Quase 4 em cada 10 nascimentos no Brasil já ocorrem entre mulheres com
mais de 30 anos. Psicóloga analisa os efeitos emocionais e sociais desse
adiamento
Freepik
O Brasil registrou, em 2023, 2,52 milhões de nascimentos, uma queda de
0,7% em relação a 2022, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística). Esse é o menor número dos últimos cinco anos e o quinto recuo
consecutivo na série histórica. Ao mesmo tempo, cresce a presença de mulheres
com mais de 30 anos entre as mães, que já respondem por quase 4 em cada 10
bebês nascidos no país.
A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto
MaterOnline, explica que esse fenômeno é reflexo de diversas mudanças sociais e
culturais, “o adiamento da maternidade está relacionado a fatores como a
busca pela estabilidade financeira, a dedicação à carreira e a maior
valorização da liberdade pessoal”. Segundo ela, é importante que as
mulheres se sintam seguras em suas escolhas e que contem com o apoio necessário
para viver essa experiência com confiança e tranquilidade.
A escolha da maternidade tardia
Escolher ter filhos em uma fase mais avançada da vida é uma decisão cada
vez mais comum e deve ser apoiada de maneira integral, segundo analisa a
especialista. Schiavo também destaca que o apoio psicológico é importante em
todas as etapas da maternidade, desde o desejo de engravidar até o pós-parto.
“É importante que elas se sintam plenamente apoiadas em suas escolhas. O
suporte emocional, iniciado ainda antes da gestação, contribui para que as mulheres
vivenciem essa jornada de forma segura e respeite suas necessidades e desejos”, explica.
Tira-dúvidas com a psicóloga
Existe um momento certo para ser mãe?
Não existe um momento ou uma forma única de ser mãe. A ideia de uma mãe
perfeita ou de um momento ideal para a maternidade é um mito. O que realmente
importa é que cada mulher se sinta apoiada e segura em sua decisão, com acesso
às informações e ao suporte necessário para viver essa experiência de forma
plena e realista.
O que as mulheres devem considerar antes de adiar a maternidade?
É importante lembrar
que, com o passar dos anos, a fertilidade diminui. Após os 35 anos, engravidar
pode se tornar mais difícil, e os óvulos, que envelhecem com a mulher, aumentam
o risco de complicações como síndromes e abortos espontâneos. Muitas mulheres
só descobrem essas dificuldades ao tentar engravidar mais tarde, por isso, é
fundamental que se informem sobre opções como o congelamento de óvulos, que
pode preservar as chances de uma gestação futura com menos riscos.
Por que a culpa pelo sucesso ou fracasso dos filhos recai sobre a mãe?
Isso tem a ver com a construção da romantização da maternidade, que se
intensificou a partir do século XVIII. Até então, a maternidade não seguia o
caminho do 'amor materno' ou 'instinto materno' como conhecemos hoje. O sucesso
ou fracasso dos filhos passou a ser atribuído diretamente à mãe, excluindo o
pai dessa responsabilidade. Essa ideia se consolidou a ponto de todo o peso da
educação e cuidado com os filhos recair sobre as mulheres.
Qual é o impacto da maternidade na vida das mulheres?
A mulher grávida, muitas vezes, se torna invisível aos olhos da
sociedade. A atenção é deslocada para o bebê, e seus próprios sonhos e
necessidades são frequentemente ignorados. Além disso, vivemos em uma cultura
machista onde, na maioria dos casos, o pai não assume a responsabilidade de
forma equitativa, deixando a mulher sobrecarregada e vulnerável a conflitos
emocionais.
Como essa sobrecarga pode afetar a saúde mental das mães?
A cobrança excessiva sobre as mulheres para que sejam perfeitas na
maternidade pode gerar angústia e questionamentos sobre sua capacidade. Isso
afeta diretamente a saúde mental, gerando ansiedade e outros conflitos
psicológicos, especialmente quando a mulher sente que deve abrir mão de seus
sonhos e projetos pessoais para atender às expectativas sociais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário