Entre 2011 e 2022, a taxa de suicídio
entre jovens brasileiros cresceu, em média, 6% ao ano, enquanto a Síndrome de
Burnout já afeta cerca de 30% dos trabalhadores, colocando o Brasil entre os
países com mais casos no mundo. 
Especialista em trauma avalia o peso da cultura do desempenho
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A chamada cultura do desempenho tem se consolidado como um dos traços mais marcantes da vida contemporânea. O ideal de produtividade máxima, muitas vezes romantizado como sinal de excelência, tem levado indivíduos a níveis extremos de autoexigência, ansiedade e adoecimento. O que poderia ser um incentivo ao crescimento transforma-se em um terreno fértil para o sofrimento psicológico e, em casos graves, para a exaustão e até suicídio.
De acordo com a psicóloga clínica e organizacional Bruna Madureira, PhD em Psicologia, especialista em trauma e com mais de 15 anos de experiência em instituições como a Força Aérea Brasileira, o Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio e áreas de Recursos Humanos, a questão ultrapassa o campo individual e precisa ser compreendida dentro de um contexto social. “É notável que o que inclui e exclui dentro dos parâmetros sociais é a performance. Quem entrega alto, custe o que custar, incluindo aqui a exaustão, burnout, ansiedade e depressão, recebe aplauso e é reconhecido por isso. A sociedade não legitima quem performa incluindo o seu equilíbrio emocional, até porque pode ser que essa atitude “atrase” uma entrega (será que o prazo da entrega é humano?). Essa lógica é violenta, porque desconecta as pessoas de si próprias e, consequentemente, das suas necessidades, inclusive emocionais. Nesse contexto, a pessoa não vai conseguir acessar a sua potência e entregar toda a sua capacidade. E aí que a empresa perde muito sem nem se dar conta.”
Ela explica que justamente esse padrão de cobrança infinito pode se configurar como uma experiência traumática. “Quando alguém passa a se relacionar consigo mesmo como se fosse uma máquina, anulando sinais de cansaço e ignorando os limites do corpo e da mente, cria-se um terreno fértil para o trauma. O sujeito internaliza a pressão como se fosse parte da sua identidade, e não apenas uma circunstância externa”, destaca.
No Brasil, o Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio, reforça a importância de discutir os impactos dessa cultura de hiperdesempenho. Um estudo realizado pelo Cidacs/Fiocruz Bahia, em colaboração com a Universidade de Harvard e baseado em dados oficiais do Ministério da Saúde, revelou que, entre 2011 e 2022, a taxa de suicídio entre jovens de 10 a 24 anos cresceu, em média, 6% ao ano, enquanto os registros de autolesão aumentaram 29% ao ano. Esses números assustadores mostram como a pressão por resultados afeta de forma intensa as novas gerações, que ainda estão em processo de formação pessoal e profissional. “O resultado é uma sensação interna de incapacidade, insuficiência e desajuste. Ou seja, impessoaliza o desempenho descontextualizando-o totalmente da engrenagem social extremamente adoecedora e incapacitante", explica Bruna.
Outro dado alarmante vem do mundo do trabalho: a Síndrome de Burnout,
reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença ocupacional, já afeta
cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros, segundo levantamento da Associação
Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), o que coloca o Brasil como o segundo
país com mais casos diagnosticados globalmente, atrás apenas do Japão. Essa
estatística evidencia como ambientes de alta competitividade e metas
inatingíveis podem adoecer não apenas executivos, mas também profissionais da
saúde, da educação e jovens universitários.
O peso invisível da solidão
Um dos efeitos silenciosos da cultura do desempenho é o
isolamento. Bruna Madureira explica: “A solidão é uma das consequências
silenciosas da cultura do desempenho. A pessoa se convence de que precisa dar
conta sozinha, e isso a distancia de relações onde poderia encontrar cuidado,
escuta e pertencimento. Somos mamíferos e o nosso cérebro só se desenvolve na
relação com outro ser humano. A cultura do desempenho e da performance nos
ensina a ver o outro como um inimigo a ser eliminado, logo eu aprendo a não
contar com ele, pois ele é o meu competidor. Então vou me isolando cada vez
mais e, com isso, perdendo a possibilidade de acessar a minha potência. A longo prazo e em larga escala, essa
prática termina por comprometer a sociedade como um todo."
Caminhos para ressignificar a produtividade
Para a psicóloga, romper com o ciclo exige mais do que estratégias
individuais de autocuidado. “Não basta dizer que saúde mental é prioridade se o
ambiente continua premiando quem sacrifica a vida pessoal, a saúde física e os
limites emocionais em nome da entrega. Precisamos ressignificar o que significa
‘ser produtivo’”, defende.
Segundo ela, práticas como a regulação emocional, o mindfulness e a construção de relações seguras, inclusive no trabalho, podem ajudar a transformar esse cenário. “O desempenho saudável é aquele que nasce do equilíbrio, da conexão com o próprio corpo e da possibilidade de estar em relações nutritivas. Quando nos damos conta de que não precisamos ser perfeitos para sermos dignos de amor e pertencimento, começamos a construir outra forma de viver”, conclui.
Bruna Madureira - Facilitadora e Palestrante, Psicóloga Clínica e Organizacional - Psicóloga clínica com PhD em Psicologia e mais de 15 anos de experiência em áreas como a Força Aérea Brasileira, o Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio e Recursos Humanos, além de especialista em trauma. Sua abordagem integra Teoria Sistêmica, Gestalt-Terapia, Somatic Experiencing e Mindfulness, promovendo autoconhecimento, regulação emocional e construção de relações baseadas em segurança e pertencimento. É supervisora clínica, palestrante e facilitadora de grupos terapêuticos, com foco no desenvolvimento humano e na transformação pessoal. Acredita no poder das conexões genuínas para fortalecer indivíduos e comunidades, criando espaços onde cada história encontra acolhimento e respeito.
Norte Saúde Mental
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