Quando escolhi a medicina como carreira, foi por vocação. Eu
queria cuidar de pessoas, entender suas histórias, aliviar dores e contribuir
para uma vida mais equilibrada e saudável. Mas, ao longo da carreira, percebi
que, no Brasil, ser médico vai muito além do cuidar das pessoas no consultório.
Gerir uma clínica exige lidar com burocracia, folha de pagamento, fornecedores,
fluxo de caixa, equipe, marketing e tecnologia, uma carga que, muitas vezes,
rouba o tempo e a energia que deveríamos e gostaríamos de dedicar somente ao
paciente.
E essa não é uma dificuldade exclusivamente minha, mas sim um
desafio que atinge e onera boa parte dos meus colegas, que precisam cuidar dos
seus próprios negócios. Nos últimos dez anos, tenho conversado com muitos deles
e os relatos se repetem: dias exaustivos, burnout e dificuldade em manter o
equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. É um ciclo que mina o propósito
de quem escolheu a profissão para cuidar da saúde e do bem-estar das pessoas e,
ironicamente, acaba por se afastar, justamente, do cuidado com a nossa própria
qualidade de vida. Prova disso é que segundo último estudo divulgado
pelo Sebrae, 60% das clínicas médicas fecham em até cinco anos,
sendo a má gestão responsável por 54% dos casos, mostrando que a
administração inadequada pode ser um fator importante de estresse para médicos
empreendedores.
Durante muito tempo, sentia que minha agenda era dominada por
assuntos administrativos, que a consulta estava ficando cada vez mais curta e
que o vínculo com o paciente estava se perdendo. Além, claro, de questões
técnicas, como o abastecimento de medicamentos, pagamento de fornecedores e
funcionários, fluxo de caixa, entre outros fatores que como empresários,
precisamos lidar. Foi nesse momento que percebi que realmente não existe medicina
de qualidade sem uma boa gestão. É como qualquer outro negócio (mas, cá entre
nós, a faculdade de medicina e os cursos da área estão longe de nos preparar
para essa realidade).
Quando organizamos processos, criamos previsibilidade financeira e
estruturamos equipes de apoio, abrimos espaço para o médico ser, de fato,
médico. Com o tempo, entendi que uma clínica bem administrada não é aquela que
fatura mais, mas sobretudo a que permite que o profissional atue com tempo,
escuta e presença.
Hoje, enxergo a gestão como um ato de autocuidado. Cuidar da
clínica é cuidar do meu tempo, da minha saúde mental, da experiência e da saúde
do meu paciente. E, principalmente, é permitir que cada consulta tenha a
atenção que merece e que eu possa exercer a medicina de forma mais humana,
completa e integrada, possível.
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