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sábado, 8 de novembro de 2025

Bullying começa antes dos 10 anos de idade e a maioria dos jovens sofre em silêncio, revela pesquisa

Estudo mostra ainda que 96% dos jovens já sofreram algum tipo de agressão. Os pais também relatam medo e falta de apoio das escolas.


Estudo da Minds&Hearts, empresa da HSR Specialist Researchers, o maior grupo independente de pesquisa da América Latina, em parceria com a psicanalista e educadora
Carolina Delboni, mostra que o bullying no Brasil começa cedo, preocupa as famílias e ainda encontra poucas respostas efetivas nas escolas. Entre os jovens, 60% afirmam ter vivido episódios antes dos 10 anos e 96% já sofreram algum tipo de agressão verbal, psicológica ou física. Do outro lado, 85% dos pais acreditam que o problema é comum nas escolas e 33% relatam que seus filhos já passaram por situações de violência. O resultado é um cenário em que alunos e famílias reconhecem o problema, mas se sentem sozinhos na busca por acolhimento e prevenção.

Casos de gordofobia se mostraram mais presentes entre 32% dos alunos da rede privada, enquanto nas públicas o índice é de 28%. Ataques ligados a gênero e misoginia foram citados por 25% dos estudantes das escolas particulares, e a mesma quantidade de alunos relatou já ter sofrido agressões físicas.

A exposição em redes sociais, como mensagens ofensivas ou cancelamento, é relatada por um em cada quatro jovens das escolas privadas, contra 16% nas públicas. Entre os mais velhos, o índice sobe para 31%, e o ambiente digital aparece como uma nova fronteira de violência, onde piadas e ofensas se confundem.


A angústia dos pais e o silêncio dos filhos

As dores e inseguranças dos jovens também reverberam dentro das famílias. A percepção dos pais confirma a gravidade do problema: além de acreditar que o bullying é frequente nas escolas, 26% dizem já ter presenciado episódios e 42% afirmam considerar a segurança emocional dos filhos um critério na escolha da instituição.

A preocupação é ainda maior entre quem tem filhos adolescentes, que relatam dificuldade em reconhecer sinais de sofrimento e agir diante de situações de exclusão ou violência.

Entre os pais, o maior medo é o silêncio dos filhos. O levantamento mostra que mais da metade teme que o filho sofra e não conte o que está vivendo, enquanto outros apontam o receio de que a escola não saiba lidar com o problema. Essa percepção reforça a importância de políticas de escuta e acolhimento contínuo nas escolas.

As diferenças de gênero são evidentes. As meninas são as que mais reconhecem o bullying como violência, mas também as que mais sofrem com gordofobia, machismo e ataques online. Muitas relatam guardar o sofrimento para si, acumulando sentimentos de tristeza, vergonha e baixa autoestima. Os meninos, embora igualmente expostos, tendem a reagir de forma diferente, canalizando a dor em raiva ou desejo de vingança.

O recorte por idade mostra uma evolução nos tipos de agressão: entre adolescentes de 16 a 18 anos, 61% relatam episódios de agressão verbal e 44% exclusão social. Já entre jovens de 19 a 24 anos, aumentam os relatos de agressão física (20%) e ameaças (12%). Nesse grupo mais velho, cresce também a percepção de que o bullying não se limita à escola, mas se estende às redes sociais e até ao convívio familiar.

“O bullying não é uma fase. É um comportamento agressivo, de violência que começa cedo, se repete e deixa cicatrizes emocionais profundas. Quando a sociedade, inclusive os pais, por não saberem como lidar com o impacto, minimizam a dor como se fosse algo natural da idade, fragiliza jovens, prejudica seus vínculos sociais e compromete o futuro de toda uma geração”, explicou Naira Maneo, sócia-diretora da Minds&Hearts.


Famílias esperam atitudes das escolas

A escola aparece como o principal palco das agressões visto que 82% dos adolescentes apontam esse ambiente como o mais recorrente. Pais confirmam essa percepção: 74% acreditam que seus filhos já sofreram bullying, mas apenas 24% avaliam que as instituições têm políticas eficazes de prevenção. Entre os próprios adolescentes, a confiança é ainda menor, apenas 18% acreditam que suas escolas estejam preparadas para lidar com o problema.

A consequência disso é o silêncio. 38% dos jovens não contam a ninguém o que vivem, e boa parte dos pais sente que não existem canais formais de escuta nas escolas.

A pesquisa aponta que a grande maioria das famílias deseja participar ativamente da prevenção. 76% dos pais afirmam que as escolas deveriam criar mecanismos de escuta ativa e canais de denúncia; 34% acreditam que as instituições tratam o tema de forma adequada; e 72% apoiam a criação de sistemas de monitoramento contínuo do clima escolar.

“As famílias veem e sentem o problema de modo direto. Os pais esperam da escola não apenas respostas pontuais, mas processos contínuos de escuta e proteção que deem segurança para a criança falar e para a família confiar”, analisa Carol Delboni.

As consequências do bullying se estendem no tempo. Seis em cada dez jovens ainda pensam nos episódios vividos, e mais da metade admitiu ter reproduzido comportamentos semelhantes. Para Fábio Drigo, também sócio-diretor da Minds&Hearts, isso cria um ciclo difícil de romper. “Muitos jovens continuam lembrando do que passaram e, em resposta, repetem as agressões. O bullying não termina no episódio em si, ele se perpetua. Só pode ser enfrentado com acolhimento, conscientização e políticas efetivas das famílias, das escolas e da sociedade.”

 

Sobre a pesquisa

A pesquisa foi realizada entre abril e setembro de 2025, com 1.600 entrevistas online em todo o Brasil. O estudo contemplou jovens de 16 a 24 anos e pais de filhos de 6 a 17 anos, abrangendo as regiões Sudeste, Sul e Nordeste. A amostra foi dividida por gênero e tipo de escola, garantindo diversidade e representatividade.

A análise integra duas frentes complementares: a percepção dos jovens e a leitura das famílias, ambas conduzidas pela Minds&Hearts, empresa do grupo HSR Specialist Researchers, em parceria com a educadora Carolina Delboni.


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