e Maquiagem ecoessencial. Fundadora da Harmonie Aromaterapia.
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@daianagpetry
Dr. Fernando Gomes - Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. Há 12 anos atua como comunicador, já tendo passado pela TV Globo por seis anos como consultor fixo do programa Encontro com Fátima Bernardes (2013 a 2019), por um ano (2020) na TV Band no programa Aqui na Band como apresentador do quadro de saúde “E Agora Doutor?” e dois anos (2020 a 2022) como Corresponde Médico da TV CNN Brasil. Atualmente comanda seu programa Olho Clínico com Dr. Fernando Gomes semanalmente no Youtube desde 2020. É também autor de 9 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é neurocirurgião em hospitais renomados e também coordena a Unidade de Hidrodinâmica Cerebral relacionada ao diagnóstico, tratamento e pesquisa de doenças como Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN) e Hipertensão Intracraniana Idiopática (HII ou pseudotumor cerebral) no Hospital das Clínicas.
drfernandoneuro
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