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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Seu intestino não está bem? Seu cérebro também não!

 Dr. Luiz Antônio da Silva Sá é especialista em Clínica Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR)

 

É fato que existe uma relação crucial entre saúde digestiva e bem-estar mental, sendo o intestino considerado nosso segundo cérebro. Muitos podem perguntar: “Mas como isto é possível?” A resposta é muito clara: sim, é mais do que possível, é realidade! 

Aprendemos, desde os bancos escolares, que temos o intestino delgado com a função principal de absorver os nutrientes necessários à nossa vida, e o intestino grosso com a função de absorção de água. Ambos são em forma de tubo, medindo em torno de 10 metros de comprimento. E ficamos nisso. Porém, as funções dos nossos intestinos são muito mais do que apenas isso, fazendo parte importante do eixo cérebro-intestino. 

Sabemos que o intestino é um sistema nervoso que possui a impressionante quantia de mais de 100 milhões de neurônios, com 70% das células do sistema imunológico, produzindo mais de 30 neurotransmissores. O órgão também é responsável pela produção e armazenamento de 50% do neurotransmissor Dopamina, responsável pelo humor, aprendizado e memória, e 95% da Serotonina, responsável pelo sono, apetite, digestão e função cognitiva. Portanto, quando há queda no nível dos neurotransmissores, a saúde física, mental e as emoções ficam comprometidas, além de ocorrer maior vulnerabilidade à doenças imunológicas e mentais. 

O nosso bem-estar geral está diretamente relacionado ao funcionamento do intestino. Se ele não estiver funcionando adequadamente, podem ser desencadeadas não apenas alterações gastrointestinais, como também transtornos emocionais e psiquiátricos. Diferente de qualquer outro órgão do corpo, nosso intestino pode funcionar sozinho. Ele tem sua própria autonomia para tomar decisões, não precisa que o cérebro lhe diga o que fazer. 

O que “governa” o intestino é o chamado sistema nervoso entérico (SNE), que é uma “sucursal “do sistema nervoso autônomo do corpo – o responsável por controlar diretamente o sistema digestivo. Esse sistema nervoso se estende pelo tecido que reveste o estômago e o sistema digestório, e possui seus próprios circuitos neurais. 

Mas para que tudo funcione, ele precisa de uma perfeita Microbiota (antes conhecida por Flora Intestinal), que é um conjunto de micro-organismos (bactérias, vírus, fungos e protozoários), que para espanto de alguns, vivem no intestino humano em harmonia com o nosso corpo, nos ajudando em diversos processos, físicos e emocionais.
 

O papel central da microbiota intestinal 

Trata-se de uma comunidade complexa de mais de 100 trilhões de microrganismos (bactérias, vírus, fungos e protozoários) de mais de mil espécies, com um peso estimado entre 1 e 2 kg, cerca de 3 a 10 vezes mais o número de nossas células. 

Somos 90% micróbios e 10% humanos (10 trilhões de células para 100 trilhões de microrganismos), que vivem em harmonia com o hospedeiro, contribuindo para o bem-estar do nosso organismo.

A microbiota tem inúmeras funções cruciais:

  • Defesa contra microrganismos patogênicos.
  • Fortalecimento do sistema imunológico.
  • Auxílio na digestão de fibras e na extração de energia dos alimentos.
  • Favorecimento da absorção de minerais (como Mg, Ca e Ferro).
  • Síntese de vitaminas essenciais (como vitamina K e do Complexo B) e aminoácidos.
  • Regulação do apetite e da saciedade.
  • Influência direta no comportamento e humor por meio de vias neurais, endócrinas e imunológicas.

Caso o mecanismo da microbiota seja alterado, entra-se num processo de Disbiose.
 

Disbiose: desequilíbrio e suas consequências 

A disbiose intestinal é definida como um desequilíbrio na microbiota, caracterizado pela alteração na quantidade e diversidade de bactérias, com aumento de microrganismos prejudiciais. Este estado pode causar inflamação, diminuir a capacidade de absorção de nutrientes e impactar negativamente a saúde.

As causas mais comuns da Disbiose são: 

• Uso excessivo de antibióticos;

• Consumo elevado de alimentos ultraprocessados, embutidos, farináceos, gorduras saturadas, sal e açúcar;

• Tabagismo e consumo de álcool;

• Estresse crônico;

• Sedentarismo;
 

Sintomas e doenças associadas 

A Disbiose manifesta-se com sintomas gastrointestinais (distensão abdominal, alternância entre diarreia e constipação, fezes malformadas) e sistêmicos (cansaço, cefaleia, candidíase de repetição, ansiedade, depressão e problemas de concentração). 

A persistência do desequilíbrio pode levar à maior vulnerabilidade ou progressão de condições graves, como:

• Doenças inflamatórias intestinais (síndrome do intestino irritável, doença de Crohn);

• Doença celíaca e intolerância à lactose;

• Doenças autoimunes (artrite, lúpus) e metabólicas (diabetes tipo 2, obesidade);

• Doenças neurodegenerativas (Doença de Parkinson, Demência de Alzheimer);

• Alguns tipos de câncer, principalmente o colo retal;
 

Estratégias para a saúde intestinal 

O manejo e a prevenção da Disbiose focam na adoção de um estilo de vida saudável e no uso de suplementos específicos:

1. Estilo de vida e alimentação:

• Adoção de uma dieta diversificada rica em fibras (frutas, verduras, grãos integrais, oleaginosas, sementes);

• Inclusão de alimentos fermentados (iogurtes, kefir, kombucha);

• Prática regular de exercício físico;

• Hidratação adequada;

• Gerenciamento do estresse e garantia de sono de qualidade;

2. Suplementação Específica:

• Probióticos: Microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do hospedeiro, reequilibrando a microbiota e fortalecendo a barreira intestinal. Estão presentes em leites fermentados, iogurtes, kefir, ou na forma de cápsulas e pós;

• Prebióticos: Componentes alimentares não digeríveis que estimulam seletivamente o crescimento e/ou a atividade de bactérias benéficas no cólon. Encontrados em alimentos como cebola, alho, banana, aveia e aspargos;

Em casos graves e refratários, como a colite pseudomembranosa por Clostridium difficile, o Transplante de Microbiota Fecal (TMF) – a transferência de fezes de um doador saudável – é uma opção terapêutica com resultados promissores.

O transplante de fezes também parece ser promissor no tratamento de outras doenças, como síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal, como a doença de Crohn, obesidade, doenças mentais como doenças de Parkinson e Alzheimer e, até, autismo.
 

Para finalizar, deixo aqui dois conselhos: 

1)- Descasque mais, desembale menos;

2)- Pense no seu microbioma como um animal de estimação, ele precisa ser alimentado diariamente.

 

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