Estudo mostra ainda que 96% dos jovens já sofreram
algum tipo de agressão. Os pais também relatam medo e falta de apoio das
escolas.
Estudo da Minds&Hearts, empresa da HSR Specialist Researchers, o maior
grupo independente de pesquisa da América Latina, em parceria com a psicanalista
e educadora Carolina Delboni, mostra que o bullying no Brasil começa cedo, preocupa as famílias e
ainda encontra poucas respostas efetivas nas escolas. Entre os jovens, 60%
afirmam ter vivido episódios antes dos 10 anos e 96% já sofreram algum tipo de
agressão verbal, psicológica ou física. Do outro lado, 85% dos pais acreditam
que o problema é comum nas escolas e 33% relatam que seus filhos já passaram
por situações de violência. O resultado é um cenário em que alunos e famílias
reconhecem o problema, mas se sentem sozinhos na busca por acolhimento e
prevenção.
Casos de
gordofobia se mostraram mais presentes entre 32% dos alunos da rede privada,
enquanto nas públicas o índice é de 28%. Ataques ligados a gênero e misoginia
foram citados por 25% dos estudantes das escolas particulares, e a mesma
quantidade de alunos relatou já ter sofrido agressões físicas.
A exposição em
redes sociais, como mensagens ofensivas ou cancelamento, é relatada por um em
cada quatro jovens das escolas privadas, contra 16% nas públicas. Entre os mais
velhos, o índice sobe para 31%, e o ambiente digital aparece como uma nova
fronteira de violência, onde piadas e ofensas se confundem.
A angústia dos pais e o silêncio dos filhos
As dores e
inseguranças dos jovens também reverberam dentro das famílias. A percepção dos
pais confirma a gravidade do problema: além de acreditar que o bullying é
frequente nas escolas, 26% dizem já ter presenciado episódios e 42% afirmam
considerar a segurança emocional dos filhos um critério na escolha da
instituição.
A preocupação é
ainda maior entre quem tem filhos adolescentes, que relatam dificuldade em
reconhecer sinais de sofrimento e agir diante de situações de exclusão ou
violência.
Entre os pais, o
maior medo é o silêncio dos filhos. O levantamento mostra que mais da metade
teme que o filho sofra e não conte o que está vivendo, enquanto outros apontam
o receio de que a escola não saiba lidar com o problema. Essa percepção reforça
a importância de políticas de escuta e acolhimento contínuo nas escolas.
As diferenças de
gênero são evidentes. As meninas são as que mais reconhecem o bullying como
violência, mas também as que mais sofrem com gordofobia, machismo e ataques
online. Muitas relatam guardar o sofrimento para si, acumulando sentimentos de
tristeza, vergonha e baixa autoestima. Os meninos, embora igualmente expostos,
tendem a reagir de forma diferente, canalizando a dor em raiva ou desejo de
vingança.
O recorte por
idade mostra uma evolução nos tipos de agressão: entre adolescentes de 16 a 18
anos, 61% relatam episódios de agressão verbal e 44% exclusão social. Já entre
jovens de 19 a 24 anos, aumentam os relatos de agressão física (20%) e ameaças
(12%). Nesse grupo mais velho, cresce também a percepção de que o bullying não
se limita à escola, mas se estende às redes sociais e até ao convívio familiar.
“O bullying não é
uma fase. É um comportamento agressivo, de violência que começa cedo, se repete
e deixa cicatrizes emocionais profundas. Quando a sociedade, inclusive os pais,
por não saberem como lidar com o impacto, minimizam a dor como se fosse algo natural
da idade, fragiliza jovens, prejudica seus vínculos sociais e compromete o
futuro de toda uma geração”, explicou Naira Maneo, sócia-diretora da
Minds&Hearts.
Famílias esperam atitudes das escolas
A escola aparece
como o principal palco das agressões visto que 82% dos adolescentes apontam
esse ambiente como o mais recorrente. Pais confirmam essa percepção: 74%
acreditam que seus filhos já sofreram bullying, mas apenas 24% avaliam que as
instituições têm políticas eficazes de prevenção. Entre os próprios
adolescentes, a confiança é ainda menor, apenas 18% acreditam que suas escolas
estejam preparadas para lidar com o problema.
A consequência
disso é o silêncio. 38% dos jovens não contam a ninguém o que vivem,
e boa parte dos pais sente que não existem canais formais de escuta nas
escolas.
A pesquisa aponta
que a grande maioria das famílias deseja participar ativamente da prevenção.
76% dos pais afirmam que as escolas deveriam criar mecanismos de escuta ativa e
canais de denúncia; 34% acreditam que as instituições tratam o tema de forma
adequada; e 72% apoiam a criação de sistemas de monitoramento contínuo do clima
escolar.
“As famílias veem
e sentem o problema de modo direto. Os pais esperam da escola não apenas
respostas pontuais, mas processos contínuos de escuta e proteção que deem
segurança para a criança falar e para a família confiar”, analisa Carol
Delboni.
As consequências do bullying se estendem no tempo. Seis em cada dez jovens
ainda pensam nos episódios vividos, e mais da metade admitiu ter reproduzido
comportamentos semelhantes. Para Fábio Drigo, também sócio-diretor da
Minds&Hearts, isso cria um ciclo difícil de romper. “Muitos jovens
continuam lembrando do que passaram e, em resposta, repetem as agressões. O
bullying não termina no episódio em si, ele se perpetua. Só pode ser enfrentado
com acolhimento, conscientização e políticas efetivas das famílias, das escolas
e da sociedade.”
Sobre a
pesquisa
A pesquisa foi
realizada entre abril e setembro de 2025, com 1.600 entrevistas online em todo
o Brasil. O estudo contemplou jovens de 16 a 24 anos e pais de filhos de 6 a 17
anos, abrangendo as regiões Sudeste, Sul e Nordeste. A amostra foi dividida por
gênero e tipo de escola, garantindo diversidade e representatividade.
A análise integra
duas frentes complementares: a percepção dos jovens e a leitura das famílias,
ambas conduzidas pela Minds&Hearts, empresa do grupo HSR Specialist
Researchers, em parceria com a educadora Carolina Delboni.
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