Certas vidas, certos riscos. O sujeito, em condições adversas, põe-se a transitar pela estrada interditada. O provável acidente acontece. Desacordado, perde o controle do frágil e secreto equilíbrio em que se vinha mantendo entre as duas famílias que constituíra.
No quarto
do hospital, exposto ao debate travado entre pessoas envolvidas na sua vida,
acaba tendo que assumir, justificar e, por fim, defender a sua “causa”. “Causa”
um tanto comum, mas comumente não sabida, ou, “não sabida” porque convém “não
saber”.
Enquanto A
Descida do Monte Morgan se desenrola como comédia, um tema existencial prende a
plateia: é possível ser fiel a si e à\os outro\as ao mesmo tempo? A vida é a
busca livre da felicidade ou o cumprimento compulsório dos compromissos rituais
da Sociedade?
A mim, a
peça me disse que acabamos nos traindo e nos transtornando por darmos demasiada
atenção aos moralismos dominantes. A maioria da crítica vê o enredo como uma
discussão sobre o individualismo; eu prefiro vê-lo como um discurso sobre a
individualidade.
Todo\as
temos vontades, peculiares elas mesmas ou as maneiras de vivê-las. Gostaríamos
de realizá-las, mas nos deparamos com fórmulas sociais postas, às vezes por nós
mesmo\as, como condição para cumpri-las, e acabamos forçando nossa vida a caber
numa delas.
Lyman, o
marido multiplicado, não fugiu da fórmula mais comum de viver o amor: a
condição matrimonial; casou-se, assim como as pessoas em geral se casam. Mas
multiplicou-a, amando duas mulheres, constituindo duas famílias, havendo
filho\as nos dois lares.
Gozava a
vida, mas o seu modo de ser feliz, ademais de ser oficialmente inexistente, era
interditado pelos costumes, então estava certo de que um dia aconteceria um
encontro com uma baita confusão. Aconteceu. Um acidente pediu famílias em
correria ao ente querido.
Por conta
sua, mas à sua revelia, o acidentado, com dois objetos de amor e objeto do amor
de duas, provocou uma reunião de três com intervenção de cinco, a contar
filho\as, ou de sete, a se somar advogado e enfermeira. Portanto, uma discussão
ampliada de relação.
O marido
tem que se explicar a todo\as; ele o faz sobre coisas que sabia. Mas as
mulheres, Theodora e Leah, não sabiam de nada; elas têm, assim, que se explicar
a si mesmas: afinal, que tipo de existência levavam, para nem ao menos saber
com quem estavam vivendo?
Como soía
acontecer às mulheres, sucedia a ambas: as suas vidas próprias eram menos as
próprias vidas e mais a vida do marido comum. As duas, de início, claudicam,
mas depois se aprofundam no saber o que são: uma era mulher do lar; a outra,
negociante.
A peça
baseia-se em texto de Arthur Miller (dramaturgo, 1915-2005; entre outros,
escreveu Morte de um Caixeiro Viajante); sua instigante biografia está na
internet. Reparto algumas das tantas boas reflexões que me fazem declarar gosto
pelo espetáculo: “O que é o principal?”
O principal
é a felicidade? A felicidade se escondia sob o não saber. Não se sabia que
alguém convivia com duas alguéns; esse dessaber fazia a felicidade geral.
Sabê-lo não mudaria os fatos, apenas se os cotejaria com as expressões
ideológicas das regras sociais.
Constrangido\as
ou hipócritas, de fato, entregues demasiado às circunstâncias, não fazemos a
conta do que é o fundamental em nossa existência. “Só queria dizer em voz
alta.” Não pensamos em voz alta, ainda que declaremos admiração à sinceridade
alheia.
“Qual será
o seu futuro arrependimento?” Deixaríamos de fazer alguma coisa se soubéssemos
no que daria? Não há garantias, não é? “Eu decidi enrolar.” Não é incomum
decidirmos não decidir, o que, em muitas ocasiões, pode ser mesmo a melhor
decisão.
“Por que
continuamos juntos depois que descobrimos com quem estamos?” Alguém, mesmo
tendo o nosso querer, já não nos vale muito, a nosso próprio sentir, entretanto
permanecemos, embora desenganado\as, vencido\as e desrespeitado\as, num caso de
amor.
“Se eu for
perdoado, terei que passar o resto da vida de joelhos.” Perdões convertem-se em
créditos sempre exigíveis. Exigíveis, todavia impagáveis: já porque não podemos
pagá-los, já porque não se quer recebê-los. Todo perdoado carrega uma dívida
pesada e inacabável.
É
“impossível ser fiel a si e aos outros ao mesmo tempo e ainda ser feliz.” De
fato, ninguém servirá plenamente, nem às tantas exigências que nos são feitas
pelo\as outro\as, nem muito menos às que nos são feitas por nós próprio\as, que
ninguém se dá basta de se pedir mais.
Isso porém
não significa: ou eu, ou os outro\as. É, apenas, não ser tributário\a de formas
infelizes de viver; quem alcançar ser feliz deve de sê-lo, “e não se desculpar
por isso.” Desculpar-se é “não ter coragem de optar, deixar coisas para trás,
seguir com o que tem vontade”.
“Fazer
o que se quer é falta de lucidez?” Penso que o herói da trama não se preocupou
em infligir seu querer, buscando “violar a lei da hipocrisia”. Sustento que
ele, ainda que à margem da própria vontade, premido pelas circunstâncias do
acidente, temporariamente a revogou.
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista.
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