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sábado, 22 de novembro de 2025

Quem cuida de quem cuida? A saúde emocional dos cuidadores familiares

Mês Nacional dos Cuidadores Familiares reforça a importância de apoio psicológico e práticas de autocuidado para reduzir a sobrecarga emocional desses profissionais


No Brasil, milhões de pessoas assumem diariamente o papel de cuidar de familiares em situação de dependência, seja por idade, doença ou deficiência. Esses cuidadores, muitas vezes sem formação específica ou apoio formal, enfrentam uma rotina de intensa dedicação física e emocional. Em novembro, mês dedicado à valorização dos cuidadores familiares, o alerta se volta para a saúde mental de quem dedica a vida ao bem-estar do outro.

De acordo com Guilherme Góis, psiquiatra do grupo ViV Saúde Mental e Emocional em Curitiba, cuidar de alguém é um gesto profundamente humano, mas também pode se tornar uma experiência extenuante quando não há equilíbrio entre o cuidado oferecido e o autocuidado.

“O cuidador tende a colocar as necessidades do outro sempre em primeiro lugar. Com o tempo, isso pode gerar sobrecarga emocional, cansaço extremo, isolamento social e sintomas de ansiedade ou depressão”, explica.

 

Cuidar pode adoecer

Um estudo publicado em 2023 na Revista Enfermagem UERJ identificou sobrecarga emocional em 69,6% dos cuidadores de idosos atendidos em serviço de atenção domiciliar e sintomas sugestivos de depressão em 41,1% dos participantes. A pesquisa reforça a forte associação entre o excesso de demandas e a piora da qualidade de vida desses cuidadores.

Em nível global, revisões sistemáticas também têm apontado prevalências altas de sofrimento emocional entre cuidadores informais. Uma meta-análise publicada em 2022 na Frontiers in Psychiatry analisou estudos sobre cuidadores de pacientes com câncer e mostrou que mais de 40% apresentavam sintomas de ansiedade ou depressão clinicamente significativos.

Resultados semelhantes foram observados em uma revisão sobre cuidadores de pessoas com demência, publicada em 2020 no Journal of Affective Disorders, que identificou taxas próximas de 50% de sintomas depressivos e de estresse elevado.

Para o Dr. Góis, esses números refletem o peso invisível do papel de cuidador. “O cuidado é uma forma de amor, mas quando não há suporte emocional ou divisão de responsabilidades, ele pode se transformar em um fardo. A pessoa passa a viver em função do outro, negligenciando a própria saúde e os próprios vínculos sociais”, afirma o especialista.

 

Sinais de sobrecarga emocional

Segundo o psiquiatra, há sinais claros de que o cuidador pode estar sobrecarregado: irritabilidade constante, dificuldades de sono, sentimento de culpa por desejar descanso, queda no desempenho profissional ou nas atividades diárias e até sintomas físicos, como dores de cabeça e tensão muscular.

“Esses sinais precisam ser reconhecidos precocemente. O cuidador precisa entender que também é alguém que merece cuidado e atenção”, orienta o Dr. Góis.

Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 8 milhões de brasileiros desempenham o papel de cuidadores informais, sendo a maioria mulheres entre 40 e 60 anos. Deste grupo, mais de 70% relatam não ter tempo para si, o que eleva significativamente o risco de adoecimento emocional e físico.

Estudos da Fiocruz também apontam que, durante a pandemia de Covid-19, esses cuidadores foram um dos grupos mais vulneráveis ao estresse crônico, devido ao isolamento, à sobrecarga e à escassez de redes de apoio.

 

Estratégias de autocuidado e apoio psicológico

A prevenção da sobrecarga envolve tanto o reconhecimento do próprio limite quanto a busca de estratégias de apoio. Para o Dr. Góis, pequenas atitudes podem fazer grande diferença, como reservar períodos diários para descanso, manter contato com amigos e familiares e dividir as responsabilidades do cuidado sempre que possível.

“É importante que o cuidador não se sinta culpado por precisar de tempo para si. Esse tempo é essencial para que ele consiga continuar cuidando com qualidade”, afirma.

O apoio psicológico também é uma ferramenta fundamental. A escuta profissional ajuda o cuidador a compreender suas emoções, reorganizar suas prioridades e lidar com a culpa e a exaustão.

“Muitos só procuram ajuda quando já estão em sofrimento intenso, mas quanto antes o suporte for buscado, maiores as chances de evitar um quadro depressivo ou ansioso”, ressalta o especialista da ViV.

 

Cuidar de quem cuida é responsabilidade de todos

A sobrecarga dos cuidadores familiares é um tema que precisa ser tratado como questão de saúde pública. Segundo o psiquiatra, oferecer suporte a essas pessoas é investir na saúde coletiva.

“Quando o cuidador adoece, toda a rede de cuidado se fragiliza. Por isso, é essencial que familiares, profissionais de saúde e políticas públicas reconheçam essa realidade e criem mecanismos de apoio emocional e social para quem dedica sua vida a cuidar do outro”, conclui.

 

ViV Saúde Mental e Emocional


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