O escritor austríaco Hugo von Hofmannsthal dizia
que nada aparece na política de um país sem ter antes aparecido na sua
literatura. Não é que a literatura crie a realidade política; é que a linguagem
poética, na medida em que seja uma síntese artística do real, torna comunicável
experiências humanas que, antes, passavam despercebidas para o conjunto da
sociedade. E a política só pode operar em cima dessas experiências que fazem
parte do imaginário comum. Ou, de outro modo: é preciso primeiro que as pessoas
sejam capazes de imaginar e verbalizar os problemas para só então se engajarem
em solucioná-los.
Euclides
da Cunha escreveu Os Sertões para nos dar a
conhecer nossos irmãos sertanejos, aqueles fortes embrutecidos pela aridez do
ambiente e a ambição dos senhores. Depois dele, pintaram também a vida nesses
rincões a Rachel de Queiroz, o Graciliano Ramos, o José Lins do Rêgo e outros.
De posse dessa galeria de imagens, fica-nos impossível ignorar os dramas e
agruras daquele povo — dos que retiram e dos que ficam.
O
abolicionismo, por exemplo. A causa ganhou vulto, sim, por causa da prosa
inflamada de um José do Patrocínio, ou da temperada de um Joaquim Nabuco, mas
principalmente pela poesia inescapável de um Castro Alves.
Daí
que também por vias literárias é que se deva registrar e divulgar o fracasso
sistemático da organização social brasileira no pós-abolição. Foi isso o que
fez, por exemplo, Carolina Maria de Jesus. Preta, favelada e semi-analfabeta,
ela revelou, com sua arte, as condições de miséria — física e moral — em que
viviam os descendentes dos alforriados nas periferias da maior cidade do país.
Aliás, Audálio Dantas, jornalista que descobriu a escritora e fez a edição dos
seus diários, dando-lhes forma de livro (Quarto de
Despejo), conta que a publicação
da obra, um absoluto sucesso de vendas, suscitou debates entre políticos e
técnicos, e que levou à formação de iniciativas como o Movimento Universitário
de Desfavelamento (MUD). Como dizia Hofmannsthal: dos livros para a política.
No
caso das favelas brasileiras, ainda há muito que se falar. Tivemos nas últimas
décadas registros artísticos importantes, como os filmes Cidade de
Deus e Tropa de Elite
e os álbuns dos Racionais MC’s. Mas ainda carece, esse tema, de boa literatura.
E literatura que não seja exatamente de protesto. Porque a linguagem poética é
menos eficaz quando transmutada em deslavada retórica política. Não que a
retórica política não tenha o seu lugar — citamos Patrocínio e Nabuco; é só uma
questão de hierarquia.
Daí
que a literatura social, que se objetive a falar da vida difícil daqueles que
vivem nas periferias, deva ser não uma central de denúncias — como não raro se
faz —, mas um mosaico sincero e realista, com cenas, sim, de violência, de
abandono e de miséria, mas também de ternura, de heroísmo, de sabedoria e de
esperança.
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