Dr. Luiz Antônio da Silva Sá é especialista em
Clínica Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica
Mackenzie do Paraná (FEMPAR)
É fato que existe uma relação crucial entre saúde digestiva e bem-estar mental, sendo o intestino considerado nosso segundo cérebro. Muitos podem perguntar: “Mas como isto é possível?” A resposta é muito clara: sim, é mais do que possível, é realidade!
Aprendemos,
desde os bancos escolares, que temos o intestino delgado com a função principal
de absorver os nutrientes necessários à nossa vida, e o intestino grosso com a
função de absorção de água. Ambos são em forma de tubo, medindo em torno de 10
metros de comprimento. E ficamos nisso. Porém, as funções dos nossos intestinos
são muito mais do que apenas isso, fazendo parte importante do eixo
cérebro-intestino.
Sabemos que o intestino é um sistema nervoso que possui a impressionante quantia de mais de 100 milhões de neurônios, com 70% das células do sistema imunológico, produzindo mais de 30 neurotransmissores. O órgão também é responsável pela produção e armazenamento de 50% do neurotransmissor Dopamina, responsável pelo humor, aprendizado e memória, e 95% da Serotonina, responsável pelo sono, apetite, digestão e função cognitiva. Portanto, quando há queda no nível dos neurotransmissores, a saúde física, mental e as emoções ficam comprometidas, além de ocorrer maior vulnerabilidade à doenças imunológicas e mentais.
O nosso bem-estar geral está diretamente relacionado ao funcionamento do intestino. Se ele não estiver funcionando adequadamente, podem ser desencadeadas não apenas alterações gastrointestinais, como também transtornos emocionais e psiquiátricos. Diferente de qualquer outro órgão do corpo, nosso intestino pode funcionar sozinho. Ele tem sua própria autonomia para tomar decisões, não precisa que o cérebro lhe diga o que fazer.
O
que “governa” o intestino é o chamado sistema nervoso entérico (SNE), que é uma
“sucursal “do sistema nervoso autônomo do corpo – o responsável por controlar
diretamente o sistema digestivo. Esse sistema nervoso se estende pelo tecido
que reveste o estômago e o sistema digestório, e possui seus próprios circuitos
neurais.
Mas
para que tudo funcione, ele precisa de uma perfeita Microbiota (antes conhecida
por Flora Intestinal), que é um conjunto de micro-organismos (bactérias, vírus,
fungos e protozoários), que para espanto de alguns, vivem no intestino humano
em harmonia com o nosso corpo, nos ajudando em diversos processos, físicos e
emocionais.
O papel
central da microbiota intestinal
Trata-se de uma comunidade complexa de mais de 100 trilhões de microrganismos (bactérias, vírus, fungos e protozoários) de mais de mil espécies, com um peso estimado entre 1 e 2 kg, cerca de 3 a 10 vezes mais o número de nossas células.
Somos
90% micróbios e 10% humanos (10 trilhões de células para 100 trilhões de
microrganismos), que vivem em harmonia com o hospedeiro, contribuindo para o
bem-estar do nosso organismo.
A
microbiota tem inúmeras funções cruciais:
- Defesa contra microrganismos patogênicos.
- Fortalecimento do sistema imunológico.
- Auxílio na digestão de fibras e na extração de energia dos
alimentos.
- Favorecimento da absorção de minerais (como Mg, Ca e Ferro).
- Síntese de vitaminas essenciais (como vitamina K e do Complexo B) e
aminoácidos.
- Regulação do apetite e da saciedade.
- Influência direta no comportamento e humor por meio de vias
neurais, endócrinas e imunológicas.
Caso o mecanismo da microbiota seja alterado,
entra-se num processo de Disbiose.
Disbiose: desequilíbrio e suas consequências
A disbiose intestinal é definida como um
desequilíbrio na microbiota, caracterizado pela alteração na quantidade e
diversidade de bactérias, com aumento de microrganismos prejudiciais. Este
estado pode causar inflamação, diminuir a capacidade de absorção de nutrientes
e impactar negativamente a saúde.
As causas mais comuns da Disbiose são:
• Uso excessivo de antibióticos;
• Consumo elevado de alimentos ultraprocessados,
embutidos, farináceos, gorduras saturadas, sal e açúcar;
• Tabagismo e consumo de álcool;
• Estresse crônico;
• Sedentarismo;
Sintomas e doenças associadas
A Disbiose manifesta-se com sintomas gastrointestinais (distensão abdominal, alternância entre diarreia e constipação, fezes malformadas) e sistêmicos (cansaço, cefaleia, candidíase de repetição, ansiedade, depressão e problemas de concentração).
A persistência do desequilíbrio pode levar à maior
vulnerabilidade ou progressão de condições graves, como:
• Doenças inflamatórias intestinais (síndrome do
intestino irritável, doença de Crohn);
• Doença celíaca e intolerância à lactose;
• Doenças autoimunes (artrite, lúpus) e metabólicas
(diabetes tipo 2, obesidade);
• Doenças neurodegenerativas (Doença de Parkinson,
Demência de Alzheimer);
• Alguns tipos de câncer, principalmente o colo
retal;
Estratégias para a saúde intestinal
O manejo e a prevenção da Disbiose focam na adoção
de um estilo de vida saudável e no uso de suplementos específicos:
1. Estilo de vida e alimentação:
• Adoção de uma dieta diversificada rica em fibras
(frutas, verduras, grãos integrais, oleaginosas, sementes);
• Inclusão de alimentos fermentados (iogurtes,
kefir, kombucha);
• Prática regular de exercício físico;
• Hidratação adequada;
• Gerenciamento do estresse e garantia de sono de
qualidade;
2. Suplementação Específica:
• Probióticos: Microrganismos vivos que, quando
administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do
hospedeiro, reequilibrando a microbiota e fortalecendo a barreira intestinal.
Estão presentes em leites fermentados, iogurtes, kefir, ou na forma de cápsulas
e pós;
• Prebióticos: Componentes alimentares não
digeríveis que estimulam seletivamente o crescimento e/ou a atividade de
bactérias benéficas no cólon. Encontrados em alimentos como cebola, alho,
banana, aveia e aspargos;
Em casos graves e refratários, como a colite
pseudomembranosa por Clostridium difficile, o Transplante de Microbiota Fecal
(TMF) – a transferência de fezes de um doador saudável – é uma opção
terapêutica com resultados promissores.
O transplante de fezes também parece ser promissor
no tratamento de outras doenças, como síndrome do intestino irritável, doença
inflamatória intestinal, como a doença de Crohn, obesidade, doenças mentais
como doenças de Parkinson e Alzheimer e, até, autismo.
Para finalizar,
deixo aqui dois conselhos:
1)- Descasque
mais, desembale menos;
2)- Pense no seu
microbioma como um animal de estimação, ele precisa ser alimentado diariamente.
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